Capítulo Quinze – Casamento de conveniência!

 

Ginger e Levi andaram lado a lado um pouco a distância de suas quatro observadoras. As lamparinas já tinham sido acesas e os sebes eram bem podados. Eles enfrentavam um silêncio constrangedor enquanto andavam.

Ginger, que achou ter ímpeto para algum confronto, teve que admitir que seu ímpeto se perdeu em algum canto. Era diferente quando estava lado a lado com o homem. Ela ficou nervosa, seu coração batia forte e Ginger não sabia como começar a conversa. Ela queria reclamar sobre a lança, mas sua coragem se perdeu. Principalmente por que ele a encarava diretamente e ela não ousava o encarar de volta. Quer dizer, a cara dele a deixava confusa.

Levi por outro lado estava tranquilo, tranquilo. Aquela era a casa onde ele passou a infância e naturalmente ele estava confortável de por estar nela. Levi conseguia ver o nervosismo de Ginger, sua pele adquiriu vários tons de rosa desde que eles ficaram um pouco afastados das acompanhantes. Curioso para saber o que ela tinha contra ele, Levi perguntou:

-Então... Sobre o que precisamos conversar?

Ginger o encarou novamente. Aquela cara bonita, iluminada pela luz das lamparinas não demonstrava nenhuma emoção, exceto curiosidade. Não tinha culpa, constrangimento, condescendência, nadica de nada.

-Você não lembra?

Questionou Ginger, a raiva começando a fumegar em seu peito. Ele quase a atingiu com uma lança e não lembrava? Confuso, Levi viu os tons rosados do rosto de Ginger se tornarem em um vermelho fumegante. Ele tinha feito alguma coisa? Relembrando de seu encontro posterior não lembrava de ter feito nada de errado.

-Perdão?!

-Você quase me atingiu com uma lança!

Respondeu Ginger, tentando conter o a altura de sua voz, que pingava raiva. Como ele não lembrava que quase colocou a vida dela em risco? Era um absurdo!

Levi piscou ao ouvir isso. Não, ele não chegou perto de atingi-la. Ele tinha certeza disso! Treinou a vida toda, o vento não estava forte naquela tarde, a lança era pesada de mais para se mover facilmente e ele tinha uma boa mira. Levi tinha certeza que a lança que ele lançou não atingiria Ginger. E era uma certeza absoluta.

-Não mesmo! Minha mira foi perfeita.

Retrucou Levi. Ginger o olhou com choque. Hãã? A mira dele era perfeita? E se naquele dia não estivesse perfeita? E se ele tivesse dormido mal? Ela morreria? É isso? Com uma carranca e a voz mais alta do que o normal, Ginger replicou:

-HÃÃN?! O vento passou em minha cara! Eu senti na minha bochecha! E se você tivesse errado? Ein? Eu teria morrido?!

-O zumbi estava quase te mordendo! Queria o que? Que eu pedisse, ora, senhor zumbi, faz o favor de se mover para o lado um pouquinho?!

Ironizou Levi, se irritando também. A mulher nem o agradeceu por ter salvo a vida dela, só estava ali criticando os meios dele. Se ela não fosse tão lenta e medrosa, nada disso teria acontecido. Ginger ignorou o tom condescendente, irritante e sarcástico e replicou:

-Que me avisasse!

-Era mais rápido finalizar o zumbi!

Retrucou Levi com o tom mais incisivo. Ginger o encarou, confusa com a pequena careta que escapou do rosto de Levi. Os olhos dela o analisaram por um tempo, irritada, mas concedendo que possivelmente ela não desviaria rapidamente.

-Você sabe que se tivesse errado eu teria ido de vala, né?

Questionou Ginger, com o tom de voz normal, mas o olhar cheio de reprovação. Como alguém com poucas chances de sobrevivência em caso de um ataque zumbi, Ginger já tinha se acostumado a depender da habilidade alheia para sobreviver. Ela se sentia um parasita, mas isso não significava que Ginger gostava de ver sua vida em risco à toa. Também não gostou do tom distante de Levi. Ou da arrogância dele.

-Não iria errar não.

Insistiu Levi, cruzando os braços. Por que essa conversa parecia está andando em círculos? Ginger, com uma cara de desprezo adequada para a situação replicou:

-Ser arrogante com a vida alheia é fácil, né?

-Mulher, eu sei do que estou falando.

-Hummru.

Grunhiu Ginger, sem acreditar muito. Ela tinha uma vida muito frágil para correr tais riscos. Irritado, Levi retrucou:

-Eu ainda salvei sua vida.

Ele se sentiu um pouco mesquinho por lembra-la disso.

-De fato, salvou.

Concordou Ginger, mas não esboçou nenhuma intenção de agradecê-lo. Não que ela não fosse grata, só era mais rancorosa do que grata. Ela tinha muita dificuldade para esquecer de seus rancores, e já estava pouco disposta a fazê-lo por Levi. Quer dizer, se ele estava certo em não admitir que poderia tê-la matado sem querer, ela estava certa em não o agradecer por tê-la salvado. Ele poderia ao menos pedir desculpas pelo susto.

Levi observou Ginger se aquietar depois de concordar com ele. Ela não agradeceu, ele não se desculpou, um silencio se formou. E os dois não se deram o trabalho de se dirigirem a palavra pelo resto da noite.

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-Você ainda que se casar com o príncipe sombrio?

Perguntou Soul, não escondendo a diversão entre suas sobrancelhas. As moças estavam todas reunidas no quarto. Ginger sentada e emburrada, Soul vestindo o pijama e Beverly penteando seus cabelos com cuidado.

-Soul...

Murmurou Beverly cheia de repreensão, encarando sua irmã mais velha. As coisas não saíram como o desejado e Ginger estava claramente se mordendo de frustação por isso.

-O que? Ela o odeia...

Replicou Soul, olhando sua irmã Ginger muito emburrada, com o bico do tamanho do mundo. Ginger não estava de bom humor. Sombrio, tudo bem... Arrogante por outro lado, era um defeito desagradável e insuportável. E daí que ele tinha uma cara bonita? Aquele príncipe não tinha noção.

Vendo Ginger não responder, ao invés disso seu queixo franzir ainda mais, Soul novamente perguntou:

-Você vai desistir do noivado?

-Você quer que eu morra nos dentes de uma horda, é?

Explodiu Ginger, se levantando de supetão, com os olhos arregalados e o rosto avermelhado. Soul olhou para Beverly que deu de ombros, a ignorando. Ela estava esperando o que mesmo? Era obvio que Ginger estava em pico de estresse.

-Claro que não!

Replicou Soul, um pouco corada. Ginger como se não tivesse ouvido, continuou a esbravejando:

-Por que parece! Obvio que não vou desistir do noivado. Eu e o Levi vamos fazer o que precisamos fazer e fingir que não nos conhecemos depois! É isso que significa casamento de conveniência!

Soul e Beverly olharam para Ginger que respiravam pesadamente e depois se olharam. Soul piscou confusa. Vamos fazer o que precisamos fazer? E Ginger sabia o que precisava fazer? Quem contou? A mulher só pensava em bordado e em fugir de zumbis. Um pouco chocada, Soul quase que com medo da resposta lentamente perguntou:

-Você sabe o que precisa fazer?

-É claro que sei! Eu estava lá quando a mamãe explicou para a Bev.

Respondeu Ginger, com a maior cara de tacho. Naquele dia ela descobriu coisas que não tinha certeza se queria saber, mas agora que sabia, ela podia estufar o peito para dizer que tomou sua decisão conscientemente. É claro que ela sabia como os bebês eram feitos!

Beverly quase caiu da cadeira com a informação, seu rosto se tingindo com um vermelho próximo da cor de seu cabelo. Soul olhou para Ginger desnorteada. Como filha mais velha ela já tinha tido a conversa, antes de se alistar ao exército. O mesmo com a Beverly. Inclusive, com a Beverly aconteceu duas vezes, uma quando ela se alistou e outra quando começou a namorar. E Beverly não lembrava da presença de Ginger em nenhuma das duas conversas.

-Hãã?! Onde?

-Embaixo da mesa Beverly! Óbvio.

Respondeu Ginger, cruzando os braços. Ginger com uma indignação mal contida questionou:

-Você estava espiando?

-Claro que não! Vocês que entraram de supetão.

-E o que você estava fazendo de baixo da mesa?

Perguntou Soul, com os olhos arregalados, sentindo-se como alguém que levou uma pedrada na cabeça. Ela sentia que ouvia, entendia, mas não compreendia. Ginger, ignorou o estado da irmã e respondeu com um dar de ombros:

-Pensando.

-Pensando?!

-Deu vontade.

Respondeu Ginger, dando de ombros e se levantando para ir dormir. O dia foi mais longo do que ela imaginava.


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