Capítulo Dezesseis – Alerta! Alerta! Casamento em perigo!
Para o desespero dos anciões de suas
respectivas famílias, Ginger e Levi passaram a semana fingindo que não
existiam. Não foi encontrado um sinal se quer de ânimo para esse casamento
entre eles.
Levi trabalhava como se não houvesse
amanhã e Ginger bordava e costurava coisas estranhas em seu enxoval.
Beverly um dia chegou do trabalho e a
encontrou bordando flores secas no enxoval. É importante frisar que o enxoval
de Ginger era um dos mais bonitos que Eleonora, uma princesa de uma terra
distante, já vira. Era coeso, as cores bonitas, o bordado de qualidade,
complexo e delicado, uma obra de arte. O esmero brotava por todos os cantos
daquele conjunto de colcha e fronhas. E Ginger estava simplesmente o
estragando.
Chocada, Beverly questionou:
-Ele não estava pronto?
-Não! Depois que eu conheci o Levi,
pensei melhor! Ele não merece deitar sobre o meu melhor!
Replicou Ginger, enfiando mais uma vez a
agulha no tecido como se imaginasse espetando o Levi. Ela ficava irritadiça ao
pensar nele. E tinha entrado em uma espiral de reclamação sobre Levi constante.
O problema é que como ela não o conhecia a muito tempo não conseguia se deixar
levar por muitos pensamentos acusadores. E se estivesse o injustiçado? Ginger
queria reclamar, não ser injusta.
Beverly olhou para sua mãe, que apenas
balançou a cabeça. Eleonora estava preocupada. Ginger parecia não gostar do
noivo, mas não falava nada sobre terminar o noivado. Isaac e Eleonora já a
tinham a perguntado algumas dezenas de vezes, mas a moça era cabeça dura.
-Mas ele vai perceber que está deitando
sobre flores feias?
Questionou Beverly com pena da colcha
obra-prima. Quer dizer, geralmente os homens não se impostavam com esses
detalhes. Ginger para de espetar sua colcha obra-prima e seus olhos brilham
como se ela tivesse tido uma epifania:
-Você tem razão! Ele é um tapado!
-É?
Eleonora e Beverly entoam em um coral.
Elas se olham chocadas. Levi é um tapado? Como assim? Elas nunca tinham ouvido
falar sobre isso. Ignorando a reação dos seus parentes Ginger, com a voz aumentando
cada vez mais de indignação, continua:
-Ele não perceberia que foi de propósito
e só acharia que eu sou ruim em bordar! Eu não aceito isso!
-Quer cancelar o noivado?
Perguntou Eleonora, um pouquinho
esperançosa. Não sacrificaria sua filha pela barreira. Para Eleonora, que era
estrangeira, havia um motivo muito claro pelo qual o povo de One Hall ainda
sofria com a maldição que os afligia: eles ainda fariam qualquer coisa para
manter a própria vida, incluindo sacrificar os mais fracos, grupo do qual
Ginger era inclusa. One Hall precisava de uma mudança de mentalidade que os
faria virar do averso para que a maldição começasse a se findar.
-Não! Eu só preciso de um filho, não é?
Ir para guerra ou ter uma criança? Não é uma escolha tão difícil assim.
Respondeu Ginger, cruzando os braços.
Seus pais estavam a enchendo o saco com aquele papo. Ela já tinha se decidido.
Ia casar com aquele príncipe sombrio tapado, ia ter um rebento, criaria a
criança (para que ela não fosse uma tapada igual o pai) e quando o rebento
fosse adulto aproveitaria de uma aposentadoria de mil anos. Isso tudo fingindo
não conhecer Levi mais do que necessário. Era muito melhor do que ir três anos
para o fronte e encarar seu maior medo, correndo o risco de desmaiar e ser
devorada por mortos. O Levi não era mais desagradável do que os mortos. Não
mesmo. Ele não tinha bafo, seu rosto era bonito e era muito atraente. Eleonora
por outro lado, suspirou. Sabia que Ginger sabia a parte teórica, mas nessas
questões de intimidade, muitas variáveis influenciava a prática. Achar o
parceiro atraente era só a base da montanha.
-Pode ser muito difícil se você não gosta
do seu parceiro.
-A cara dele é bonita, mamãe! Eu gosto
dela.
-Ginger, seu parceiro sexual precisa
gostar de você, não só de seu corpo!
Repete Eleonora, o tom de voz subindo,
cansando de usar eufemismo. A preciosa filha que ela criou estava querendo
caminhar por estradas desagradáveis e Eleonora não tinha certeza se estava se
comunicando corretamente com ela. Ginger encara sua mãe, que parecia mais
cansada do que brava. Ela sentiu seu próprio olho tremer.
-Beverly, preciso conversar sua irmã.
Depois que Beverly saiu, Eleonora sentou na
beira da cama de Ginger. Ela suspirou a olhar sua filha mais nova. A situação
das gêmeas eram diferentes. Beverly foi aconselhada por que era muito
apaixonada por Abraham. Eram um casalzinho cheio de fogo e tanto os Garden
quanto os Blackblood sentiam que um neto em comum era uma possibilidade
altíssima. Eles ficariam poucos surpresos, mas Eleonora se sentia na obrigação
de colocar um pouco de areia nesse fogareiro. Sua filha tinha apenas quinze na
época, não era com homens e bebês que ela deveria estar se preocupando. A
conversa delas funcionou, e era evidente que Bev passou a limitar os avanços de
Abraham. Ginger por outro lado tinha mais interesse em romances fictícios do
que procurar os reais. Mal saia de casa, não conversava com estranhos e tinha
uma cara de julgadora icônica na vila. Isso sem contar a perseguição constante
dos mortos.
-Eu sei que você ouviu a minha conversa
com a Beverly, mas são situações diferentes. A um motivo pelo qual a primeira
vez é conhecida por ser desagradável, se não muito ruim. É confuso, dói,
sangra, é constrangedor... Em suma, certamente foi a pior relação que eu tive...
-Significa que melhorou.
-Sim! Por que seu pai me ama e eu me
senti confortável em conversar com ele sobre isso. E resolver o que precisava
ser resolvido. Ele gostava de mim. Não só do meu corpo. Não fizemos vocês por
obrigação, eu gosto de ser intima dele. Eu não quero que você entre nisso
apenas para ser usada, apenas para ter filhos. Você é tão preciosa minha filha.
Eu prefiro ir pra guerra em seu lugar, matar zumbis, me sujar de entranhas e
sangue do que casar com você com qualquer homem que não goste de quem você é,
que só queira o seu corpo. Você está entendendo?
-Estou.

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