Capítulo Vinte e Seis - Colocando os papos em dia.
Ginger descobriu que não tinha sonhado que noivava de Levi do jeito certo no dia seguinte, ao receber um convite para almoçar com os Blackblood. Seus pais e suas irmãs a encararam como se a surpresa tivesse comido suas línguas, enquanto ela lia o conteúdo da carta em voz alta durante o café da manhã tardio daquele dia. Ao terminar, ela olhou para eles como quem esperava algum conselho. Só recebeu olhares incrédulos.
-Você não tinha terminado esse noivado?
Questionou Soul, antes que Eleonora falasse. Ela claramente não sabia o que sentir. Quer dizer, se Ginger estava noiva era ruim, se ela não estava era ruim também. O que pensar? O que dizer? Tudo bem que Soul apenas implicava com os Blackblood, não tinha nenhum rancor real contra eles, exceto por Abraham, mas se até Ginger tinha rancor contra Abraham, imagine Soul, que não precisava de motivos para desgostar de alguém. Mesquinho? Sim, com toda certeza, mas nem sempre era apenas mesquinhez, já tinha a salvo de algumas enrascadas, algumas vezes. Menos do que gostaria de admitir, mas o suficiente. Ginger respondeu que sim, enquanto pegava outro pedaço de queijo. Claro que apenas aquele “sim” não foi o suficiente para apaziguar as duvidas dos Garden. Eleonora dessa vez tomou a frente e perguntou:
-E essa carta? Os Blackblood não foram avisados?
-Eu noivei de novo. Ontem, enquanto papai estava dormindo. Levi perguntou se eu queria casar com ele e eu disse sim, o que é verdade, na maior parte do tempo, pelo menos. De vez quando não é, mas naquele momento era.
Os Garden apenas a encararam tentando absolver aquela informação. Ginger estava sorridente e ruborizada, a pele parecia brilhar, os olhos pareciam joias, tudo parecia o agouro de um fatídico coração apaixonado. Eles, cada um deles, sentia que não estavam prontos para isso. Ginger apaixonada. Hã? Eleonora sentiu que deveria ter imaginado algo do tipo quando sua filha começou a chamar Levi de manequim perfeito. A jovem só pensava em roupas, indumentaria, renda para cá e renda para lá, como mãe, Eleonora deveria ter imaginado que se Levi conseguiu entrar naquele universo de sedas e veludos, ele possivelmente conseguiria um lugar confortável no coração de Ginger.
-Você sabe que um marido, não é um manequim, né?
-Certamente, mamãe. Eu penso, pode não parecer, mas eu penso. Sei que não é divertido ser um manequim, mas é que ele é fisicamente perfeito, isso é inegável. Fica bonito com qualquer roupa, mesmo as mal acabadas. Só pode ser esse o significado de perfeição.
Ginger novamente estendeu o assunto. Se nos dias anteriores ela era uma mulher de poucas palavras, esse dia passou. Ela estava realmente animada com o noivado. O que não seria estranho em um casamento comum, mas para um casamento de conveniência parecia sinais de uma dinâmica desbalanceada. Eleonora, novamente sentindo a preocupação a abraçar, continuou seus questionamentos:
-E foi por isso que você aceitou?
-Não, foi porque ele sorriu para mim e eu fiquei confusa.
-Temo, minha querida, que você ainda esteja confusa.
Replicou Isaac, balançando a cabeça. Ginger terminou o noivado abruptamente e do mesmo jeito voltou a ser uma noiva. O que se passava na cabeça dela? Era temível que a própria não soubesse.
Custou a Ginger admitir para si que o que seu pai disse era verdade. Ainda se sentia confusa. Talvez estivesse realmente apaixonada e este era um prognostico ruim, principalmente considerando que ela iria embora. Aceitar esse casamento, mesmo que seja de fachada não parecia uma boa ideia no âmbito emocional, mas certamente era no âmbito físico. Não poderia se alistar, ponto. Sobre aquele comichão ser uma paixão ou não, bem, paixões passam, ainda mais quando provados no fogo da convivência. Se aquilo era real ou não, os defeitos de Levi que iriam dizer.
Engolindo seu desconforto com um gole de chá, Ginger tocou no segundo assunto que realmente pesava em sua mente: a vinda de seus avós e a sua ida com eles. Enquanto falava ela sentia que estava se expondo a um grande perigo. Um perigo emocional. Não queria ser abandonada e sentia-se mal por querer que sua família fosse com ela. Mais do que isso, sentia-se mal por pensar que eles estavam a abandonando, quando na verdade ela já era uma mulher adulta e tecnicamente deveria saber se virar sozinhas. Não se sentia corajosa o suficiente, apta o suficiente, e tinha medo de fazer uma mudança tão drástica na vida, principalmente sozinha. E se eles não pudessem ir com ela? E se eles pudessem, mas optassem por ficar? Ginger dizia a si mesma que não guardaria rancor, mas não confiava nos seus sentimentos sobre esse assunto. Talvez guardasse mais do que rancor e aquilo fosse um espinho em seu coração. Mais do que isso, ela não queria nem pensar que sair de One Hall significaria que nunca mais os veria. Não seria algo parecido com morrer em vida?
No fim das contas, todas as preocupações de Ginger foram em vão. Depois de uma discussão breve, os Garden optaram por ir com a caçula. Depois de conversarem com Cinnamon, eles entregariam seus postos e partiriam. Aquela era uma família de aventureiros, afinal. Começaram em uma aventura e continuariam outra.
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Depois de todas essas emoções, Ginger voltou para o seu quarto. A ansiedade do almoço começava a lhe pegar. Tentou não se irritar com a surpresa, mas enquanto tomava banho cedeu à irritação. Os Blackblood não tinham outro dia para marcar esse almoço, não?! A resistência de Ginger às surpresas era curta. Na noite anterior ela lidou com duas. Hoje, mais uma. Como ela se planejava assim? Não conseguia lidar nem com os próprios sentimentos adequadamente e teria que ir socializar… Não só isso, mas socializar com a família do seu noivo. E se eles a odiassem? Era possível, não era? E se ela falasse alguma besteira? Ou agisse estranho?
No fim do banho ela estava cheirosa a ponto de espirrar e cheia de inseguranças, querendo fingir doença e ficar em casa. Procurou uma roupa que considerasse adequada para a ocasião e enquanto pensava em discussões e brigas que provavelmente nunca aconteceriam. Era um casamento de conveniência, todo mundo sabia, mas Ginger não conseguia convencer a si com pensamentos racionais e tinha entrado em uma discussão interna entre seus medos e sua consciência que ela temia que a abateria suas feições. Confusa era um adjetivo aceitável, feia não. Ginger se beliscou e começou a procurar ativamente coisas para ocupar seus pensamentos. O céu estava bonito, azul, as nuvens muito brancas. Ela viu uma borboleta monarca entre as moitas de rosas. O azul das penas do beija-flor era um tom muito bonito, quase verde. A grama parecia pisada, eles deveriam colocar uma placa. Os vitrais da casa principal eram lindos, mas o pé direito era alto, muito alto, então como eram limpos? Foi nesse ritmo que Ginger chegou à casa de Éden. Seus pensamentos novamente foram sequestrados ao ver Levi.
O príncipe estava encostado na pilastra de um dos arcos da varanda, com os braços cruzados e os olhos fechados. O que ele fazia ali? Ginger não sabia, mas ela aproveitou para observá-lo atentamente. Tinha o rosto bonito e um porte elegante, era muito atraente. Carecia de um pouco de cor, era um homem pálido, sem rubor ou bronzeado, mas Ginger não poderia julgar ninguém sobre isso. Pelo menos Levi tinha sobrancelhas aparentes, o tipo de privilégio que faltava a Ginger. O auge de sua observação foi achar a cabeça raspada dele bonita. E ela sentiu que estava enlouquecendo por achar isso. Quer dizer, quem acha cabeças bonitas? Pois bem, a cabeça de Levi era bonita. E como dizem os idosos por aí, quem é bonito careca, é bonito de qualquer jeito. Ela não pôde aproveitar muito suas observações sobre a beleza de Levi pois ele abriu os olhos e perguntou:
-Por que você está parada aí?
-Vendo a vista.
Levi levantou uma sobrancelha em resposta e olhou ao redor. Que vista? Aonde ela está vendo algo a ser admirado ali? Ele realmente não sabia como lidar com essas peculiaridades de Ginger e temia que nunca fosse saber. Desencostando da pilastra, ele continuou a conversa:
-E a vista é boa?
-Bem bonita.
Ela não disse mais nada, apenas o encarou alegremente, com as bochechas rosadas, escondendo todo o tipo de pensamento com um sorriso.
-Cadê sua família?
-Estão vindo! Eu queria conversar um pouco com você. Vamos nos casar, e mesmo que seja por conveniência, ainda é um casamento. Não acho que aproveitamos muito bem o tempo que tivemos juntos.
Levi concordou com um “tudo bem”. O casal achou um banco na lateral da casa, coberto pela varanda e sentaram nele. Era um dia nublado e o vento cheirava a terra molhada. Da calha um pingo cai um após o outro. Ginger encolheu-se em sua capa, para escapar do frio e Levi esperou pacientemente que ela, que já tinha dito seu objetivo, o colocasse em prática.
-Conversei com minha família, sobre a vinda dos meus avós, eles aceitaram ir embora comigo, assim como você disse. Obrigada!
-Não fiz nada.
-Eu me senti muito encorajada, é difícil de admitir, mas temia ser rejeitada, e continuo a temer a solidão. A perspectiva de mudar de continente, deixar tudo e ir embora sozinha me é muito assustadora. Acho que não conseguiria. Temo que se você não tivesse falado comigo sobre quais seriam os pensamentos da minha família, eu teria adiado essa conversa. Posso ter muitos pensamentos estranhos e os deixo me dominar com maior frequência do que gostaria de admitir.
-Qualquer haleano gostaria de ir embora daqui, e sua família não seria diferente. É uma terra que devora pessoas.
-E você gostaria de ir embora?
Perguntou Ginger, para sua própria surpresa. Porque ela estava o perguntando isso? Levi Blackblood era afinal um Blackblood, a avó dele abria portais para o outro continente, sua mãe era uma imune, se ele quisesse ir embora ele já teria ido, não? Ginger sentiu-se boba por perguntar. Levi respondeu primeiro com uma risada confusa. O som parecia uma risada, mas podia ser apenas ele soltando o ar pela boca. Ela não sabia se era desgosto, ou alguma piada interna, mas no final ele a replicou:
-Da última vez que conferi, eu era um haleano.
-Então por que você ainda não foi embora? Porque ainda vive aqui?
Levi olhou para Ginger e coçou a testa. Ela estava encolhida em uma capa de cor delicada, genuinamente curiosa. Porque ele ainda vivia em One Hall? A resposta daquela pergunta ele não sabia. Não sentia que nutria amor pelos haleanos, não gostava do seu trabalho, mas não imaginava como seria uma vida fora dali. Era um Blackblood, um sobrenome com status nesse e em qualquer outro continente, então não era por causa disso. O que o prendia ali? Seu pai vivia ali, assim como seus irmãos, talvez fosse isso. Por outro lado, ele podia ir embora e voltar quando quisesse.
-Não sei. Nunca pensei sobre isso. Nem sobre ficar, nem sobre ir. Acho que eu apenas me sinto útil aqui. Sou necessário e importante.
-Humm, faz sentido, no fim, todo mundo gosta de se sentir assim, necessário e importante, até um fortão como você. Não me lembro de me sentir assim recentemente... Talvez nunca tenha me sentido necessária, ou importante.
-No Continente Imperial seu interesse por moda vai encontrar terreno fértil, vai ser bom. Diferente de nós, eles têm espaço, muita gente e tempo. E sua família vai largar tudo para ir com você, já passou da hora de começar a se sentir importante Ginger. Sua família a ama, no final das contas. Deveria ouvi-los.
Ginger concordou com a cabeça. Não havia muito mais a ser dito ou que ela lembrasse naquele momento, apenas aceitou o que ouviu e torceu para que se enraizasse em seu peito.
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Depois de um tempo, Selene apareceu os procurando. Não perdeu a oportunidade de provocar o casal com risinhos sobre estavam “escondidos, né?” e coisas do tipo, o que fez Levi amargar o arrependimento de ter se conservado solteiro por alguns instantes. Ter sua sobrinha zombando por que tinha entrado em um relacionamento antes de você era o suprassumo da humilhação. Ginger, do lado dele, estava mais interessada em observar a casa. Novamente. Ela tinha entrado ali antes, mas foi a noite, então perdeu o brilho suave do papel de parede e as cores das telas, coisas que sempre a interessavam e chamavam a atenção. A provocação de Selene, ela não ouviu. Tinha acabado de passar por um dos arcos da varanda e a arte dele chamou sua atenção. Como alguém conseguia fazer aquele tipo de linha lisa e suave em uma pedra? Era perfeito. Levi se consolou com essa reação. A cabeça de Ginger era cheia de beleza e de coisas bonitas, um contraste terrível com a dele, que era entupida das imagens horrorosas de seu trabalho. Em seu íntimo, ele conservava o desejo de mantê-la longe das coisas feias de One Hall, apesar de aquilo ser praticamente impossível e Ginger já ter tido contato com a maldição. Ele também a invejava de certo modo. Ela se apegava verdadeiramente ao que era belo e agradável, uma forma única de resistência contra a feiura do mundo e uma forma incompreensível de ver e viver ali em One Hall. Os olhos dela emanavam a luz do que ela via, acrescentando um brilho extraordinário a um rosto naturalmente lindo. Era uma outra categoria de beleza, onde a face poderia ser replicada, mas a essência não.
Ginger estava distraída e as provocações de Selene pararam, o que chamou a atenção de Levi. Ele olhou para sua sobrinha e a pegou o encarando. A indagação entre as sobrancelhas dela continuava apenas na mente de Selene, mas algo ali fez com que Levi temesse perguntar o que era aquilo. Ele não perguntou. Temeu a resposta.
Ao entrarem na sala de jantar, Ginger viu dois rostos novos, para os quais foi apresentada depois de cumprimentar os rostos conhecidos. Zachary continuava pálido, Peony ainda era simpática e conciliadora e Éden continuava a mostrar sua face gentil. As duas outras pessoas eram os avós de Levi. O avô dele era calado e calmo, enquanto a avó era linda e confiante. Era uma mulher muito bonita, ainda aparentando os trinta anos, mas considerando as orelhas, Ginger apostava que ela tinha cerca de trezentos, com cabelos pretos, tão longos que as pontas deles cobria toda as costas dela e ainda ficavam um palmo sobre o chão. Ginger ficou ligeiramente fascinada por aquele rosto. Os olhos eram iridescentes, os cílios longos faziam sombra sobre suas bochechas, cada expressão carregava charme e confiança. Quer dizer, ela tinha covinhas, apareciam toda vez que ela falava. E era dali que as covinhas de Levi tinham vindo. Sem papas na língua, Ginger externou seus pensamentos:
-Você parece uma fada.
Elena riu e apertou carinhosamente as bochechas de Ginger, com os olhos brilhando com o que parecia nostalgia, ela disse:
-Sua bisavó me disse o mesmo.
-Conheceu minha bisavó?
-Sim, não fique tão surpreendida, éramos da mesma geração. Sua mãe foi quem demorou para ter filhos, por isso você nasceu na geração de Selene, ao invés da geração de Levi. Dito isso... Ouviu Adrian, eu pareço uma fada!
Elena segurou a camisa de seu marido e lhe sorriu provocadoramente, logo depois de lançar uma bomba na cabeça de Ginger, que olhou para Levi ao seu lado e perguntou:
-Não somos da mesma geração?
-Não, nossas idades são próximas, mas em quesito geração, você é bisneta e eu sou neto.
-Você está na mesma geração que minha mãe?
-Sim, mas não somos parentes, Ginger. Ou não éramos. De qualquer modo, para nós, não é um empecilho. Só confuso.
Ginger concordou com a explicação com a cabeça, e Elena parou de brincar com seu marido. A matriarca Blackblood encarou seu neto, que estava um pouco atrás de Ginger, fazendo uma sombra suave sobre a moça. Ele tinha maior cara de tacho, enquanto a garota parecia corada e feliz.
-Muito me surpreende que você tenha aceitado ele de volta.
Comentou Elena, olhando para o neto com emoções complicadas. A expressão de Levi mudou por um instante, mas Ginger não a viu, ela estava ocupada, o defendendo:
-Ele foi muito convivente.
-Ele? Meu neto? Convincente? Esse neto?
Elena apontou diretamente para Levi, deixando a incredulidade a tomar. Se fosse o Abraham, ela acreditaria, mas o Levi, o Levi que esqueceu de propor o casamento adequadamente? Não... Ele estava fora do personagem?! Entre dentes, Levi replicou:
-Vó, não precisa humilhar.
-Sim, senhora. Ele teve bons argumentos.
Confirma Ginger, afirmando com a cabeça. Fugir do alistamento era um ótimo argumento para convencê-la a casar, melhor do que isso, só juras de amor, mas era o Levi. Ginger não conseguia imaginar o Levi fazendo uma declaração poderosa de amor. Assim como não conseguia se ver fazendo uma declaração de amor. Nisso eles eram parecidos, cada um guardando o que sentia no peito, até que pesasse no coração.
-Se você está dizendo, vou acreditar.
Disse Elena, após observar Ginger um pouco. Ela realmente parecia com sua bisavó, muito sincera, mas escondendo um monte de coisas no coração ao mesmo tempo. Levi suspirou suavemente. Se apertasse mais Ginger e ela contasse como foi a proposta, a família dele certamente riria sobre esse assunto até o próximo século. Talvez ele devesse ler alguns livros de romance, só para garantir um repertório.

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