Capítulo Dezenove – Vim tirar suas medidas!

 

Levi estava em seu treino diário quando, novamente, William, seu mordomo, chegou avisando-o que tinha visitas. A mesma visita às sete da manhã do dia anterior.  

-William, você acha que ela se sentiu confortável com sua hospitalidade anterior?

Questionou Levi, enxugando o rosto, tentando entender o que se passava na cabeça daquela mulher. Outra vez ela chegava em um horário inadequado. Será que ela gostou muito dos queijos e pães feitos na cozinha dele? Sentiu-se bem recebida e pensou que era normal aparecer tão cedo de manhã? Os pais dela não brigaram com ela por atravessar toda a cidade sozinha? Levi realmente não conseguia imaginar aquela mulher se defendendo sozinha caso precisasse. Ginger tinha algum senso de perigo? Melhor, ela tinha algum senso? Levi estava tentado a responder que não.

-Acredito senhor, que ela esteja aproveitando o horário em que suas irmãs vão ao trabalho.

Respondeu William, muito sensatamente. Levi sentia-se mais tentado a acreditar que Ginger era apenas uma sem noção com horários comparáveis ao de um galo mesmo. Um galo entediado.

Contudo, ela era sua noiva. E uma noiva com uma família hesitante. Eles realmente precisavam de um tempo juntos, então Levi foi se encontrar com Ginger. Ela estava novamente pirulitando por sua sala de estar, dessa vez munida com o que parecia uma fita métrica.

-Senhorita Ginger.

-Vossa Alteza! 

-Você não tem outro horário para visitas?

Questionou Levi, pouco a vontade de esconder o que sentia. Era muito cedo para receber visitas. É muito cedo para qualquer pessoa andar por aí sem necessidade, ainda mais uma criatura como Ginger. 

Enrolando a fita métrica no dedo, Ginger respondeu:

-Não, tem muitas pessoas na rua e você trabalha. 

-Ter muitas pessoas na rua é um ótimo motivo para você vir mais tarde, e se acontecer alguma coisa? Não vai ter como te socorrer rapidamente. 

-Eu não venho sozinha, minha irmãs estão comigo.

Replicou Ginger calmamente, se perguntando o que passava na cabeça dele. Óbvio que ela não iria sair de casa sozinha, principalmente para atravessar uma cidade desconhecida. Exceto, é claro, caso suas meadas de bordado acabassem, o que não aconteceria tão cedo. William pigarreia uma risada e Levi o encara. 

-E se eu vim mais tarde, meus pais vão vir comigo. Principalmente minha mãe. 

Continuou Ginger, desenrolando a fita que acabou de enrolar para fazê-lo de novo. Levi sentiu sua pálpebra pulsar ao ouvir sobre Eleonora vim lhe visitar. Aquela mulher o tratava com desconfiança desmedida, e Levi sentia que o culpado por ela era seu irmão. Abraham arruma confusão e sobra pra ele. Tsk.

Convencido com os argumentos de Ginger, Levi muda de assunto. 

-O que te trás hoje?

-Ter vi no porto anteontem.

Respondeu Ginger, como se isso fosse explicar alguma coisa. Ela sentiu falta dele? Parecia um pouco precoce para ser isso. Levi continuou a olhá-la, esperando que ela continuasse. Ginger piscou ao vê-lo encarar. Ah! Ela começou do final.

-Minha avó me deu uma máquina de costura. Estou muito feliz. 

Começou Ginger, aumentando a confusão de Levi. O que uma máquina de costura e ele no porto tinham a ver? Ele sempre ia ao Porto para resolver algumas coisas. Era uma área importante afinal. Um lugar com muito dinheiro e estrangeiros envolvidos, assim como contrabandos e fujões. Apesar de ser conhecimento geral que embarcar em um navio para fugir da Terra dos Mortos era praticamente uma sentença de morte, isso não impedia as pessoas de tentarem. Quantos já tinham sido lançados ao mar ao serem descobertos? Tantos que era impossível de se contar. As marés traziam alguns corpos meio comidos pelos animais marinhos todos os anos. Isso sem contar aqueles que conseguiam atravessar e eram mortos nos portos do outro lado do oceano. A única forma de sair da Terra dos Mortos com segurança era tendo seu próprio barco, ou alguém de fora vim especificamente te buscar. Isso era tão raro quanto as penas de uma fênix. 

-E muitos tecidos…  

-Sim…

-Então eu fiz um colete para o meu pai. Afinal, ela mandou muitos tecidos escuros e lá em casa, nós preferimos tons mais vibrantes ou pasteis. Aí eu lembrei de você!

-Você veio me entregar alguns tecidos?

Perguntou Levi, procurando os tais tecidos. Ele não precisava, sua própria avó trazia um monte de rolos do continente, mas era um presente, uma gentileza, ele iria aceitar. Ginger o encarou com as sobrancelhas franzida e respondeu: 

-Não, vim tirar suas medidas. 

-Tirar minhas medidas?

Perguntou Levi, visivelmente confuso. Ele nem tinha tomado café da manhã ainda e tinha alguém querendo tirar suas medidas? O tico e teco de Ginger certamente era diferenciado. Eram sete da manhã. Talvez ela estivesse brincando. Pensou Levi, olhando para Ginger apenas para ter certeza. Os olhos dela pareciam duas pedras preciosas resplandecentes de animação e muita expectativa. Não parecia brincadeira. 

-Sim, eu vou fazer um colete pra você. 

Avisa a mulher, rindo animadamente, ignorando completamente se o homem tinha alguma opinião sobre isso. Ela não conseguia dormir direito depois da ideia de fazer uma roupa para Levi. Quer dizer, ele era um lindo manequim e sua avó mandou muitos tecidos escuros dessa vez. Segundo Eleonora, era provável que a moda tenha dado alguma de suas guinadas no outro lado do mundo. Para a tristeza de Ginger. Ela realmente não gostava de cores escuras, a faziam parecer pálida e sombria. Tipo o Levi. Claro, o Levi combinava com essa vibe. E tinha a máquina de costura. Era um trambolho incrível, costurava tão rápido, e Ginger só largou sua máquina de costura e saiu de casa porque tinha uma ideia na cabeça: colocar um pouco de cor no guarda roupa de Levi. Era uma ideia ousada, sem vergonha e sem noção? Sim. 

-Por que? 

Levi questionou, sentindo que seu tico e teco não estavam conversando. 

-Você só usa roupas pretas, até seu uniforme é preto.

-Sim, eu gosto. 

-Não tem problema gostar de usar roupas pretas, mas eu preciso de um manequim. E você não tem roupas que combinem com as minhas, portanto, junta o útil ao agradável. 

Explicou Ginger, enrolava a fita métrica na mão inúmeras vezes, prestes a dar pulinhos de animação. Levi, por algum motivo, sentiu-se intimidado. Ele procurou William para salvá-lo, mas William não estava lá. Foi a fita métrica? Ou o rosto vermelho de animação, contrastado com olhos brilhantes? Como dizia não para uma criatura dessas? Ela era fofa?! Aquela cara, aqueles olhos, o sorrisinho diplomático… Em suma, ele aceitou. Nem Levi se estendeu quando aceitou:

-Vou tomar banho primeiro. 

-Claro, claro…

Ginger concordou, balançando a cabeça para cima e para baixo, tentando conter um sorriso florescente. Heheh, ela tinha um modelo! Levi se vira para ir ao banheiro quando lembra que não comeu ainda e continua:

-E café da manhã.

-Sim…

Concorda Ginger, sentindo seu estômago reclamar ao ouvir sobre café da manhã. Ela esqueceu de comer? Como era possível alguém esquecer que está com fome? Era a segunda vez que Ginger aparecia na casa de Levi. E novamente ela não tinha tomado café da manhã… Levi se vira para encará-la. 

-Que eu aposto também que você não tomou. 

Deduziu Levi, considerando o comportamento anterior dela e dando uma encarada. Ginger dá uma risada meio constrangida, meio de graça. 

-Você realmente está a caminho de me conhecer. 

-Como é que você sai de casa sem comer?

-Eu estou animada!

Replicou Ginger, o seguindo sem perceber. Ela realmente esqueceu de comer. Eram tantos planos em sua mente, que seu estômago ficou no fim de sua lista. Ela só perceberia quando começasse a ficar irritadiça, tonta, cansada e com sono, sem contar o desconforto de não ter comido em si, tinha sorte de ter fazer um monte de pão em casa. 

Levi por outro lado não estava muito convencido. Não da parte da animação, ela parecia muito animada, radiante, energética! Mas da última vez ela não estava animada, e mesmo assim esqueceu de comer. 

-E da última vez?

Levi a questiona, parando abruptamente. Ginger que estava andando atrás dele quase bateu com a cara em suas costas. Ele se vira, e ela dá um passo para trás ao responder:

-Eu esqueci.

-Como que alguém esquece que está com fome?!

-Estava ansiosa. Preocupada, bem preocupada. 

Continua Ginger a responder, olhando para as próprias botas. Esse tipo de coisa acontecia com ela. Esquecer de que precisava comer, esquecer de que queria ir ao banheiro, principalmente quando o assunto era bordado e costura, poderia fazer por horas, e horas, até as costas doerem, a bexiga reclamar e ficar fraca de fome. Ela atualmente tentava controlar isso, mesmo que fosse sua atividade favorita, a sensação de cansaço e irritação era estressante. Descansar a faria fazer o que gosta de um jeito melhor, mas parar uma constante era difícil. 

Depois de encará-la, Levi chegou a conclusão que deveria ser verdade. Não era um conceito tão estranho para ele, que tinha o hábito de deixar momentos prazerosos, como comer, para depois do trabalho. Levi não esquecia que estava com fome, mas andava por aí em jejum mais vezes do que gostaria. Com um suspiro, Levi mudou de assunto: 

-De qualquer modo, vou tomar banho primeiro, por favor, pare de me seguir!

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Depois de tomarem café, Levi percebeu que Ginger não tinha viajado até sua casa com a fita métrica no colo: ela trouxe uma bolsa. Uma mochila, especificamente, que tinha sido largada no sofá quando Ginger viu Levi entrar na sala. William tinha voltado ao lado de Levi e trouxe a governanta da casa junto: Senhora Olivia. Depois das apresentações, eles foram para o closet. Ginger os seguia abraçando sua mochila como quem abraçava uma tábua no meio do mar, olhando para todos os cantos. A casa era muito limpa, as paredes tinham papel de parede escuro, muita madeira também escura, mas para compensar aquelas eram as maiores janelas que Ginger tinha visto, trazendo muita luz natural para a casa. Era evidente que o dono da casa estava muito confiante sobre invasões ou ataques. E rico também. Janelas maiores precisavam de mais grades de ferro e grades eram essenciais, mas não tão baratas assim. Famílias mais pobres faziam janelas menores, ou então no topo da parede, onde não havia necessidade de grades. 

A magnitude da mansão deixou Ginger um pouco constrangida. Ela ia morar ali? Quer dizer, e se ela se perdesse? E as finanças daquele lugar deveriam ser enormes. Ela cuidaria das finanças? Achava pouco provável e também não sabia se queria. Aprendeu, obviamente, mas necessitava de tanta atenção aos detalhes e contas que Ginger se pudesse não faria, mas por outro lado, a dona da casa cuidava das finanças, então seria como uma medalha de honra. 

Enquanto Ginger se preocupava com o futuro, Levi se preocupava com o nesse instante. Seu mordomo foi sensato de chamar uma acompanhante, não que Levi pretendesse alguma coisa, mas ter uma acompanhante feminina era bom. Para ele e para Ginger, que naquele momento só olhava para todos os cantos, com uma mistura de assombro e timidez. Levis sentiu-se um pouco rancoroso ao pensar que ela nem se dava ao trabalho de se preocupar que iria tomar medida dele. Estaria muito próxima. E Ginger claramente não se preocupou com isso, não trouxe ninguém para acompanhá-la. Ela tinha dito que fez um colete para o pai, será que era por isso? Por algum motivo, Levi se sentiu mais ofendido depois desse pensamento. 

Ao chegar no closet, toda a timidez de Ginger sumiu. Se antes ela se sentia intimidada e até com vergonha, agora parecia no seu habitat natural. Seus olhos brilharam quando ela viu tantas roupas. E daí que eram roupas masculinas? Tinha seda, algodão, veludos… 

-Hahah, é um paraíso!

Ginger tinha um sorriso doce na boca e parecia que iria derreter de felicidade. Levi, por outro lado, sentia-se em choque. Aquilo só era seu closet. Nada mais do que isso: o lugar onde ele guardava as roupas. Porque ela agia como se estivesse no lugar mais incrível do mundo? Ginger vira para Levi e pergunta:

-Posso tocar? 

-Pode…

Ele nem terminou a frase, antes da mulher passar correndo por ele. Não antes de largar a mochila nos braços de Levi, como se eles tivessem esse nível de intimidade. Levi olhou para William e Olivia, o rosto dos dois era a mais perfeita poker face, como se nada de estranho tivesse acontecido. 

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Depois das risadas e gritinhos, Ginger lembrou-se de sua missão. Encontrou Levi sentado em uma poltrona, em frente a um espelho de bronze. A mochila dela estava no colo dele, que mastigava alguma coisa dos lanches em cima da mesa. 

-Você parece ter se divertido.

Levi comentou, comendo outro biscoito. O rosto da Ginger estava corado e tinha um sorriso bobo no rosto. Levi não entendia e temia que não conhecesse alguém que entendesse. Não era só roupas? Ginger, parecia ter ignorado qualquer sinal de incompreensão na cara de Levi e concordou sorridente: 

-Seu closet é muito legal. 

-Humm, estou sabendo agora. 

-Achei que você só teria roupas pretas. 

Continuou Ginger, ao sentar na cadeira ao lado de Levi, que tinha acabado de morder uma bolacha gigante. Ginger o encarou, esperando ele terminar de mastigar para responder. Levi, por outro lado, apontou com a cabeça para as bolachas, ele realmente estava aproveitando e não queria comer mais rápido só pra responder. Ginger por outro lado, não entendeu de primeira. Ela olhou confusamente para ele, que pegou uma bolacha e ofereceu para ela. 

-Ah! Obrigada!

Ginger aceitou a bolacha e o cheiro amanteigado e o aroma suave de limão e coco a lembrou que ela não comeu naquele dia. Ginger deu uma mordida, a boca cheia de água. Era muito gostoso. Crocante, doce na medida, meio salgadinho, com textura de coco e recheio com um azedinho de limão. Tão simples e tão gostoso. 

-Hummm, isso é tão gostoso!

-Eu sei, eu sei…

-Eu quero a receita!

-Meu chef não gosta de compartilhar receitas com outros, ele tem medo que vazem para restaurantes. 

-Oh! Mas, mas sou eu que vou cozinhar! Ele não pode fazer uma exceção? 

-Você cozinha? 

Questionou Levi, dando outra mordida. Ele amava comidas doces. Era um formigão, não resistia aos bolos, aos pudins e aos suflês e não tinha a menor pretensão de fazê-lo. 

-Sim. É estranho?

-Seu pai é um nobre. 

-Ah! É bom saber dessas coisas, não? E se o dinheiro acabar e não poder pagar uma cozinheira? Que dizer, e se a cozinheira adoecer? Você vai ficar sem comer?

-Eu mando comprar.

-Ata, você é rico…

Comentou Ginger, lembrando que Levi era um príncipe. Comprar comida era a última coisa que ela pensava ou que qualquer pessoa em sua casa pensaria quando a cozinheira adoecia. Ginger gostava de cozinhar, mas não todo dia. Tinha algo relaxante em pegar um cutelo, cortar cebolas milimetricamente e esmagar alhos. Comer era melhor ainda. Controlar o fogo que era chato. Muito chato. 

-E você não?

Questionou Levi, olhando estranho para Ginger. A mãe dela era uma princesa! Como eles não tinham dinheiro? A família de Eleonora era figurinha carimbada no porto, estavam sempre mandando alguma coisa. Ginger, por outro lado, pega outro quitute, lembrando de quando seu pai perdeu a perna. A mãe dela ficou famosa por ter conseguido o título de conde para Isaac, relembrando constantemente os feitos dele no parlamento.  Com o título, Isaac assumiu uma cadeira no parlamento, passou a ganhar um salário e ganhou uma casa na capital. One Hall já vivia em uma tangente positiva há alguns anos, mas nos últimos vinte anos parecia ter havido uma aceleração nessa tangência. Não se ouvia falar em fome e a medicina evoluiu rapidamente. 

-Nem sempre houve dinheiro. Quando meu pai se feriu, passamos por perrengue até a aposentadoria ser aprovada! 

Explicou Ginger, depois de terminar de mastigar. 

-Sua avó é uma imperatriz, como não há dinheiro?!

-Você mandaria uma caixa de moedas por barco? Para outro continente?!

-Você tem razão! 

Levi aceitou a explicação com um balançar de mãos. Seu pai não falava muito sobre sua terra natal, diferente da avó de Levi. Ela sempre contava histórias sobre a terra dela, a terra onde Éden nasceu, as aventuras que ela e os amigos viveram na juventude e como viviam seus descendentes atualmente. Os pais de Eleonora, avós de Ginger, eram muito influentes naquele continente, mas isso significava pouco quando colocava a distância de um oceano. Não tinha ajuda que os Scarlet empreendessem que chegaria a tempo, pelo menos, não sem a avó de Éden se envolver. E mandar dinheiro não parecia uma boa ideia. Era por isso que mandavam coisas no final das contas. 

Depois de comerem, eles foram tomar a tal das medidas. 


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