Capítulo Dezessete – Gengibre e afins.

 Levi estava em seu treino diário quando William, seu mordomo, chegou avisando-o que tinha visita.

Era muito cedo de manhã e Levi teve uma das raras noites de sono bem dormida. Seu pai o tinha dado folga compulsórias. O velho praticamente lhe disse “tu só pode matar zumbis se eles surgirem de baixo do teu nariz, tirando isso só saia de casa pra cortejar sua noiva”. A culpa era de Ginger, quer dizer, dos pais de Ginger. Eles estavam preocupados e não escondiam isso. As poucas vezes que Levi se encontrou com Eleonora ele podia sentir os olhos dela quase o queimando. Isaac era mais acessível, mas tudo o que ele dizia parecia um teste. Levi sentia que aquele casal queria leva-lo ao limite. Talvez porque Ginger não tinha desistido do noivado, eles estavam tentando fazê-lo desistir.

Então imagine sua surpresa ao entrar em sua sala de estar e ver Ginger Garden praticamente passeando dentro dela. Ela parecia extremamente contrastante ali naquela sala de cores escuras e meio iluminada com seu vestido claro e seus trejeitos delicados e afetados, observando os moveis e quadros na sala de estar com muito interesse. Ginger para olhar muito atentamente o quadro de família que estava pendurado ali. Era um dos poucos quadros onde Eva, mãe de Levi, aparecia. Dos três que foi feito, um ficou com Éden, outro com Levi e o último com o segundo filho de Eva. Éden mandou fazê-los pouco tempo antes de Eva adoecer e morrer. Ginger obviamente não sabia disso, mas parecia intrigada. Reconheceu Éden e imaginou que a mulher de cabelos pretos no quadro fosse a mãe de Levi. Abraham era o pitituco com a mecha branca e Levi era o garotinho de bochechas rosadas sorrindo para a mãe. Ele parecia ter covinhas. Ginger pensou que era intrigante, então ele não nasceu em uma noite sem lua.

-Srta. Garden, o que faz aqui?

Questionou Levi, depois de decidir que estava muito tempo esperando-a sair de seus pensamentos e percebê-lo.

Depois de cumprimentá-lo, Ginger sentiu um pouco de constrangimento em vê-lo. Ele parecia um pouco desarrumado, mas não alguém que tinha acabado de sair da cama. Ginger sabia que era muito cedo, mas queria evitar que seus pais viessem juntos. Então ela só mandou a governanta avisá-los quando eles acordassem e pegou a carruagem junto com Soul e Beverly.

Sentindo seu rosto esquentar, Ginger, um pouco esbaforida, respondeu:

-Vim conversar.

-Às sete da manhã?

Questionou Levi, um pouco surpreso. Ainda não tinha dado a terceira badalada do dia. Quem fazia visitas tão cedo de manhã se não fosse urgente? Parece que sua noiva era esse tipo de gente. Ginger piscou antes de responder. Era tão cedo? Ela não tinha dormido muito bem desde que colocou na cabeça que conversaria com Levi e queria resolver isso o mais rápido possível, nem passou por sua cabeça que poderia estar sendo inconveniente até ele dizer as horas.

-Seu pai disse que você acordava com o sol. E que hoje era seu dia de folga. Estou sendo inconveniente? 

-Eu não tomei café ainda. Se importa de me acompanhar?

Convida Levi, se dirigindo ao pátio. Ficou na dúvida sobre se importar ou não com uma visita tão cedo. Quer dizer, ele acordou com o nascer do sol e ela não chegou a atrapalhar seu treinamento, mas mesmo assim, ainda era muito cedo. Considerando a hora que Ginger chegou, Levi imaginou que suas duas irmãs tinham acompanhado ela até ali. O fato de Ginger conseguir espantá-las fez com que Levi nutrisse um inesperado grau de respeito por ela.

-Sim... Quer dizer, não. Eu vou com você.

-Já comeu?

-Não.

Respondeu Ginger ainda constrangida com a atrapalhação anterior, apertando as saias de nervosismo. Ela não estava conseguindo dormir direito ao pensar no noivado e seus pais estavam claramente cada vez mais estressados. Ginger não queria aumentar a carga de sua família, mas também não queria um casamento onde ela fosse usada e desrespeitada. O Exército estava fora de questão. Ela sentia que estava no limite. E sabia que seu limite era bem curto, por isso decidiu que deveria se encontrar com o Levi mais vezes antes de tomar uma decisão. Não poderia dizer que o conheceria, afinal, como dizem os antigos: precisasse comer um saco de sal junto para conhecer alguém, mas, Ginger poderia ter um conhecimento maior sobre que tipo de temperamento Levi realmente tinha. Ele era do tipo que maltratava os fracos? Mentiroso? Injusto? Com o status dele, ele estava quase no topo da cadeia social e seria fácil encontrar seus defeitos. Talvez achasse defeitos que nem fossem reais.

Seguindo Levi, Ginger chegou ao jardim.

O mordomo que a atendeu, William, os serviu. Levi comeu um monte, enquanto Ginger fugiu de todas as comidas pastosas e doces, dando preferências para salgados e crocantes. Comidas pastosas lhe davam ânsia de vômito e ela já estava enjoada por causa das noites mal dormidas e do dilema.

Levi a observou fugir dos mingaus, dos mamões e das bananas, e escolher mangas, peras, pães e queijos. William tinha mandado a cozinha caprichar e escolheu muitas frutas para o dia. Levi desconfiava que William estava mais animado do que ele para o casamento. Na verdade, toda a casa parecia animada com a expectativa. William já tinha se afastado quando Ginger, ao perceber Levi a olhando, começou a se explicar:

-Comida pastosa me deixa nauseada. Não gosto da textura.

-Você parece que tem gostos muito específicos.

Comentou Levi, tentando não fazer juízo de valor sobre essa informação. Foi um pouco difícil. Sempre foi bom de boca, e admitia que não entendia quem escolhia comida. Quer dizer, toda comida gostosa, era gostosa, as comidas ruins eram comíveis. Textura nunca o incomodou e tinha sorte quando seu olfato não sumia.

-Nasci assim.

Respondeu Ginger timidamente. Ela tentou comer comidas pastosas, mas sempre acabava do mesmo jeito: vomitando. Não sabia o que era que a deixava tão nauseada e para piorar, atualmente, não conseguia nem engolir.

-Você não pode mesmo ir para o exército.

Comentou Levi, o tom muito neutro. Seu pai o tinha contado sobre a odisseia que os Garden enfrentavam para conseguir isenção para Ginger. Levi tinha visto com seus próprios olhos que Ginger não era adequada para enfrentar os mortos. A maioria das pessoas também não eram, mas pelo menos conseguiam correr, elas não desmaiavam diretamente.

-Eu certamente não sobreviveria.

Ginger concordou mordiscando mais um pedaço de pão. O poder para enfrentar zumbis ficou completamente com sua irmã Beverly e não tinha uma fibra em seu corpo que servisse para essa função.

-Seus pais vão tentar uma isenção até o limite do tempo, né?

-Eles certamente têm motivos para se preocupar com esse casamento, não acha?

Questionou Ginger, tentando não pegar outro pedaço de queijo. Levi analisou aquela cara limpa, que tinha os olhos fixos no queijo na mesa. Ela estava falando dos defeitos dela? Ou dos defeitos dele? Certamente, o prognóstico daquela relação não parecia muito bom. Ginger e Levi não escondiam o quão opostos eram. Contudo, Levi sabia que as pessoas não precisavam agir iguais, em tudo, para que se dessem bem. Elas só precisavam de algumas coisas em comum.

-Sua irmã se ofereceu para servir mais três anos na linha de frente, no seu lugar. Pelo menos ela poderia encontrar com Abraham.

-Ela fez isso foi?

-Você não parece muito feliz.

-Todo mundo sabe que tipo de lugar é o fronte. Até alguém como eu. E se o Abraham quiser se encontrar com minha irmã, ele que venha!

Replicou Ginger, o cenho franzido. Não fugiu à Levi que ela parecia muito brava quando falou o nome de Abraham. Obviamente, ele sabia que seu irmão não entrava em contato com a própria noiva desde que entrou no exército e meio que entendia a indignação de Ginger. Na verdade, Abraham mal entrava em contato com eles. Ele se alistou com uma mentalidade orgulhosa, que Levi só poderia descrever como esquisitíssima, de que não iria revelar que era um Blackblood. Seu irmão era um esquisito, era essa a conclusão de Levi.

-De qualquer modo, ela não precisa ir para o fronte, por que vamos casar, não é?

-Lá não é tão assustador para pessoas como sua irmã.

-Você quer me dizer alguma coisa, Alteza?

Questionou Ginger, se irritando. Ela sentia uma sensação estranha com as perguntas e afirmações que Levi fazia. O que era aquilo? Não parecia um interrogatório, não parecia só um comentário e a irritava.

-Estou tentando descobrir que tipo de pessoa você é.

-E já descobriu?

-Você se irrita fácil, exceto por isso, não descobri mais nada.

Respondeu Levi, observando o cenho de Ginger franzir. Ela realmente se irritava facilmente. E ainda irritada, replicou:

-Só isso?

-Certamente sua força foi toda para seu temperamento.

Continuou Levi, a provocando um pouquinho. Ele estava quase acreditando que o vermelho do nome Ginger vinha de sua face sempre ruborizada. Quer dizer, era a única explicação para uma pessoa não ruiva receber um nome tão típico de pessoas ruivas. A não ser que o gengibre estivesse em seu temperamento. Levi se divertiu com seu pensamento, mas duvidava que os pais de Ginger tivessem pensado tão longe. Ninguém olhava para um recém nascido e dizia: humm, essa criança parece que tem personalidade forte, vou chamar de gengibre. Ficou curioso sobre a origem do nome e ignorando o cenho fechado da mulher perguntou sobre.

-Não sei, talvez meus pais só sejam ruins nisso. Quer dizer, minha irmã mais velha se chama Soul! Toda vez que ouço meus pais a chamando não consigo parar de desconfiar que eles quase a chamaram de Ghost ou coisa do tipo. E Beverly é tão aleatório.

-Isso sem contar que Beverly é a ruiva da questão.

-Mas eu nasci ruiva!

Retrucou Ginger enrolando o dedo em seu próprio cabelo e dando uma conferida na cor. Levi piscou os olhos lentamente, sentindo que seu cérebro não estava conciliando a informação com o que sua visão enxergava. Branco era o novo ruivo?

-Desbotei com os anos.

-Isso é possível?

Questionou-se Levi, em voz alta, sentindo-se indignado e ignorando que os humanos também desbotam com os anos. Ginger era uma Imortal, então isso deveria levar alguns milênios, no mínimo séculos, não duas dezenas de anos.

-Bem, é possível para algumas linhagens da raça dos homens vermelhos.

-Achei que só acontecia o oposto, o cabelo cair e nascer vermelho.

-É o normal, mas minha mãe me contou que alguns de nós não passa por esse processo e mesmo assim o cabelo muda. Meu bisavô mudava de vermelho para preto, e vice e versa, ao seu bel prazer.

-Meu pai me contou. E você? Seu cabelo muda para ruivo ao seu bel prazer?

Perguntou Levi, bebericando seu chá. Ao levantar a cabeça encontra com o olhar julgador de Ginger. Os olhos dela estavam semicerrados e tinha um desprezo mal disfarçado em suas sobrancelhas. Estranhando, Levi confrontou:

-O que foi?

-Então você realmente é obcecado por ruiva, hum?! 

-Onde você ouviu isso?

-Todo mundo sabe.

-Como assim?

-Todo mundo sabe que você andou procurando ruivas por aí... As minhas vizinhas fofocaram sobre isso por dias, elas estavam um pouco desocupadas se quer saber minha opinião. E tinha uma vampira no meio. Todo mundo sabe que vampiros não guardam segredos.

-E como você sabe?

Questionou Levi, se perguntando como ele ainda tinha reputação depois daquilo. Quer dizer, na cabeça das pessoas ele tinha um fetiche por ruivas? Ele só queria agradecer. Ginger, por outro lado, apenas piscou os olhos com o questionamento e sem nenhum peso na consciência respondeu:

-Eu também estava desocupada, se quer saber minha opinião.

-E tu vai dizer isso na cara dura?

-Sim, coloque na sua lista aí! Sou uma sem vergonha!

Replicou Ginger, sem nenhum peso na consciência. Ele já tinha a chamado de irritadiça mesmo, sem vergonha é só um bônus. Levi certamente anotou essa informação, sem nenhum questionamento. Afinal, ela foi a sua casa cedo de manhã e teve a pachorra de se irritar com ele.


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