Capítulo Vinte – Rendido por uma fita métrica!

 Depois de lancharem, eles começaram a tomar as medidas. Ginger tirou um caderno, um lápis e a fita métrica da mochila. Não escapou a Levi que o caderno tinha o triplo do tamanho e retalhos de tecidos dos mais variados estavam costurados entre as folhas.

Ginger estava muito animada para aquele momento. Quer dizer, a máquina de costura era muito legal. Barulhenta, mas legal. Ela tinha mil planos para costurar, eram tantas ideias. 

-Imagino que você não precisa de muitas medidas para um fazer um colete, né? 

Indagou Levi, observando Ginger folhear o caderno e escrever nele. 

-São apenas três: tórax, frente e costas. 

Respondeu ela levantando e indo até ele. Levi olha para Olivia e William os observando. Olivia estava séria, em uma posição quase militar, e completamente diferente de William que parecia conter um montão de sorrisos e piadas no fundo de seus olhos. Ginger, por outro lado, estava muito concentrada em sua missão, e conferia se tinha anotado as medidas que precisava pela segunda vez. Ela sentia-se um pouco tentada a tomar mais medidas. Quer dizer, já estava ali. O que é um pingo para quem já está molhado?

-Vamos começar?

Pergunta Ginger levantando e colocando a fita métrica pendurada no pescoço. Levi acena com a cabeça em concordância. 

Ginger se aproximou de Levi, tirando a fita métrica do pescoço. O cheiro dele fez o nariz dela coçar e ao levantar os olhos Ginger lembrou quão próxima estava de Levi. Seu coração acelerou. Ela finalmente começou a sentir-se nervosa. 

Levi não emanava nenhuma ansiedade, estava ali, parado como uma estátua bonita, olhando para Ginger, esperando. Ela voltou a ficar calma, praticamente espelhando. Se a vítima estava calma, ela não tinha com que se preocupar. 

Com as orelhas vermelhas, ela começou a tirar as medidas de Levi. Não precisou pedir para que ele consertasse a postura, afinal, a postura de Levi era impecável. Forte e confiante, ele tinha a inclinação natural de pessoas altas, mas a postura era perfeita. Ginger não conseguia imaginar alguém o intimidando. Ele era um príncipe afinal. 

-Você realmente leva isso muito a sério. 

Comentou Levi, enquanto Ginger anotava a medida do abdômen dele. As orelhas dela se mantiveram vermelhas durante todo o processo e Levi sentiu a hesitação de Ginger em tocá-lo, o que fez o humor dele normalizar. Na verdade, estava até melhor. Ginger era uma mulher bonita, afinal. Levi não queria que ela sentisse medo dele e não queria que ela o tratasse como um irmão, ou Deus que o livrasse, um pai. Se tudo ocorresse bem ele seria o homem dela. 

-Por que eu não levaria?

Replicou Ginger enquanto escrevia no caderno. Levi demorou para responder e ela levantou os olhos e as sobrancelhas para ele. 

-São apenas roupas, não?!

Levi respondeu, franzindo um pouco o cenho. Não queria zombar da dedicação dela, nem nada do tipo, só não entendia aquele fascínio. Ginger parecia não ouvir e foi tirar a medida das costas dele. 

-A camisa que sua Alteza usa é de algodão de mais alta qualidade. 

Comentou Ginger, a voz tão suave quanto a que se usa para consolar uma criança. Levi a olhou. Ela estava com os olhos baixos, anotando no caderno, quando continuou: 

-O metro desse tipo de algodão custa um salário.

-O que? 

-A camisa que você usa agora, em casa, sem ninguém observando, custa o orçamento de uma família, em um mês. 

Explicou Ginger, fechando o caderno. Ela realmente não parecia irritada. E realmente não estava. Para One Hall, o interesse de Ginger em roupas era futilidade e ela não se magoava com isso. Aquele era um mundo onde as pessoas tinham que endurecer seus corações para ver a pessoa amada partir duas vezes. Inúmeras vezes de modo extremamente violento e brutal. A sociedade em que vivia não tinha energia para se importar com moda de forma proposital, mas mesmo assim, no inconsciente se importava.

Levi a encara diretamente. Ela estava chamando-o de hipócrita? Se sim, o rosto de Ginger não transparecia nada do tipo. Sem querer bancar charadas, Levi questionou diretamente:

-O que você está querendo dizer? 

-A qualidade de suas vestes define seu status. Não diz quem você é, mas passa uma mensagem sobre isso. Se é nobre, conhece estrangeiros, com o que você trabalha ou se não tem dinheiro. Elas são fonte de renda de alguém, a forma de expressão de outros e o que cobre o corpo de todos. São apenas roupas, mas também não são. 

Ginger respondeu, sorrindo um pouco. Ela não tinha vergonha em admitir que seu talento para roupas não tinha uso em One Hall. Pelo menos não do jeito que ela queria. O caderno, cheio de retalhos saindo por entre as páginas parecia protegido por um abraço. A fita métrica estava pendurada em seu pescoço. E Levi começou a achar que sua camisa pinicava.

-Peço perdão, fui ignorante. 

Disse Levi, depois de um tempo em silêncio e surpreendendo Ginger. O rosto dela fez tal expressão de surpresa que só poderia ser descrita como ofensiva. As orelhas de Levi ficaram vermelhas.

-Que cara é essa?

Levi questionou, com irritação misturada a constrangimento. Ela precisava parecer tão surpresa? Era ofensivo. Quando ele estava errado, ele pedia perdão, não era algo tão grande a ponto de merecer uma careta de surpresa. Como se não tivesse um único freio na língua ou algum tipo de incapacidade de discernimento, Ginger respondeu na lata:

-Eu achava que você não pedia perdão, mais especificamente desculpas.

-Retiro meu pedido de perdão.

-Não pode!

Replicou Ginger, cruzando os braços. O seu rosto brilhava de satisfação, sem nenhuma intenção de contenção. Levi ainda estava na vibe de indignação, e replicou:

-Como não posso?

-Se eu já te perdoei! Como posso te desperdoar?

Ginger retrucou, com o nariz empinado, muito ocupada saboreando um êxito inesperado. Levi sentiu que ela lhe deu um golpe baixo. Ele realmente era ignorante sobre aquele assunto e Ginger parecia muito feliz com aquela simples admissão. Levi perdeu aquela rodada. E no fim foi praticamente coagido a tirar mais medidas por sua animada noiva.

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Éden estranhou a cara cansada de seu segundo filho. Ele sabia das visitas surpresas de Ginger, inclusive era ele quem obrigava Levi a tirar folgas. Folgas essas que custavam ao próprio Éden, ele substituía Levi nas missões, mas a motivação era que aquele quase casal de pombinhos se aproximassem e firmasse esse noivado. Levi carecia de um tanto de carisma, quer dizer, ele raramente sorria e era direto. Não foi sempre assim, Éden tinha a clara lembrança daquele moleque atentado e sorridente.

-O que aconteceu?

Perguntou Éden, retoricamente. Ginger tinha ido visitar o segundo filho, mas Éden não sabia sobre o que tinha acontecido. William o reportava sobre o que via, mas não sobre o que ouvia. Era um tipo de acordo tácito entre os três. Levi não precisaria de qualquer tipo de vigilância se não vivesse integralmente ao trabalho. Ele realmente fazia tudo dentro das linhas, até as coisas mais exasperantes.

-Sabia que ela tem hobbies estranhos, tipo costura?!

Levi questionou, se largando no sofá e encarando seu pai. Óbvio que Éden sabia, era o tipo de coisa que não precisava ser escondida. Poderia ser considerado fútil, mas era inofensivo. Porque a filha de um conde andava por aí fazendo roupas? Levi realmente não se importava, exceto pela parte que seu pai parecia acreditar que aquela criatura rara combinava com ele. 

-Para algumas pessoas não é um hobby.

Retrucou Éden, suspirando ao lembrar da máquina que aquele amostrado do Cinnamon, e sua esposa, mandou para a filha. One Hall não tinha espaço para uma indústria têxtil, o plantio de algodão era para uso interno e não era possível fazer grandes fazendas, afinal, comida era prioridade. E mesmo que pudesse, não teria espaço para fábrica. Ou seja, a demanda por roupas em One Hall era altíssima. Os nobres em particular eram bem extravagantes e muitos tecidos eram importados. Os Garden eram particularmente privilegiados, a Imperatriz Olivia parecia temer que eles não tivessem roupas o suficiente, e sempre mandava rolos e mais rolos de tecido. Ter espaço era uma coisa muito boa, né?!

-Mas sim, eu sei que ela gosta de indumentária. Não fique com inveja, arrume um hobby também.

Continuou Éden, dando de ombros praticamente. Bordado e costura não eram tão esquisitos assim, em alguns lugares do mundo era um hobby muito respeitável e uma ocupação rentável. No palácio imperial que sua mãe cresceu, havia até um departamento inteiro com bordadeiras. Levi realmente parecia achar que os arabescos em suas roupas simplesmente sempre estiveram assim. Uma inesperada desconexão com a realidade, Éden admitiu.

-Não tenho tempo.

Replicou Levi, fazendo com que Éden conservasse em si uma legítima vontade de revirar os olhos. Até ele tinha hobbies, claro, não estava usufruindo dele atualmente, mas Éden se empreendia a pescar no tempo livre. Sua mãe zombava que ele e seu pai dormiam mais do que pescavam. De qualquer modo, o moleque realmente achava que carregava o mundo nas costas.

-Você sabe que pode descansar, né?

Éden perguntou suspirando. Levi tinha um trabalho importante? Com certeza, mas quando ele nasceu One Hall já tinha muralhas há muito tempo. A cidade não ia cair se ele respeitasse o turno de trabalho, afinal, Zachary ainda era um exterminador capaz de cobrir turnos inesperados. Deveria aprender com os humanos, que descansavam no final das contas. Levantando de sua posição, Levi replicou:

-Se eu parar, pode acontecer outra Villa Riggi!

-Você acha mesmo que vai acontecer outra Villa Riggi embaixo do meu nariz?

Retrucou Éden, franzindo as sobrancelhas e sentindo a paciência dar uma escorrida. A Villa Riggi era uma cidade portuária distante da capital, ela tinha suas próprias fortificações e jovens nobres gostavam de ir lá, para ficarem longe das vistas de seus pais. Éden mandou seus filhos irem passar algumas férias lá naquela época, mas jovens se intimidavam com autoridades menos que seus pais. Deu merda muito rápido. A cidade foi destruída, Éden perdeu um de seus dois enteados, Abraham brigou com Beverly e Levi se tornou o que era hoje. Os jovens da nobreza não eram tão descarados ao desobedecerem às leis em One Hall e Éden sabia que ele era o motivo. Até seus filhos iam espairecer na cadeia por alguns dias se cometessem algo, imagina o filho de outrem. Era frustrante, mas One Hall sempre precisava ser lembrada que não era mais uma civilização pós-apocalíptica sem nenhum valor ou moral social que não fosse a sobrevivência individual a qualquer custo.

Levi enrubesceu, constrangido. Éden era muito mais poderoso e respeitado do que ele. Os nobres de One Hall não corriam soltos abertamente como acontecia em outras cidades. E sobre as hordas, Éden era pioneiro em eliminá-las. Aquela era a cidade que ele fundou, e as pessoas se juntavam ao seu redor porque confiavam em sua força. Levi admitia que era humanamente impossível lidar com todos os casos de zumbis que surgiam naquelas terras. Ele tentava, lutava e lutava, mas ainda assim não dava conta. E quando pensava em descansar, o horror da Villa Riggi o assombrava.

Ele se desculpou pela segunda vez naquele dia.

Depois da rusga, Levi e Éden foram almoçar. Peony e Akatsuki, assim como Zachary e Lucy também se ajuntaram para almoçar. Só faltou Abraham.

Entre garfadas e conversas diversas, Akatsuki, sobrinha com a mesma idade que Levi, pergunta a ele:

-Você e Ginger vão de fato noivar?

-Ao que tudo indica.

Levi respondeu, dando de ombros levemente. Pensava pouco sobre o assunto e admitia que era um pouco relapso sobre ele. Não podia dizer que sonhava em casar, mas não odiava a ideia. Também não poderia dizer que Ginger era seu tipo. Ela era irritante, fofa e meio sem noção. Quando era madura era muito, quando era juvenil era muito, Levi não entendia como um adulto poderia caminhar entre a lucidez e a insensatez como Ginger. Ainda mais prestando atenção onde poucos prestavam. Seu hobby era só um hobby para ela, mas Ginger tinha consciência que era um mercado, o ganha pão, de outros. Ao mesmo tempo ela aparecia às sete da manhã na casa de uma pessoa que mal conhecia para tirar medidas.

-Vocês têm que começar a conversar sobre coisas importantes agora.

Comentou Éden, olhando para o noivo relapso que era seu filho. Nem para ir bajular os possíveis futuros sogros Levi foi. Depois reclamava do olhar feroz de Eleonora. Claro, não deu nenhum sinal de estar se importando em apaziguá-los. Depois tinha que puxar as orelhas daquele moleque. Ainda meio relapso, colocando o garfo na boca, Levi perguntou:

-Tipo?

-Filhos, valores, tarefas domésticas, quem manda no que, quem arruma o que, planos para o futuro, trabalho formal... Modo de pensar. Tudo?! Talvez.

Éden respondeu, agora olhando para o filho como quem olhava para uma peça rara. Como ele podia ser tão relaxado sobre isso? Casamentos eram coisas sérias. Sem falar em todo o contrato, e toda a parte burocrática, era sobre duas pessoas diferentes em família, vivencia, sonhos indo dividir a vida. Era obvio que era preciso estar atento a divergências que poderiam ser fatais: ideológicas, morais, se queriam filhos e como os criariam, como queriam se ver no futuro.

-Vocês não conversaram sobre nada?

Questionou Akatsuki, olhando estranho para o tio. Ela estava genuinamente impressionada, quer dizer, aquilo não parecia muito a persona de Levi.

-Conversamos. Descobri que ela é irritadiça.

Respondeu Levi, limpando a boca após terminar de comer. Ele sabia que não conhecia Ginger. E o pouco que sabia era por causa da aproximação nada natural que ela promovia. O trabalho de Levi devorava todas as suas energias. Ele realmente tinha pouco tempo.

-Ela é irritadiça, ou você é irritante?

Provocou Peony, rindo de Levi. Não surpreenderia Peony se seu irmão estivesse irritando a moça constantemente, ao invés dela ser irritadiça. Ele podia ser exasperante.

-Aprendi com você, irmã.

Replicou Levi, com a cara limpa, dando um sorriso largo para a irmã. Até parece que ele não devolveria a provocação. Peony fez um beicinho. Exasperante. Akatsuki, que parecia muito mais interessada no noivado de Levi do que nas pirraças dele com sua mãe, cortou o fio da meada e perguntou:

-O que sua noiva foi fazer na sua casa hoje?

-Tirar minhas medidas.

-E você deixou, tio?

Akatsuki pareceu tão ridiculamente surpresa com essa informação que Levi se sentiu ofendido. Pela segunda vez naquele dia. Ele realmente não era tão atento às roupas, mas não podiam dizer que era desleixado. Ou que ele tinha uma aversão irreconciliável à moda. Ele usava preto porque gostava, não era muito bom em combinar cores e sentia que combinava com seu estado de espírito. Isso sem contar que não manchava com sangue. Levi respondeu, com um sim monossilábico.

-Ela te ameaçou?

-Sim, com uma fita métrica.

Levi mentiu na cara dura, após sentir uma pontada de irritação. Akatsuki semicerrou os olhos, desconfiada e Levi a respondeu com um sorriso que poderia ser chamado de careta. Interrompendo-os, Éden perguntou:

-Você vai usar? O que ela vai fazer para você?

-Não sei.

Respondeu Levi, dando de ombros. Depois que o colete ficasse pronto ele decidiria. Quer dizer, Ginger até podia saber de moda, mas Levi não tinha noção de quão boa ela era em costurar. Muitas vezes as pessoas são fascinadas por coisas que não sabem fazer, ou que não podem obter. Talvez fosse o caso de Ginger. Éden acenou com a cabeça ao aconselhar:

-É bom usar, se for adequado, evidentemente.

-Sim, ela pode ficar muito chateada se não usar.

Complementou Peony, concordando com o pai. Éden não casou três vezes à toa. O único problema dele era a vida ridiculamente longa e a atração por humanas. Receber um presente feito a mão e não usar nenhuma vez poderia dar um rolo tremendo, principalmente se Ginger fosse irritadiça como Levi disse. Ela certamente brigaria e se alimentasse rancor Levi não receberia nada de presente pelos próximos cem anos. Claro, Peony sabia que seu irmão preferia receber uma torta ou qualquer outro tipo de doce como presente. O homem era uma formiga desde sempre. Quando era pequeno não havia uma sobremesa que sobrasse em casa.

-E você sempre pode emprestar para o Zachary.

Éden continuou seu conselho, lembrando-se que Zachary tinha um gosto tremendo por cores, principalmente as vibrantes. Parecia uma forma dele expressar seu desejo por viver e pela vida, apesar de suas limitações. As cores possivelmente seriam o problema com o presente de Ginger. O amor de Levi por cores era inversamente proporcional ao seu amor por doce. Ele tinha uma hiper identificação com preto. Desde pequeno, sua cor favorita era preto e insistia por ela. Raramente ele usava outra cor e quando acontecia era tons terrosos e algumas vezes, tons de verde. Verde escuro, claro. Zachary pareceu muita mais interessado na conversa naquele momento e perguntou:

-Permanentemente?

-Sim.

Respondeu Éden, dando uma olhada para Levi. Claro que dizer que emprestou o colete era um eufemismo para deu o colete. Geralmente, Levi estaria disposto a seguir o cinismo político de seu pai, mas lembrando do rosto animado de Ginger tentando convencê-lo a tirar medidas, ele sentiu-se pouco disposto a “emprestar” o presente. Mesmo que não gostasse, era só uma roupa. E ele poderia ter se negado a dar suas medidas. Ginger não poderia obrigá-lo a fazer algo que não quisesse. Pelo menos não à força. Levi, para a surpresa de todas, contrariou Éden diretamente:

-Pai, você não pode dar o presente que minha noiva fez para mim, mesmo se eu não gostar.

-Oh! Agora você soou como alguém que faz parte de um casal, Levi! 


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