Capitulo Dezesseis – Angel

 No enterro de Aaron, choveu tanto quanto em sua morte. Foi tudo muito rápido. Uma explosão aconteceu assim que Beverly saiu do mercado. O moço que pedia informação para ela sumiu. E quando saímos, encontramos Aaron morto, Beverly com os olhos arregalados coberta de sangue e Alef desaparecido. Não sei nem como conseguimos voltar ao sitio. Meu cérebro esqueceu-se de processar essa informação corretamente. Tenho a vaga impressão de Eva chegando um pouco depois da explosão, da Beverly se colocar em frente do meu campo de visão, como se minha presença tivesse a acordado, de ser colocada no chuveiro, o choro de Bonnie ecoando em meus ouvidos e aquele zumbido alto e persistente.

Olho para o Dexter, com um terno inteiramente preto, na frente do caixão, segurando a Bonnie, com o Cam do lado e a Caryn segurando sua mão. Estou preocupada com ele. A Beverly estava ao meu lado. Parecia normal, mas a ultima vez que ouvi sua voz foi quando ela me ordenou a não olhar para Aaron. Faz três dias. O enterro foi simples e Dexter trabalhou incansavelmente para organizá-lo. Aaron vai ser enterrado em uma região mais afastada do sitio de Cam. Os sobrinhos de Cam foram mandados de volta para casa, os riscos são grandes de mais para mantê-los perto de nós.

 Não tivemos uma noticia se quer do Alef. Nada. Parece que ele desapareceu do mapa.

Depois do enterro e de voltamos para casa, meio que nos separamos. Ninguém falou ainda sobre procurar Ítalo. Ainda não absolvi bem essa historia de luta contra Hazazel. Não entendo os motivos. Desconfio que minha mãe pegou o bonde andando, porque ela também não sabe. Deve ser alguma confusão interna dos Sadics. Quem poderia saber morreu ou está de luto.

Ando pelos corredores silenciosos. As crianças barulhentas e sua cacofonia fazem falta. Beverly foi para o atelier pintar, quando ela está estressada ela pinta, minha mãe está com a Bonnie e a Caryn com o Cam. Então eu fiquei sozinha, porque o Dexter sumiu. Faz sentido. Ele deve está cansado.

Vou para a biblioteca, onde finalmente acho o Dexter. Ele estava deitado no sofá, a gravata afrouxada e o colarinho aberto. O terno estava jogado na poltrona próxima. Uma as mãos pendia do sofá e um dos braços estava sobre o rosto. Chego ligeiramente perto. Não sei se ele está dormindo ou chorando. Talvez dormindo depois de chorar. Sei que os Garden eram próximos de Aaron. É uma perda difícil para Dexter, então não tenho vontade de perturbá-lo.

Dou meia volta, mas Dexter segura meu pulso. Olho para ele e seus olhos meio avermelhados se fixam nos meus.

-Fica.                            

Pede com a voz rouca. Não digo nada, só concordo com a cabeça. Dexter solta meu pulso e eu sento no espaço que sobra do sofá marrom. Dexter senta para me acomodar. Ele tem manchas escuras embaixo dos olhos e seu nariz estava um pouco vermelho. Uma sombra cinza formava em seu rosto, sinais de uma barba mal feita. Está exausto. Não faço idéia do que falar para alguém que acabou de perder um ente querido. Meus pêsames e meus sentimentos parecem tão pouco. Eu disse mais cedo, mas ainda sinto a insatisfação de só poder dizer aquilo. O Garden semicerra os olhos para mim e comenta:

-Você está mansa...

-O que quer dizer com isso?

Questiono irritadiça. Ele realmente gosta de ser perturbado ou o que? Dexter, com uma careta de não importa, responde:

-Nada.

-Sei.

Resmungo cruzando os braços. Composto com aquela aura de melancolia, Dexter olha para as próprias mãos. Não sei por que ele me quer aqui. O silencio na sala é opressor. Apesar de gostar de encher o saco de Dexter, não gosto de vê-lo triste. Meu coração fica apertado.

-Se quiser você pode usar meu ombro.

Ofereço, batendo no meu ombro. As sobrancelhas de Dexter levantam. Que tipo de megera louca ele pensa que eu sou? Tsk. Não é como se eu oferecesse meu bom ombro amigo para qualquer um. O Garden comenta:

-Ele é um pouco pequeno.

Eu fecho a cara. Dexter recebe um privilegio e tem a pachorra de negá-lo. O Garden então vira-se de lado e como uma torre tomba até a cabeça encostar em meu ombro. O cabelo dele faz cócegas em meu rosto. Sua pele é um pouco fria e seu cabelo cheirava a hortelã. A cabeça de Dexter é pesada. Com um suspiro e tentando olhar para o rosto dele, questiono?

-Não era um pouco pequeno, Dexter?!

-É o que tem para hoje.

Responde o Garden, fechando os olhos. Fiquei um pouco irritada, mas no âmago do meu ser eu tinha a sensação de que Dexter não estava esnobando meu consolo.

Ficamos um tempo assim. Até eu mexer o ombro. O Garden migra para meu colo.

Algum tempo depois, sua respiração acalma e ele aparenta dormir. A boca estava aberta e os cílios pretos tremiam. Por que ele dorme de boca aberta? Olhando mais perto do seu rosto, vejo sardas pontilhadas na região do nariz e das bochechas. São discretas e fofas. Um pouco temerosa toco no cabelo de Dexter. É preto como pinche, os fios macios como seda, lisos como penas. Dexter funga enquanto minha mão estava enfiada no cabelo dele. Tiro a mão rapidamente.

As presas afiadas de Dexter me chamam a atenção. São brancas e pontiagudas. O dentista dele deve fazer um bom trabalho. Uma súbita vontade de tocá-las me acomete. Será que eu faço? Talvez ele acorde com minha mão em sua boca. Meus dedos tremem. Vou fazer.

A boca de Dexter fecha quando eu começo a me preparar para tocar em suas presas. O Garden abre os olhos e com suspeita pergunta:

-Você não está pensando em coloca a mão na minha boca, né?

-Não estava dormindo?

Desconverso, desviando o olhar. Meu rosto esquenta. Dexter sempre tem esse efeito em mim. Olho novamente para ele. A cara dele deixava claro que sabia que eu ia aprontar. Dexter com um suspiro me responde:

-Senti más vibrações.

-Eu só fiquei curiosa.

Resmungo envergonhada. Ok! Colocar a mão na boca de outra pessoa é uma idéia muito ruim. Uma idéia horrível quando a pessoa em questão tem presas aparentemente afiadas. Eu deveria trabalhar o auto controle. Dexter pisca e comenta:

-Foi assim que ganhei presas.

-Você colocou a mão na boca de um vamp... Presai? Isso foi meio burro?

-Você estava quase fazendo a mesma coisa. E foi um vampiro mesmo.

-Está admitindo?!

Pergunto não perguntando. Chocada. Meu Deus! Jubileu está estranho... Tenho medo. Dexter bate o pé dizendo que não é um vampiro e do nada: na verdade, fui mordido por um. Como não ter medo? O que será que esse homem está aprontando?

Vendo a surpresa estampada na minha cara, o Garden esclarece pacientemente sua expressão pensativa e até nostálgica:

-Não sou um vampiro. Minha transformação está incompleta. Éden me trouxe para cá antes que eu tivesse vontade de beber sangue ou algo do tipo. Como ele não podia ficar assim sempre, Aaron... Cuidou de mim. Se meu pai biológico tivesse feito metade do que meu tio fez por mim, ele seria um bom pai.

-Sinto muito.

Digo entristecida. O tio de Dexter era como um pai para ele. Não sei o que faria se perdesse minha mãe. Só a idéia me deixa triste e desnorteada. Ao mesmo tempo me faz refletir sobre como nem todo mundo tem bons pais e boas mães, como é o caso do pai de Dexter. Algumas pessoas não deveriam ter filhos. Claro, até bons pais são chatos as vezes, mas eu também sou chata, então esperar que minha mãe não seja é ser injusta com ela e comigo.

-Já disse isso hoje.

-Eu sei.

-Obrigado, vou fazer bom proveito do ombro.

Agradece Dexter com uma expressão suave e o fantasma de um sorriso no rosto. Dou-lhe um sorriso e com um tom de brincadeira cheia de verdade digo:

-É bom mesmo, espero que eu não tenha que emprestá-lo novamente.

-Eu também.

Responde Dexter, fechando os olhos.

Dois meses passam desde a morte de Aaron. O luto era como um fantasma, como uma ferida cicatrizando. Nesse meio tempo fiquei mais próxima de Dexter. Ainda nos provocamos, mas já o considero um amigo. Cam e Caryn estão namorando oficialmente. Eva ajuda a minha mãe a procurar Ítalo. Alef não deu o menor dos sinais, o que está dando nos nervos da Beverly.

Depois do jantar, ainda todos postos a mesa, exceto minha mãe e a Bonnie, Beverly solta a bomba e interroga:

-Noticias do Alef?

-Não. Quando isso acontece, ele vai atrás de quem o matou. Normalmente volta assim que completa sua vingança. Está demorando de mais dessa vez.

Responde Dexter se encostando à cadeira. Pelo que eu entendi, Alef levou um tiro e morreu, mas não morreu, por que levantou logo depois e voou para algum canto em alta velocidade. A reação dos Garden me deixa desconfiada de que essa não foi a primeira vez que isso acontece. A Caryn, possivelmente com a mesma desconfiança que eu, questiona:

-Já aconteceu antes?

-Tantas vezes que já não contamos mais.

Responde Cam, levantando e começando a tirar os pratos da mesa. Nossa! Nem sei o que pensar sobre isso. Beverly, com os olhos brilhantes e as sobrancelhas franzida, muito irritada, questiona:

-Desde quando?

-Começou quando os Trouble armaram para ele, há cinco anos mais ou menos. Gaia, a ex-namorada é uma Trouble, e testemunhou contra Alef, alegando que ele matou o único filho de um Ancião importante em um ataque de ciúmes. A questão é que Alef era inocente e o Ancião louco por vingança mandou assassinos atrás dele. Não sabemos o porquê, mas Alef não morre independente do método. A desconfiança é que seja por conta do sangue do pai dele.

Responde Dexter. As pupilas da Beverly contraem. Ela está muito brava. Faz tempo que não vejo a Bev tão brava. A ultima vez foi quando ela defendeu Hannah de acusações infundadas. Tenho medo do que ela pode fazer quando aquele cenho franze.

Sentindo aquele humor raivoso vindo da Beverly, Caryn tenta mudar de assunto perguntando:

-Éden? O cara que criou vocês?!

-Sim, esse mesmo.

Confirma Cam, terminando de empilhar os pratos. Ignorando completamente as tentativas de Caryn, Beverly puxa o assunto da morte de Alef novamente:

-E por que a desconfiança?

-Já aconteceu antes, com um dos filhos de Éden, de morrer, mas não morrer. A diferença entre eles é que Alef experimentou isso mais vezes e que o primeiro filho de Éden, Zachary, morreu de um jeito que acabou mudando sua raça.

Responde Cam, não percebendo o olhar que Caryn estava mandando para ele. Eu já desistir. Quanto mais insistente somos ao resistir a Beverly, pior ela fica. Em momentos como esse dou graças a Deus por ela não ter as emoções a flor da pele ou algo assim. Imagina se usa toda essa energia para tudo nessa vida? Deus que me livre.

-Parece um poder bem apelão.

-Não com as consequências que ele acarreta, Caryn. Alef não volta bem, custa muito dele fisicamente e psicologicamente. É um milagre que não enlouqueceu ainda.

Retruca Dexter, com um olhar pensativo. Para falar a verdade, não acho que o Alef seja tão normal assim. Ele tem uma presença pesada, a mesma que a Bev está desenvolvendo. É como se o ar ao redor dele fosse mais pesado ou algo assim. Isso sem contar que de vez em quando falta um filtro naquela boca. Quer dizer, não sou a pessoa com o maior autocontrole no quesito palavras que eu conheço, mas o Alef conseguia ser chocante até a mim. Por outro lado, a Beverly ouve tudo o que ele diz com uma poker face. Ok! A Beverly sempre fica com cara de boneca, aquele olhar azul radioativo e nenhuma ruga na cara como algum tipo de arte melancólica andante.

Na manhã seguinte, enquanto treino com o Dexter. Não sei qual é a dele, mas Dexter resolveu que ia me ensinar algumas técnicas de auto defesa. Meu físico é bom. Não gosto de acordar cedo, mas gosto de fazer exercício. Sou muito boa em esportes, tenho ódio no coração em direção aos Troubles, e da próxima vez que os encontrar espero no mínimo atrapalhar seus planos de reprodução. Contei para o Dexter que o conhecimento dele será usado para o mal? Not! Vou contar? Também não! Vai dar certo? Quem sabe...

Desfaço o sorriso maligno que se forma na minha cara enquanto tento jogar o Garden contra o chão. Ai ai, se prepara Derek! Vou ter minha vingança pelos hematomas que ganhei naquele empurrão. Quando penso que vou conseguir derrubar o Dexter, ele acha meu ponto fraco e me derruba.

-Você pensa de mais em se vingar do Derek. Eu estou te ensinando pra usar e correr.

Comenta o Garden para minha surpresa. O homem ler mentes? Será que vampiros lêem mentes mesmo?

Entendendo minha cara Dexter me faz uma careta sorridente e me dá um peteleco na testa. Devolvo à careta. Ele gosta de me dar petelecos. Eu devolvo por que não sou obrigada. Na verdade, ele me deixa dar um peteleco nele. Temos um contrato de não fazer com o outro o que não gosta e essa é o alicerce de nosso relacionamento.

Enquanto Dexter me ajuda a levantar, pergunto a ele uma duvida pairando em minha mente:

-Zachary virou o que depois de morrer?

-Um vampiro.

-Sério?

-Sim.

-E por que Alef não virou um também?

-Zachary foi morto por um zumbi, era para ter virado um morto-vivo, mas possivelmente por conta do sangue de Eden, não ficou completamente irracional ou desejoso de carne humana, só de sangue. Inclusive esse é um dos motivos do por que sua mordida é tão contagiosa.

-Ele dorme de boca aberta?

Pergunto desconfiando sobre Zachary ser o vampiro que Dexter colocou a mão na boca. Dexter olha para o lado assim que eu pergunto, respondendo a minha desconfiança.

-Todo vampiro dorme de boca aberta. Quando dormimos as presas relaxam, com a boca fechada elas ferem a gengiva.

-E por que você colocou a mão?

-Por que eu era burro, invejoso e com um forte complexo de inferioridade.

-Não consigo imaginar.

Comento sinceramente. Dexter é alto, bonito, rico, bem sucedido, é inteligente, não consigo imaginar ele não sendo todas essas coisas. É estranho como conhecemos uma pessoa achando que ela sempre foi desse jeito. Com um suspiro, Dexter esclarece:

-Alef é brilhante. Quando éramos pequenos o que era diversão para ele, era um perigo para eu e Cam. E agregando a isso, o pai do Alef o trata como um tesouro, diferente do meu que nunca reconheceu minha existência. Sendo justo, ele também se importa comigo e com o Cam, mas meu eu mais novo não conseguia enxergar isso.

-E então você colocou a mão na boca de um vampiro.

-Mais ou menos isso.

Concorda com um sorriso envergonhado, as orelhas ligeiramente vermelhas. Fofo.

Ficamos em silencio por um momento. Seguindo a questão incomoda do meu coração, então pergunto:

-É um pouco pessoal, mas, por que seu pai biológico, se é que podemos chamar de pai, não te aceita?

Dexter olha para mim. Vejo um lampejo de dor em seus olhos. Do tipo que eu conheço. Quando eu não sabia as circunstâncias do sumiço de Ítalo achei que ele tinha nos abandonado. Ele hesita e eu o acalmo:

-É muito pessoal não precisa responder se não quiser.

-Ele tinha um caso com minha mãe. Mais especificamente, Enzo é um cafajeste que era casado com uma mulher e namorava outra sem que uma soubesse da existência da outra. Quando minha mãe engravidou, ele quis que ela me abortasse. Ele que me contou, acredita?!

Relata Dexter, olhando para o teto da quadra. Sinto uma dor no peito. Enzo é um babaca e quem perde ao não assumir Dexter como filho é ele. Eu não falo isso em voz alta, mas faço cafuné no Dexter em troca. Ele olha para mim e uma risada escapa de seus lábios ao comentar:

-Essa é a segunda vez que você me consola esse mês.

-Vamos evitar que vire um costume.

Retruco rindo com ele.

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