Capítulo Dezoito – Ida ao Porto de One Hall.
O gengibre irritadiço,
vulgo Ginger, chegou em casa bicuda. Uma sensação horrorosa de nódulo parecia
ter se formado em seu peito! Ela se sentia triste, irritada, desrespeitada,
incompreendida. Como é que Beverly não diz pra ela que levou sua ideia de
tomar o lugar dela para o Conselho? Quem diria não para uma Exterminadora
querendo ir para o lugar mais perigosos do mundo no lugar de uma fracote?
Beverly, que conhecia a
criatura desde o ventre, tentou fugir de sua fúria, mas o bico a atingiu
diretamente. Na hora de dormir, enquanto desembaraçavam e trançavam o cabelo,
Ginger atacou:
-Que história é essa de tomar meu lugar
no exército?
Beverly lhe deu um risinho amarelo. Quem
contou pra ela, afinal? A família inteira se empreendeu a tentar uma
isenção com avida força, mas o conselho de nobres andava irredutível sobre
isso. O casamento não era a solução viável para os Garden. Para Ginger era.
-Você sabe, eu não me importaria...
-Mas eu me importo! Quantas vezes eu
tenho que dizer que não quero vocês se sacrificando por mim?
Interrompeu Ginger, com o acumulo de
irritação da sua missão ligeiramente falhada se juntando a indignação da nova
informação. Suspirando, Beverly replicou:
-Eu quero te ajudar!
-E eu não quero que você corra riscos
desnecessários.
-Meu trabalho já envolve riscos, Ginger.
-Eu sei, por isso falei riscos
desnecessários, Beverly!
Retrucou Ginger, ouvindo sua própria voz
aumentar. Três anos era muito tempo e muita coisa poderia acontecer. Ela já se
sentia um peso por fazer com que sua família se preocupasse e não queria
aumentar essa carga. Sempre precisou de proteção e tinha sorte de Beverly está
com ela desde sempre.
-Eu não quero que você entre em um
casamento infeliz.
Replicou Beverly, o tom de voz dela
também aumentando. Ginger era uma cabeça dura! Ela parecia não entender que
para Beverly servir no exército mais três anos não faria nenhuma diferença,
afinal ela já era uma militar de carreira, era uma Exterminadora e lidava com
os mortos todos os dias. Não seria um sacrifício tão sério para Beverly voltar
ao lado de fora da muralha, não se comparado com se ligar por toda a vida a um
homem desconhecido em que tinha grandes chances de não se darem bem.
-Três anos é muito tempo, qualquer coisa
pode acontecer! Se você for mordida já era! Acabou! Você morre! E eu vou
carregar isso até morrer!
Ginger gritou, com o rosto avermelhado,
caindo em prantos logo em seguida. Casar com Levi não parecia tão ruim sobre a
perspectiva dela, não quando pensava sobre carregar o peso de algo acontecer
com Beverly. Afinal, ela não era imune a morte, apenas a zumbificação. Muito
pelo contrário, com seu pai como precedente, era quase certo que se um morto
ferisse Beverly, ela no mínimo ficaria aleijada de um membro. Já se ouviu
inúmeros casos sobre “imunes” morrerem quase imediatamente após serem mordidos.
Isaac Garden perdeu uma perna após ser mordido, foi uma questão de minutos até
que ela necrosasse até o torniquete.
Ginger conservava em si o pensamento de
que se o casamento fosse insuportável, se Levi a agredisse ou a traísse, ela
tinha para onde voltar. Ela tinha família. E era uma sem vergonha. Já dependia
de outras pessoas para muita coisa, por que não pedir ajuda caso falhasse?
Talvez ela estivesse subestimando o toque físico? Talvez, mas não saberia até
saber.
Evidentemente a discussão morreu com o
choro de Ginger, frustrando a Beverly terrivelmente. Sua irmã tinha a força de
um pudim de leite e queria se meter em um casamento arranjado. Ela não
conseguia discutir nem com a própria gêmea. Beverly foi consolar Ginger,
murmurando internamente.
Na cama, cada uma com sua própria
coberta, Beverly questionou:
-Quem te contou que andei discutindo com
o conselho tomar seu lugar no exército?
-Levi.
Respondeu Ginger, massageando as próprias
têmporas. Sua irritação passou, mas ela se arrependia terrivelmente por ter
chorado. Iria ter enxaqueca. Seus olhos doíam, não conseguia respirar direito
por que seu nariz inchou e pontadas de dor surgiam em suas têmporas. Sentia-se
tão no limite e incompreendida. Amada, incompreendida. Também sentia que era
uma pessoa complicada por sentir tudo isso.
-Aquele dedo-duro! Quando vocês se viram?
-Hoje de manhã.
Respondeu Ginger com voz rouca, fechando
seus olhos cansados e inchados. Ela só queria dormir. Não sabia se sua conversa
com Levi tinha chegado em algum lugar, exceto pelo fato de que ele a achava uma
irritadinha ou algo do tipo. E chorar quase sempre lhe resultava em dor de
cabeça. Ela passou a chorar muito mais depois da vida adulta.
-Você também... Quando quer alguma coisa
até esquece suas dificuldades.
-Todo mundo é assim!
Replicou Ginger. Ela realmente queria
tanto casar? Não. Ela só queria ficar longe dos mortos, sem colocar sua família
em riscos. O que Ginger realmente queria muito é sobreviver.
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Finalmente, os dias de folga das Garden
chegou. Elas tinham planejado para saírem e passearem por um longo tempo. O
noivado de Ginger continuava sem confirmação e Levi não era um cortejador
cuidadoso. Nada cuidadoso. Ele realmente sumiu por alguns dias, para o desprezo
do senhor e senhora Garden. Ginger por outro lado, deu de ombros. A opinião
dela continuava a mesma e não sentia urgência em se casar. Quer dizer, o fato
dela está em estágio de corte, e o implícito, mas não confirmado, acordo verbal
entre suas famílias era o suficiente para evitar que um oficial do exército
batesse em sua porta a lembrando do alistamento.
Ginger realmente não sabia quem mandou
uma documentação de registro do acordo verbal sobre o noivado para o ministério
de alistamento, mas estava muito grata. Certamente foi os Blackblood, já que os
Garden demoraram um pouco para decidirem se realmente queriam registrar tal
acordo. Era um documento que poderia estender o prazo de espera do alistamento,
mas também significava que sempre teria alguém do governo de olho nesse
assunto, esperando e até cobrando a documentação de noivado ou a anulação do
registro de acordo verbal, para garantir que não houvesse fraude. Eliminar os
mortos das fronteiras era uma tarefa de grande importância para One Hall. Só
perdia para manter uma guarnição treinada na cidade, e é claro, a reprodução.
Todos os esforços para sobreviver seriam em vão se One Hall acabasse morrendo
de velhice em uma, duas ou três gerações. Eles queriam vencer a maldição. Era
uma sociedade que precisava desesperadamente de proposito e vencer a maldição,
a superar, era o seu propósito.
-Será que é uma boa ideia sair hoje?
Questionou-se Soul, tirando o chapéu ao
entrar na carruagem e suspirando. Ginger e Beverly se encararam. Soul andava irritadiça
ultimamente. Desde que voltou ao trabalho, ela suspirava pelos cantos e se a
perguntasse o que houve poderia receber uma resposta atravessada, um comentário
pessimista. A irritação de Soul irritava Ginger. Sempre a lembrava de Levi
falando que ela era irritadiça. Seria um mal de família? Mas Beverly era
tranquila e paciente.
-Bem, a mamãe pediu para buscarmos
algumas coisas que a vovó mandou no porto. Vamos aproveitar e mostrar a cidade
para Ginger.
Respondeu Beverly suavemente. Tranquila
e paciente, como se não fosse da família! Pensou Ginger, rindo mentalmente.
Se tinha alguém que corria o risco de não ser um Garden era ela. Soul, ainda
cheia de suspiros, replicou:
-As coisas não estão tranquilas.
-Sim, mas as coisas nunca estão
tranquilas em One Hall. E estamos aqui, não vamos deixar nada acontecer com a
caçula.
Argumentou Beverly sorrindo para Ginger,
que olhava pela janela as ruas. Ela parecia alheia a situação, mas não estava.
Ginger sabia que os casos de zumbificação espontânea aumentaram nos últimos
dias. Ainda não sabiam a causa, mas não parecia que a barreira enfraquecida era
o único motivo.
-Obviamente, faremos o nosso melhor, mas
nem sempre o nosso melhor é o suficiente.
-Você anda meio pessimista, Soul.
Aconteceu alguma coisa?
-Nada, sempre fui pessimista, Ginger.
-Sempre é uma palavra muito forte. Você é
chata as vezes, mas pessimista não é um dos seus adjetivos.
Retrucou Ginger, em mono tom. Soul fez
uma careta. Isso era uma forma de elogia-la ou ataca-la?!
O passeio continuou calmamente. Não houve incidente, ou acidentes, nem
mortos, nem vampiros. Elas foram em uma doceria, passaram em uma loja de
aviamentos e tiveram que arrancar Ginger de lá a força e por fim, pegaram outra
carruagem e foram ao porto para buscar a encomenda da mamãe.
Ginger já tinha ido a outros portos
antes, mas eles não se comparavam ao porto de One Hall. Ele era enorme,
preenchido de gente e cacofonia. Parecia a concentração de todas as cores e
cheiros do mundo, misturados em um caldeirão de gritos e esbarrões. Um mundo a
parte, como se não fizesse parte de One Hall. A barreira parecia
particularmente mais forte ali, com cores mais vibrantes, como se quem a
tivesse lançado se preocupasse em especial com aquela área. Mesmo assim, era
possível ver Executores patrulhando por ali. O porto também tinha uma guarnição
própria. Zumbis não era a única preocupação ali.
Ginger se agarrou aos braços de Beverly
como quem se agarrava em uma tabua no meio de um naufrágio. Tinha medo de se
perder e sentia-se particularmente tonta, principalmente com os cheiros.
Maresia, peixes em todos os tipos de estado de conservação, especiarias e
perfumes, com muito suor. Ginger quase se sentia arrependida de ter vindo
junto.
Elas caminharam por entre a multidão, meio
que dando uma olhada nos produtos novos, enquanto se dirigiam ao prédio de
exportação e importação. Ao chegarem lá, falaram com os funcionários e
mostraram o recibo.
A vovó é estravagante!
Pensou Ginger, ao ver as caixas de
madeira que sua avó tinha mandado. Não era possível que aquilo fosse apenas
tecido. Como uma pessoa muito rica, a vovó tinha hábitos de extravagancia que
perdia apenas para os hábitos do vovô. Era um casal perfeito, muito harmonioso,
quando o assunto era gastar dinheiro e fazer coisas que as pessoas consideravam
excessivas. Eleonora tinha uma teoria em particular que seus pais gostavam
mesmo era de chocar. Mania de rico. Ela se beneficiou disso quando ganhou seu
próprio navio de presente depois de dizer que queria viajar o mundo. A sorte da
terra natal de Eleonora era que a atual imperadora, sua irmã mais velha, era
comedida, para uma nobre e uma Scarlet, sobre gastos e o império continuava a
viver uma florescente era.
-Vamos ter que alugar uma carroça.
Constatou Beverly o óbvio. Sua mãe disse
que era uma grande encomenda, mas aquilo era excessivo. Ginger e Soul apenas
concordaram. Soul foi em busca de uma carroça para cargas muito pesadas e
Ginger foi junto de Beverly resolver o resto da burocracia. Ainda grudada no
braço dela.
Evidente que enquanto Beverly resolvia as
coisas, Ginger procurava com algo para se distrair. Olhava as pessoas indo e
vindo, se perguntava o que elas procuravam ou vieram buscar, analisava suas
roupas, se as cores combinavam, se o bordado fazia sentido, se gostava daquele
tipo de estampa ou se a escolheria para ir ao porto. Ficou particularmente
interessada nos uniformes dos executores, tanto os femininos, quanto os
masculinos. Ginger estava acostumada com o uniforme feminino, afinal, suas
irmãs eram militares e andavam por aí de calça e botas longas, mas os uniformes
eram diferentes em cada classe. As Sombras usavam verde musgo e os
Exterminadores usavam vermelho bordo. Os Executores tinham o uniforme marrom
escuro. Ginger se perguntava por que ele era marrom? Quer dizer, a mistura de
vermelho com verde dava marrom. Será que era para manter a coesão? Não parecia
nem um pouco prático. Exceto se eles estivessem usando o resto do pigmento do
uniforme das outras classes para fazer o uniforme dos Executores. Tadinho
dos executores... De qualquer modo, o que chamou a atenção dela foi o
primeiro uniforme preto que ela tinha visto na vida.
Era um uniforme muito bonito. Ginger
sabia que era o uniforme oficial por cota de suas características única, a
munhequeira alta, a gola firme, o tecido estruturado dos ombros e as botas
longas, com placas de metal atrás. Tudo era feito para que aqueles que lidavam
corpo a corpo com os mortos não fossem infectados. As roupas eram feitas para
resistir a mordidas e arranhões.
Curiosa, Ginger olhou para o rosto do
soldado que vestia preto. Era o noivo dela, o suposto noivo que ela não via há
dias. De novo, de preto. Levi parecia ter feito aquela cor parte de sua
identidade e Ginger, de repente, se preocupou com a combinação das cores. As
roupas dela eram claras, coloridas, tons pasteis, completamente contrastante
com preto. Ginger sabia que era uma preocupação inútil. Duvidava ser capaz de
convencer Levi a usa tons claros ou pasteis, e talvez nem combinaria com ele. Ela
usar preto não era se quer uma opção para Ginger. Por outro lado, ela gostava
de roupas escuras, nos outros, obviamente. Em Levi era particularmente bonito,
combinava com seu cabelo preto e seu apelido sombrio. Interferir ou não, eis
a questão.

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