Capítulo Vinte e Um – Um tipo estranho de corte.

 As visitas de Ginger a Levi começaram a se tornar rotineiras.

Depois da terceira vez, todo a mansão do segundo príncipe passou a se preparar para a visitante. Levi parou de ficar surpreso e não sabia o que sentir com isso. Alguns dias era extremamente incômodo, outros eram muito agradáveis e o assunto da oficialização do noivado nunca era tocado. Ginger também não parecia fazer qualquer tentativa de seduzi-lo, apesar das inúmeras provas de roupas com o qual ela subjugava Levi com olhinhos animados e força de vontade. Pelo menos ela respeitava os gostos dele. Era comum roupas tão escuras que pareciam pretas ou com bordados pretos.

Enquanto Ginger se divertia tratando seu noivo como um boneco de manequim hiper-realista, a família dele, principalmente seu pai, Éden, se preocupava com o quão lento caminhava os trâmites principais daquele noivado. Os noivos ainda não eram oficiais, e logo faria dois meses da chegada dos Garden a One Hall. Eles ainda não tinham dito sim ao noivado e chegou ao ponto que os avós de Levi foram passar uma estadia por lá. As zumbificações espontâneas continuavam, mas com Elena Qixing por ali não eram diárias como anteriormente. Éden conseguia respirar um pouco, mas a produção de um novo ou nova Blackblood não tinha chegado nem na fase de planejamento ainda. Para piorar, os pais de Éden riam constantemente dele, dizendo que se tivesse proibido o relacionamento já teria um novo descendente no forninho.

Já a questão dos Garden precisava de um pouco de sensatez do noivo. Mesmo que Ginger estivesse sendo acompanhada por suas irmãs para ir a casa de Levi, Eleonora, a sogra, se incomodava sobremaneira por ele não ir a casa deles. Quer dizer, porque a filha dela tinha que deslocar e se colocar em risco enquanto o bonito do “príncipe sombrio” só tinha que esperar em casa a visita? Para Eleonora, era um motivo para aquele noivado não acontecer. Levi era relapso sobre Ginger e sobre os Garden! Parecia que sua filha estava cortejando o príncipe. Claro, Eleonora sabia que possivelmente Ginger ia até Levi apenas para fazer roupas, lembrando de vez em quando que ela era noiva dele. A prova disso era que quando ela chegava em casa só falava das roupas, de como elas tinha ficado bonitas e coisas do tipo. Eles não pareciam conversar sobre muita coisa e isso era um problema.

De qualquer forma, as visitas de Ginger continuaram. Suas irmãs a deixavam na porta de Levi, Beverly sempre cheia de conselhos e Soul cheia de bocejos, e iam trabalhar. William a esperava no portão, sempre muito polido e algumas vezes com um guarda-chuva. Ginger o cumprimentou educadamente e depois de respondê-la, William geralmente a levava para a sala de estar, onde Ginger esperava por Levi, mas naquele dia foi diferente e William a guiou por um caminho desconhecido. Antes que Ginger perguntasse, ele explicou:

-Senhorita, o senhor mandou levá-la para a arena.

-Arena?!

-Sim, é onde o príncipe treina.

William continuou calmamente. Ginger queria perguntá-lo porque Levi queria que ela fosse no lugar de treino dele, mas William nunca explicava o que seu chefe estava pensando. Não fofocar a vida de seu chefe para qualquer um parecia uma virtude e considerando que possivelmente ela casaria com Levi, Ginger não implicava com isso.

Eles seguiram o caminho calmamente, Ginger aproveitando para olhar a mansão por fora e os jardins. Os jardins eram bonitos, as trilhas e as plantas bem cuidadas. Borboletas voavam por ali, assim como beija-flores. Ginger também viu uma horta, galinhas ciscando por ali e uma vaca. A propriedade era delimitada por um muro feito com metade de alvenaria e metade de grades de ferro, que era típico de One Hall. O que não era típico era a própria mansão. A mansão era bonita, estranha e bem cuidada. As janelas do térreo eram grandes e ao mesmo tempo que Ginger as achava bonitas, as achavam assustadoras. Um humano passava ali facilmente, e onde um humano passa um morto também passa. Claro, tinha as grades, mas todas as vezes que Ginger foi a casa de Levi, as grades estavam abertas. Ele era muito confiante de sua força.

Ginger e William finalmente chegaram a um prédio que parecia um estábulo à primeira vista, mas era grande demais para ser só isso. Cocheiros faziam manutenção das carruagens e os cavalos eram cuidados por um cavalariço. Depois de uma rápida apresentação aos funcionários, eles adentraram no prédio. O primeiro cômodo parecia normal, apenas um vestíbulo normal, mas no cômodo seguinte Ginger foi surpreendida por algumas dezenas de armas, de todos os tipos, desde bestas á lanças. As armas não assustaram Ginger, é claro que era preciso de um arsenal para proteger uma mansão daquele tamanho. Era um mundo onde poderia surgir uma horda do mais absoluto nada. Ginger ficou surpreendida por estar longe da casa. Não era possível que Levi fosse tão confiante! Talvez vendo a surpresa de Ginger, William tratou de explicar:

-Aqui é o arsenal externo, há um dentro da casa, para emergências. O jovem senhor também mandou construir duas arenas, geralmente ele treina naquela que fica na mansão, o que não pode acontecer hoje.

-Esse lugar é muito grande, senhor William.

-De fato, senhorita! Mas acredito que seja improvável que venha até aqui com frequência.

Replicou William. Ginger concordou com a cabeça. Ela não era do tipo que saia muito, e a mansão era visível, mas um pouco distante. A não ser que quisesse caminhar, o que lhe acontecia de vez em quando: uma tremenda vontade de caminhar para espairecer. Aquela também era uma zona de trabalho e nada era mais irritante do que alguém fazendo nada enquanto você trabalha. E Ginger estava pouco disposta a irritar seus futuros funcionários.

A dupla não se demorou muito no arsenal. Enquanto caminhava pelo corredor Ginger conseguia ouvir o tintilar de metal ao longe. Eles então chegaram a um cômodo completamente vazio, com o chão de madeira e arcos voltados para a frente, fazendo uma vista para o pátio.  Todos os lados do pátio eram rodeados por corredores, alguns pareciam ter bancos, outros tinham suportes para armas. Em um deles tinha uma mesa redonda e com algumas cadeiras ao redor. A mesa estava mais afastada, mas Ginger conseguiu ver a senhora Olivia sentada ali, bordando, enquanto em cima da mesa havia uma jarra com água, e alimentos cobertos. Ao lado dela tinha uma moça de cabelos pretos, pele pálida e vestido vermelho sangue lendo um livro. Ginger a achou familiar. A moça levantou os olhos, sorriu e acenou para ela.

Ginger a reconheceu: era a Night, sobrinha de Levi.

William levou Ginger até lá, através dos corredores laterais, que eram apenas corredores, armazenando armas. Enquanto caminhava os olhos de Ginger não saiam do centro da arena, Levi trocava golpes de espada com um executor. Pelo menos era o que Ginger achava, a calça dele era marrom, um tipo de marrom muito específico que ela só via no uniforme de executores. De qualquer modo, o homem estava claramente perdendo. Levi era realmente poderoso e parecia dominar a luta. Ginger sentiu-se ridiculamente fraca ao vê–lo. Isso sem contar que toda aquela trocação de golpes de espada, com o som de metal tinindo por todos os cantos, faziam com que seu coração batesse loucamente.

Quando ela chegou perto de Night estava ligeiramente perturbada, mas ainda conseguiu cumprimentar as duas, Olivia e a princesa.

Night parecia não tirar os olhos de Ginger. E Ginger sentia aqueles olhos vermelhos e com um sutil brilho de intrepidez típica de vampiros e damphir por deveras intimidantes. Depois de encarar Ginger até que ela corasse, Night finalmente falou:

-Então você realmente sempre vem aqui nas folgas do Levi. É menos tímida do que esperava, senhorita.

-Não sou tímida.

Replicou Ginger diretamente. Ela realmente não se via como tímida. Calada, sim. Por que geralmente não acompanhava os assuntos puxados em rodas de conversa e as pessoas não gostavam de conversar sobre os assuntos que ela dominava. Principalmente pessoas da idade dela. Night piscou surpreendida e retrucou:

-Não?! Ouvi dizer que não tem amigos e que não sai muito.

-Talvez eu seja uma pessoa desagradável! E fora da minha casa é perigoso.

-Até pessoas desagradáveis tem amigos, eles andam com outras pessoas desagradáveis.

-Não posso ser pior do que desagradável, né?!

Questionou-se Ginger, abraçada a sua mochila companheira de todos os momentos. Ela não saia muito de casa, afinal das contas. Como faria amigos? E as pessoas ao seu redor tinham seus próprios afazeres, e papos mais interessantes do que bordados e livros. Ginger geralmente ficava moscando quando sua irmã Beverly a levava para chás da tarde com as amigas delas. Ou quando Soul fazia seus próprios piqueniques. Algumas vezes conseguia conversar sobre comida e o mundo ao redor. Na escola era grudada em Beverly, como uma pulga. 

-Você não sai muito. O que é uma sorte, porque o Levi também não sai. Exceto para confeitarias. Ele é uma espécie rara de formigona.

-A princesa vai aonde?

-Humm, cafetarias para vampiros, universidade, faço muitas confraternizações, uns piqueniques! Gosto bastante de sair para comer com o meu noivo, o Dawn, aquele ali que está treinando com Levi. E de fazer compras com minha best também.

-Não gosto muito de sair, exceto para fazer compras... Se for livros, ou linhas de bordado, ou então tecidos! Posso ficar horas em uma loja de tecidos e só sair carregada!

-Eu não costuro, mas posso passar bastante tempo escolhendo chapéus. E livros! Qual é o seu tipo favorito?

-Amo romances. E aventuras, o que é estranho, por que eu prefiro ficar em casa.

-Jura? Eu prefiro mistério e crimes! Mas de vez em quando um romance água com açúcar cai tão bem! Esquenta o coração, dá um quentinho. Meu avô costuma trazer clássicos de outros continentes para mim, geralmente eu corro para os romances bobos depois de termina-los.

-E o que é um clássico?

-Boa pergunta, eu não sei. Aqueles que eu li tinha altas doses de melancolia, cinismo e natureza humana crua e feia. Dependendo do seu estado de espirito pode te fazer refletir sobre a vida, a humanidade e sobre si próprio. Ou te derrubar emocionalmente, o que me aconteceu com mais frequência do que eu gostaria de admitir. Cinismo e tragédia têm limite até para um meio vampiro.

Night terminou seus comentários com um balanço de mãos como se abanasse a tragédia e o cinismo residual de sua última leitura. Para Ginger, a descrição do clássico parecia desestimulante. Quer dizer, a vida não era fácil pra ela, que não passava fome e nem necessidades, imagina para quem não tinha nem o que ela tinha?! E ela não gostava de cinismo, quanto mais tragédias. Ginger morava na Terra dos Mortos! Trágico era eufemismo para o tipo de relato que ela já ouviu ali. Ela já tinha visto a própria tragédia e maldição daquelas terras com seus próprios olhos. Tentava nunca lembrar daquilo, mas a mera menção a fazia lembrar daquele sentimento de não ter forças para resistir. Uma impotência sufocante, que parecia subir direto do estômago.

Ginger balançou a cabeça, e tirou da sua mochila suas coisas de costura, tentando expulsar as memórias que espreitavam em sua mente. Não entendia como Beverly conseguia trabalhar vendo esse tipo de cena com frequência. Com que coragem ela enfrentava os mortos, dia após dia? Ginger olhou para Levi que ainda treinava. Ele era como Beverly. Forte como ela, mais poderoso do que ela e mais nobre também. Será que ele tinha as mesmas dores que Beverly? As mesmas inseguranças? Os mesmos rancores com o mundo?

-Esse é o colete para meu tio?

Night perguntou, tirando Ginger de seus pensamentos e apontando para a peça na mão dela. Ginger concordou com a cabeça, olhando para o colete que tinha costurado. Ela era bem cuidadosa, mas não sabia dizer se o acabamento era condizente com o futuro dono da obra. Seus olhos viam defeitos a todo instante e ela sentia-se um pouco tensa, e até arrependida de ter inventado. A maior dificuldade foi a estampa. Decidir uma estampa que combinasse com Levi e fosse bonita. Suas roupas eram fáceis de estampar, afinal, Ginger gostava de flores, folhas, frutas e pássaros. Ela conseguia misturar todos esses elementos sem nenhuma preocupação. Já o Levi, ela não sabia o que ele gostava, então bordou arabescos em alguns pontos, com linha da mesma cor do colete, um verde profundo, quase preto. Ficou bem discreto, mas Levi não era extravagante. Exceto com as janelas...

-Posso ver?

-Sim...

-Oh! É lindo... Aí meu tio não merece esse trabalho todo.

Comentou Night, analisando o bordado bem de perto, assim como o acabamento da peça. Ela sentiu uma invejinha, quer dizer, ninguém lhe dava uma peça de roupa como presente... Ela olhou para Ginger, com aquele límpidos olhos lilases e um rubor de constrangimento e felicidade. Em cima da cabeça de Ginger, apareceu a carranca de Levi, que ouviu o comentário. Dawn, o damphir que enxugava o rosto atrás do Levi, riu descaradamente da cara dela.

-Você nem usa verde, tio...

-Agora eu uso. Deixa-me ver isso aí!

-Ora, você tem que perguntar para a Ginger primeiro.

Night provocou, escondendo o bastidor atrás de suas costas. Levi lhe olhou desgostosamente. Ela era sua sobrinha, mas estava mais para irmã mais nova. Sempre provocando. Igual Peony, que realmente era sua irmã mais velha. Levi sempre sentia nesses momentos que deveria ter sido mais atentado contra Peony quando criança. E ele era o tipo de criança que poderia derrubar uma casa sem supervisão. Literalmente. Inclusive fez isso uma vez.

De qualquer modo, Ginger não tinha nada a ver com as provocações de Nigth. Ela olhava para Levi em expectativa. As suas longas orelhas avermelhadas e os olhos arregalados, brilhantes como cristais. Se fosse qualquer outra pessoa, Levi teria ignorado Nigth e deixado pra lá a curiosidade, mas era Ginger. E Ginger ia casar com ele. Levi, então, a perguntou:

-Posso ver?

-Pode.

Ginger concordou nervosamente. Ela não gostava de mostrar seus bordados antes de terminá-los. Sentia-se particularmente insegura. Se ele não gostasse teria que fazer tudo de novo. Isso sem contar o golpe em sua autoestima. Ela insistiu em fazer isso, então precisava no mínimo ser agradável... Aí, os ócios da insistência. A Night fez uma careta desgostosa para Levi. Ela realmente não esperava que ele pedisse. Não era do personagem dele, que geralmente ignorava esse tipo de provocação. Sorrindo da cara dela, Levi retribuindo, provocou:

-Passa pra cá moleca!

-Temos a mesma idade!

Replicou Night, entregando o bastidor para Levi com um beicinho.

Os olhos de Ginger seguiram seu bastidor para ser entregue às mãos de Levi. Não teve nenhum esboço de reação negativa em seu rosto. Nem positiva. Ginger sentiu seu rosto esquentar, de expectativa. As pessoas ao redor também pareciam esperar alguma reação. Para Ginger parecia uma eternidade.

-Por que verde?

Perguntou Levi, tirando os olhos do bordado e finalmente quebrando aquele silêncio. Ginger piscou surpreendida e ainda mais nervosa. Por que verde?! Ele não gostava de verde? Ela esqueceu de perguntar, né! Só podia ser, ela esqueceu de perguntar as cores que ele odiava.

-Era a cor mais escura que tinha.

Ginger respondeu, sentindo que sua voz falharia a qualquer momento. Seu rosto esquentou de tanto constrangimento. Ela era uma sem vergonha até a página dois! Levi não pareceu ter visto o nível de rubor e constrangimento que sua pergunta causara e devolvendo o bastidor para Ginger, comentou:

-Oh! É um trabalho primoroso, obrigado.

-Você gostou?

-Não seria uma cor que eu escolheria, mas é bem bonita, eu admito. E o bordado é excepcional. Muito bem feito.

-O...Obrigada.

Ginger agradeceu aliviada sentindo-se feliz. Olhou para o bastidor e sentiu-se ansiosa para terminar. O fato de que Levi gostou do bordado a deixou mais confiante. Ela sabia que era boa naquela atividade, mas era diferente fazer uma coisa para si próprio e fazer para outro. Se fosse para si própria, Ginger poderia desmanchar e refazer, ou apenas aceitar e dar a peça para alguém.

-Você vai usar aonde, Levi?

Perguntou Nigth. O damphir Dawn, tinha sentado ao lado de Night e estava segurando uma de suas mãos, enquanto o outro braço a envolvia. Ela parecia muito confortável ali. Ginger imaginou que aquele fosse o noivo de Nigth. Eles eram um casal muito bonito. Os olhos escarlates, o contraste entre a pele branca de Night e a pele escura de Dawn, os sorrisos e olhares que trocavam de vez em quando.

-Na festa de noivado.

Levi respondeu, bebendo um gole de chá. Ginger o encarou completamente surpreendida! Quando teria uma festa de noivado que ela não estava sabendo?!

-Que festa de noivado?

-Do nosso noivado! Ou você desistiu de casar comigo?

Questionou Levi, com um olhar blasé... Ginger sentiu que andar com Levi era exasperante, ela sempre tinha um repentino desejo de partir para a violência. Era a falta de argumentos, possivelmente! De qualquer forma ela se conteve em corpo e emoção e respondeu:

-Não... É que eu estou sabendo agora da festa de noivado.

-Não há nada de surpreendente nisso.

-Exceto pela parte que você nunca pisou os pés na minha casa e meus pais não tem certeza se realmente querem que eu case com você. Alteza.

Ginger replicou em um fôlego só! E caro, não esqueceu de falar alteza no final. Sua mãe passou a reclamar no seu pé do ouvido sobre Levi. E quando sua mãe se estressava, Ginger se estressava. Ela era um tipo de esponja de sentimento, positivos e negativos. De qualquer modo, era melhor avisar o culpado de sua culpa do que guardar para si e só se estressar mais. Todo mundo sabe o que acontece quando Ginger se estressa...

Dawn que estava comendo engasgou e Nigth olhou para o tio com um misto de choque e riso... Ele não tinha ido mesmo conversar com os futuros sogros. Se o avô soubesse disso talvez vertesse em lágrimas e raiva.

-Você ainda não foi visitar seus sogros?

Perguntou Dawn, os olhos arregalados de choque, olhando para Nigth, para Ginger e para Levi, como se estivesse esperando que algum deles negasse. Não pode contar com o casal para dar a resposta por que eles estavam se encarando, ou deveria dizer, se estranhando. Ginger encarou Levi sem nenhuma culpa, com a cara mais condescendente que ela tinha. A falha era dele, que não percebia o quão estranho o cortejo deles era. Não que ela estivesse indo atrás dele para cortejá-lo, mas as pessoas não sabiam disso.

-Ainda não.

Levi respondeu, sentando ao lado de Ginger e coçando a cabeça. Ginger por outro lado, deu de ombros e voltou para o seu bordado. Eles não estavam noivando por amor, no fim das contas e até onde ela via, não era pessoal. Ginger era o elo mais fraco ali, e por reconhecer isso não se importava em visitar Levi.

-E você não se importa?

Dawn indagou muito surpreendido... Se fosse a Night... Ele não gostava nem de pensar um troço desses. Mais temperamental do que um damphir era uma princesa damphir. Antes que Ginger respondesse, Night interferiu:

-Eles não são como nós, amor. É um casamento de conveniência, eles não vão ficar juntos porque se gostam.

Ginger e Levi se encaram depois de ouvir isso. Eles sabiam que seria um casamento por conveniência, mas escutar isso de outra pessoa era diferente. O tom de Night não escondia que ela sentia pena por eles. 

+++++++++++++++++++++++++++++++++++

-Somos dignos de pena? 

Ginger perguntou a Levi, depois que Night e Dawn foram embora. A mão dela se movia constante, espetando a agulha e puxando a linha sobre o esboço, enquanto a outra segurava o bastidor. Levi quase cochilou sob o som dos estalos do bordado quando a pergunta de Ginger o acordou. Ele olhou para ela, despreocupada bordando, depois para si próprio, quase dormindo, e a questionou:

-Porque seríamos? 

-Não nos amamos, vamos nos casar e todo mundo parece preocupado com isso. 

-Você não parece preocupada.

Replicou Levi, o que fez Ginger parar de bordar. Ela o olhou de volta. Parecia despreocupada? Tudo bem, ela estava pouco preocupada e na maior parte do tempo nem lembrava que iria se casar. 

Com a falta de resposta de Ginger, Levi continuou:

-Eu não estou preocupado. E se eu não estou preocupado, nem você está preocupada, está tudo bem! 

-Simples assim? 

-Sim.

Levi respondeu, fechando os olhos e encostando a cabeça. Os sons do bordado recomeçaram, e entre eles, Ginger perguntou:

-E o amor? 

-Há muitas teorias sobre ele, uns dizem que é construído, outros que é uma decisão, para outros é só fogo de palha queimando os desavisados. Qual você prefere?

-Acho que decisão e construção são da mesma teoria. 

Observou Ginger, pensando em seus pais. Eles estavam juntos a muito tempo, e passaram por muita coisa. Não eram perfeitos, discutiam algumas vezes, vacilavam nas outras, mas Ginger nunca viu seus pais se agredirem, se baterem ou se xingarem. Não ferir o outro nos momentos de forte emoção negativa é amor. Ginger entendia o conceito de fogo de palha, muito rápido, extremamente inflamável e muito intenso, mas o amor parecia muito mais calmo e estável pelo que ela via. Levi concordou com ela. Decidir amar alguém e se manter nessa decisão era mais seu estilo do que simplesmente ouvir seu coração. Afinal, todas as vezes que ele fez isso quebrou a cara! 

-Não precisamos ser fogo ardente ou coisa do tipo, tenho alma de ancião. Sinto que estou farto de fortes emoções. 

-Por mim tudo bem… Desde que você não me traia, bata, xingue ou me maltrate. 

Ginger deu de ombros antes de listar suas exigências. Só coisa básica, obviamente. Queria um marido, não um inimigo ou um algoz. Sem nenhum sentimento de ofensa, Levi concordou: 

-O sentimento é recíproco. 


Capitulo Anterior|                                         |Índice|                               |Próximo Capitulo

Comentários

Postagens mais visitadas