Capítulo Vinte e Cinco - Festival da Fundação!
Ginger não falou, nem viu Levi por algum tempo. Para ela, a mínima menção ao príncipe Blackblood era irritante e suas emoções estavam em ebulição ao ponto de Ginger se quer conseguir discernir o porquê estava com raiva dele. Foi a condescendência? A ofensa sem intenção, incutida em sua frase? Ou a mistura das duas alternativas anteriores com a surpresa? Em suma, Ginger foi quem terminou o noivado, mas era também amargava o solitário sentimento de rejeição. Uma rejeição tão profunda, de origem anterior a Levi, que sempre se escondia nas turvas águas de seu coração, pronta para submergir a qualquer momento e a sufocar.
A caçula Garden sabia que não conseguiria encontrar um haleano disposto a ficar com ela por algo como o amor. Conhecia poucos amores que sobrevivessem a hordas selvagens e famintas. Ginger sabia que seus pais morreriam por ela, e esse era o amor que ela sabia que sobreviveria as ameaças de uma morte horrível. Não foi assim que seu pai perdeu a perna?! Enquanto a empurrava para o telhado, para longe dos mortos que invadiram a casa. Quem seria o louco que iria querer viver com um Farol? Em One Hall, aquele era um tabu. Existiam poucos Faróis porque eles eram assassinados, geralmente por suas próprias famílias. Os Garden eram diferentes, eles a protegeram e estavam dispostos a protege-la pelo resto de suas vidas. Ginger fazia o possível para não pensar em si como um fardo eterno. E talvez fosse essa a ferida que mais doía ali. Existia pouco o que ela pudesse fazer para não ser um fardo. Mesmo que matasse zumbis como qualquer outro conseguiria, Ginger ainda atrairia mais do que ela poderia lidar. Um fardo perigosamente pesado. E a vida era preciosa demais para desistir dela.
De qualquer modo, Ginger andava o puro suco do mau humor. Sua família não disse nada sobre o fim do noivado, apesar de preocupação materializar em cada par de olhos ali. Suas irmãs até tentaram anima-la com linhas de bordados e ideias para vestidos, mas sua falta de ânimo era tal que até as roupas eram desinteressantes. Ela só queria chorar, e segurava o choro. Chorar era uma confissão de sentimentos que Ginger não queria expressar e explicar. Talvez nem soubesse o nome deles. Ela passou seus últimos dias vagando pela casa e folheando seus livros preferidos uma e duas vezes. Em alguns momentos sentia falta de Levi, em outros se perguntava se ele sentia falta dela e Ginger respondia a se mesma com uma negativa. Depois se sentia ridícula por sentir falta de alguém que ela mal conheceu. E ficava pior ao especular que Levi não sentia falta dela. Sentia-se mal ao lembrar de como ela explodiu com ele, mas não o suficiente para não se irritar com a condescendência de Levi. Em suma, era uma tremenda bagunça e parecia eterna. Ginger sentia que ela nunca ia melhorar e que aqueles sentimentos nunca passariam.
-Você gosta dele por acaso?
Beverly perguntou, de supetão, enquanto as três irmãs estavam reunidas na sala de estar, cada uma ocupada com seu passatempo, em um inesperado sinal de impaciência com os suspiros Ginger. Soul olhou para a ruiva chocada. O que deu nela? Ginger a encarou com confusão. Sua aparência estava abatida. O apetite tinha sumido e seus olhos estavam fundos. Não era a imagem de uma pessoa apaixonada.
-Eu gosto de quem?!
-Do Levi, né?! Boba...
-Gosto? Acho que é só uma crise existencial. Eu as tenho aos montes, caso não tenha percebido.
-A última não foi assim! Você parece mais cabisbaixa do que o normal, não é, Soul?
Soul concordou com Beverly com a cabeça, ainda a encarando cheia de julgamentos. Geralmente era ela a irmã insensível às sensibilidades gengibricas. A Beverly era a irmã tranquila e apaziguadora, mas do nada resolveu confrontar Ginger sobre seus sentimentos. E se ela chorasse? Soul era péssima em consolar. Podiam contar com ela para muita coisa, mas ela era ruim naquele negócio de dar apoio emocional. Ginger deu de ombros e respondeu:
-Deve ser a morte se aproximando.
-Credo Ginger! Eu prefiro a tese louca da Beverly.
-Que eu estou apaixonada pelo Levi? Isso soa trágico, considerando que terminei o noivado com ele, vocês não acham? E fica ainda pior, se consideramos que ele não me quer... Humm, má noticia. Sim, sim.
-Não é porque estamos apaixonados por alguém que essa pessoa é ideal para nós. Ou que vamos ser correspondidos... As pessoas se apaixonam pela pessoa errada aos montes.
Enquanto falava, Beverly não conseguia deixar de pensar que aquele conselho parecia lhe vestir melhor do que a Ginger. No final das contas, Abraham não respondia suas cartas. Ela nem sabia se eles estavam noivos de fato. Ele foi para o exército brigado com ela. Ginger tinha a mesma opinião que Beverly sobre sua réplica:
-Abraham é ideal para você Beverly?
-Não sei, faz tempo desde a última vez que o vi.
Ginger não tinha energia para discussões ou réplicas, então engoliu todos as suas provocações e voltou para seu próprio assunto.
-De qualquer modo, o Levi não quer casar comigo. Eu seria apenas uma extensão do seu dever para com One Hall.
Beverly e Soul se encararam rapidamente. E Ginger conseguiu ouvir a Beverly resmungar um: “isso parece ciúmes”. Ela não a replicou. Seu ex-noivo realmente gastava muito do seu tempo e energia com One Hall, e ela desconfiava que a família estaria em segundo plano na vida dele. Por que Levi sangrava tanto por essa gente? Ela não conseguia imaginar. Não era mesquinha ou egoísta, não prejudicaria alguém de propósito, mas não entendia o nível de dedicação de Levi com seu trabalho. Ele não parecia ser um pervertido que amava matar ou carnificinas, então sobre suas motivações, Ginger não fazia ideia. E pensando em retrospectiva, ela deveria ter perguntado. Fez poucas perguntas a Levi sobre ele mesmo. E vice versa. O fim do noivado parecia menos ruim depois de pensar nisso. De qualquer modo, ela ainda tinha um problema para resolver: o alistamento. One Hall não tinha atualizado os regimentos para dar isenção aos Faróis, afinal, pouquíssimo deles chegavam à idade adulta e aqueles que chegavam não duravam muito. Zumbificações espontâneas eram um risco constante, assim como as hordas e a maior parte das famílias não tinham um Exterminador em casa. Ginger passou os três anos de alistamento de Beverly isolada. Se ela fosse apenas mais um pouco sociável, certamente não sairia bem de tal provação. O isolamento era duro e o segredo pesado, não mais do que o medo de ser abandonada.
Depois desse papo sobre Levi, as irmãs ficaram em silêncio. Ginger entretida com seus pensamentos e inseguranças e as outras duas com suas próprias questões e passatempos. Quando voltaram a falar sobre outro assunto. Sobre a Festa da Fundação, as preocupações sobre os mortos e a dificuldade de convencer a população de que era melhor fazerem festas mais intimistas naquele ano. Ginger não participou dessa vez, apenas ouviu. A Festa da Fundação naquele ano cairia em um dos dias que Levi escolheu para o noivado. Talvez fosse a única data que suportaria um dia de pompa e luxo. A maioria das pessoas sentiam-se satisfeitas naquele dia, que representava mais um ano de existência do One Hall e para os haleanos mais um ano de sobrevivência. Ginger nunca estava
muito animada para essa festa, afinal, ela nunca podia ir.
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O dia da Festa de Fundação finalmente tinha chegado. O castelo tinha pendurado bandeiras e lanternas por todos os cantos e era possível ouvir tambores e canções. Ginger nunca ia para os festivais. Ela não gostava de aglomeração. Nem do barulho, nem do cheiro, nem das luzes, que apesar de lindas, irritavam seus olhos. E o risco de surgir um morto era mais acentuado. Portanto, ela ficou em casa depois de convencer sua família que estava em segurança e eles poderiam ir à festa e trazer uns lanchinhos para ela. Sua mãe e suas irmãs saíram para o festival e seu pai ficou para lhe fazer companhia, mas caiu no sono logo após começar a ler um livro que ele encontrou na estante da sala de estar. Ginger achava que aquele era o seu tipo de ostentação. Que tipo de família rica mantinha livros na sala de estar de sua casa de visitas? Os Blackblood. Eles não tinham medo de serem roubados, não? Bem, era os Blackblood, ninguém teria coragem de rouba-los. E One Hall era um ovo, não tinha muito espaço para ladrões se esconderem.
Ginger dissertou mentalmente sobre os Blackblood e seus livros por pouco tempo até cansar e subir para seu quarto. Entediada, ela decidiu ficar na varanda. Enrolou-se em uma manta de tricô que Soul a tinha presenteado e arrastou um dos bancos para ali. Assim como seu lampião de uso pessoal. Era útil perto de coisas inflamáveis como linhas de algodão e papéis, mas Ginger passava tanto tempo perto dele que ela se sentia meio defumada. Não teve vontade de bordar ou ler (por causa disso começava a desconfiar que estava doente) e não levou sua cesta de bordados ou qualquer coisa do tipo. Era uma noite fria e as nuvens cobria a lua, mas para compensar todo o caminho do jardim estava demarcado por lamparinas, as flores embaixo da varanda exalavam um cheiro adocicado que faziam com que o nariz de Ginger coçasse e os grilos enchiam seus ouvidos com suas canções. O tipo de cena pacata e bonita que ela gostava. O silêncio era confortável, assim como as luzes amarelas que preenchiam a paisagem. Acalmavam sua alma. Ginger ficou ali um tempo, pensando no vento, até que viu alguém andando pela estrada. Logo percebeu que era Levi.
A cabeça raspada, os olhos afiados e o uniforme preto coberto por uma casa longa e inédita. A luz amarela deveria favorecer seu tom de pele, mas Ginger o achou mais pálido do que o normal. Ele estava perdido? Não... Ele cresceu ali, conhecia melhor do que ela. Ginger o observou subir na varanda e tocar a companhia. O que ele queria? De qualquer modo, o Blackblood não foi atendido. Os funcionários estavam de folga e Isaac dormia na sala de estar muito tranquilamente. O que muralhas não faziam com o ser humano?! Ginger estava com preguiça de descer, então apenas chamou Levi. Ele levantou o rosto em direção a ela. Ginger achou que viu a sombra de um sorriso em seu rosto. Os olhos dele pareciam incandescentes. Ela não se lembrava de vê-lo tão animado por encontrá-la.
-Achei que você ia me ignorar.
Disse o Blackblood, para a surpresa de Ginger. Por que ela faria isso? De todo modo, Ginger não o retrucou, não estava a fim de ter um papo aos berros e seu pai estava dormindo, ao invés disso o alertou:
-Shhh! Meu pai está dormindo, fale baixo.
Ginger viu o que ela achou ser uma sombra, realmente se transformou lentamente em um sorriso. Ela desconfiou que Levi estava no meio de uma piada interna, mas não se importou, foi capturada por aquela expressão. As covinhas que eram fofas no menino Levi, no homem Levi eram de tirar o fôlego. O peito de Ginger doeu. Ela nunca imaginou que acharia um sorriso perigoso, mas temia que tivesse encontrado um. Ginger sequer sabia o porquê ele estava rindo. Ela só conseguiu o encarar desnorteada. Estava realmente apaixonada? Não… Não era possível. Porquê? Porque ela se apaixonaria por Levi Blackblood? Sua vida estava muito pouco emocionante e seu coração achou de bom tom uma tempestade emocional nova? Bem que diziam que o coração era enganoso. Ginger não aceitou isso… Deveria ser carência. Quer dizer, ali estava um homem bonito e ela não tinha vergonha de admitir que era seu tipo. O coração acelerar perto de um homem atraente era normal, não? A beleza também poderia assustar. Sim, era isso. Ele era tão bonito que assustava!
Levi não pareceu perceber o tipo de pensamento estranho que se formou na cabeça de Ginger. Ele a avisou:
-Vou subir aí.
-Porque?
Levi não respondeu Ginger. Ele flexionou os joelhos e deu o maior pulo que Ginger já tinha visto na vida, segurou na cerca da fachada e pulou para dentro da varanda. Ali, cobrindo a lua e fazendo sombra sobre Ginger, ele a respondeu:
-Preciso falar com você.
-Sobre o que? Não pode ser amanhã?
-Não, tenho que fazer isso hoje, enquanto tenho coragem.
Ginger não retrucou Levi dessa vez, estava curiosa. O que era tão urgente que ele precisava falar hoje, e não amanhã? E que precisava de tamanha coragem?! Ele certamente não a achava assustadora, intimidadora ou algo do tipo. Ela o esperou falar.
-Você já pensou em ir embora daqui?
-Quê?! Você está tão nervoso para perguntar isso?
-Não, mas saber disso é importante. Nunca pensou em ir embora de One Hall? Viver em outro lugar, com outro povo, sem os mortos.
-Já pensei, sim, acho que não tem nenhum haleano que não tenha pensado nisso alguma vez, mas para onde eu iria? E minha família? Não consigo me imaginar longe deles, ainda mais para sempre.
-A morte é ir embora para sempre, Ginger.
-Você está tentando me convencer de alguma coisa, Alteza? Certamente, sabe alguma coisa que eu não sei! Desembucha…
-Seus avôs virão à Terra dos Mortos, à One Hall! É a sua chance de ir embora, de fugir daqui. De ter uma vida, uma de verdade, sem medo constante, sem perseguições, sem chantagem de otários.
Ginger não soube o que responder após ouvir tudo o que Levi disse. As palavras fugiram dela, e os pensamentos também. Avôs… Ir embora… Quê?! Tinha essa possibilidade? Tudo parecia muito bom. Existia no mundo uma proposta tão boa?!
Levi esperou pacientemente a Ginger reagir. Ela ficou uns bons minutos olhando para ele, como se suas palavras fossem complexas para digerir, até que perguntou:
-E os meus pais? E minhas irmãs? Eu não vou embora sozinha!
Não surpreendeu a Levi aquela resposta, apesar de a considerar uma insanidade. Ginger era apegada a sua família e era evidente que ela não queria se separar deles. A parte insana era que ela precisava dessa separação para viver, mas nenhum dos Garden pensou em tal possibilidade. A possibilidade de Ginger ir embora era uma ideia nova, com riscos dúbios, que poderia dar muito certo ou muito errado, mas o importante era garantir uma solução eficiente para toda aquela confusão. E aquela era uma solução eficiente. Era vantajoso para Ginger, para Levi e para One Hall.
-Eu tenho certeza que se você quiser ir, seus pais irão com você. Eles fariam qualquer coisa para te salvar, Ginger. Qualquer coisa.
-E minhas irmãs?
-Não sei muito sobre elas, não posso dizer, mas você mesma disse: qualquer haleano já teria pensado em ir embora daqui alguma vez. Acho pouco provável que suas irmãs sejam diferentes. Claro, para o meu pai seria um tremendo prejuízo, mas é um prejuízo dentro de seus cálculos. Sua mãe não é daqui, afinal. E a família dela é muito influente. Se e quando ela quiser partir, ela simplesmente vai.
Ginger aceitou a explicação de Levi em silêncio. Seu coração estremecia, borbulhava, tentando conter aquela emoção que surgia de seu âmago. Ela poderia ir embora? Mesmo, só deixar tudo para trás e zarpar em um navio? Simplesmente pedindo a sua família por isso? Mas, não seria egoísta pedir que deixassem tudo por ela? Quer dizer, tinha todos os ócios de viver ali, tão perto de uma maldição, mas também ali estava toda a sua história, seus bens, suas conquistas, os amigos e para suas irmãs, seus amores. Olhando novamente para Levi, que durante aquele tempo apenas a estava observando, Ginger o perguntou:
-Não seria egoísmo pedir tanto?
-Quê?! Não! Sua família seria estranha se te achasse egoísta por querer sair dessa terra maldita. Ainda mais que para você, é simplesmente a garantia de uma vida segura e possivelmente de uma vida plena. Você vai poder trabalhar com que gosta, estudar, ler todos aqueles livros no lançamento, casar e ter um par de rebentos.
-Recomeçar é difícil. Eles teriam que deixar tudo.
-Perder uma pessoa amada quando você podia ter feito algo para que ela estivesse viva é pior! É pior que difícil. É possível comprar novamente uma casa, refazer amizades, arrumar novos empregos e recomeçar a vida, mas não temos o poder de ressuscitar mortos, nem de voltar no tempo. A vida é o bem mais importante de uma pessoa, por que não pertence a ela. É um empréstimo, é um fôlego, e a qualquer momento o débito é cobrado.
Levi suspirou após terminar de falar, entrando em um estado pensativo logo em seguida. Ginger sabia que o humor dele era ruim naquele momento. Sua voz denotava seu desconforto. Tinha algo ali explícito, que até ela conseguia ver. Ele tinha acabado de desabafar? Ginger não conseguiu discernir. Ela esperou que ele falasse mais alguma coisa, enquanto lidava com a bagunça da constatação de que ela era uma pessoa materialista. Porque na sua cabeça, sua vida estava atrás da casa, do trabalho, dos amigos? Por que era a última coisa na lista? Ela era insubstituível. Não era a pessoa mais necessária, a mais eficiente, a que fazia algo que ninguém mais fazia, mas era a única Ginger Garden, filha de Eleonora e Isaac, irmã de Beverly e Soul, que nasceu ruiva e o cabelo desbotou, que preferia cores claras a escura, sabores suaves á vibrantes, que sentia o gosto do vento e o cheiro da água. Cada uma de suas características a fazia insubstituível. E mesmo que ela fosse igual a outros milhares, ainda seria insubstituível. Era difícil admitir que seu valor não estava em sua utilidade.
Quebrando o silêncio, Ginger perguntou:
-Quando meus avós chegam?
-Cerca de um a dois meses, dependendo do humor do oceano. E se ele vai vim com uma grande frota. E provavelmente ele vai ficar um tempinho por aqui.
-Ohh! Então vai ser rápido! Vou ter algum tempo para me acostumar com a ideia. E para convencer minha família, se precisar.
Levi acenou com a cabeça em concordância, apesar de achar que esse tempo seria gasto apenas no convencimento da própria Ginger. A não ser que Abraham aparecesse com uma desculpa estupenda, o que Levi achava que era muito pouco provável, Beverly não ficaria em One Hall por ele. E Soul era conhecida por ser aventureira, gostando de explorar novos lugares, considerando os relatos de seu pai e avós, o Continente Imperial, seria um prato transbordante para ela. Os Garden ficariam bem. A matriarca deles era uma princesa, afinal. Ela certamente tinha propriedades por lá.
Um silêncio depois, Levi, sentindo-se ligeiramente exasperado, questionou:
-Ginger, você não está esquecendo de nada não?
-Eu?! Estou? O que?
-Depois do Festival da Fundação, acontece o…
Ginger o encarou. Porque ele só não finalizou a frase por si só? Mal hábito terrível que as pessoas tinham de querer que as outras completassem suas ideias… De qualquer modo, ela pensou nesse grande evento que acontecia depois do Festival de Fundação e levantou do banco de supetão:
-Alistamento! É semana que vem o maldito do alistamento! Meu avô ainda vai demorar pra chegar! Estou ferrada.
Como ela tinha esquecido essa data tão importante? Seu destino estava ali. Ginger não sabia o que passava na cabeça do Éden Blackblood para simplesmente decidir que o alistamento seria logo após o Festival de Fundação, certamente algum tipo de jogada política que geralmente ela não dava a mínima. Ela sequer participava das festividades. Era um problema novo, considerando que tinha acabado de achar a solução para seu problema antigo. Não fale em convencer sua família, ela tinha que evitar ser alistada primeiro.
Ginger olhou para Levi. Ele a encarou de volta. Ela lembrou que terminou com ele e enrubesceu. Parecendo ler a mente dela, ele riu com um pfft. A segunda vez naquele curto período. O coração de Ginger doeu novamente. Levi era exasperante. Suas covinhas eram criminosas. E custava a Ginger admitir que ela foi impulsiva ao terminar o noivado.
Seus sentimentos foram legítimos, a raiva, a surpresa, o sentimento de rejeição que se moveu em seu cerne, todos legítimos, mas ela também sabia que foi impulsiva. O casamento seria por conveniência e Ginger sabia disso desde o primeiro momento. Com a preocupação de Levi com o exército, os planos de expansão e One Hall, a relação deles apenas tinha se equilibrado. Ela se casaria para salvar a própria vida, ele se casaria para salvar o futuro de One Hall. Talvez Ginger realmente sentisse ciúmes de One Hall. Lhe era um conceito complexo, mas se sua quedinha por Levi fosse de fato um tropeção, fazia sentido que ela desejasse que a preocupação dele fosse voltada para si, ao invés de para One Hall. Aquele seria apenas mais um de seus desejos egoístas. Ela quase acreditava que estava prestes a se tornar uma legítima egocêntrica, com o mundo girando ao seu redor e ela não devolvendo nada de volta.
Ginger desviou os olhos de Levi. Aquilo já não era mais problema dele e ela estava pouco disposta a arrastá-lo de volta para onde ela o expulsou. Poderia ser mimada com a lua, mas gostaria de continuar julgando com justiça.
-Obrigada pela informação, eu vou dar um jeito. Ou minha família vai dar um jeito, ainda não sei. De qualquer modo, obrigada. Foi muito gentil da sua parte vir pessoalmente me contar.
-Não foi gentileza.
-Não?
-Não! Se você quiser, eu caso com você.
A jovem Garden novamente pôs seus olhos no jovem Blackblood. Aquilo era uma proposta? Levi não parecia de brincadeira. Seus olhos eram muito sérios, brilhando sob a luz amarela do lampião.
-Seu pai te obrigou a vim?
-Ninguém nunca me obriga a nada, Ginger. Ele me deu duas opções, eu escolhi uma, é isso.
-Um casamento de conveniência?
-Sim, porque? Você quer um de verdade?
Ginger não respondeu, mas suas bochechas esquentaram e ela torceu com muita vontade que Levi estivesse muito distraído para perceber. Talvez a luz o fizesse achar que era apenas uma impressão. De qualquer modo, ela ainda não tinha decidido se aquele comichão era realmente uma paixão. E agora não sabia se queria saber. Se ela estava apaixonada, não seria melhor descobrir dentro de um navio no meio do oceano? Bem longe dele? Parecia irracional, mas Ginger não queria se sentir relutante em partir. Se estivesse apaixonada, ela tinha certeza que seria assim que se sentiria. E havia também a questão do próprio Levi. Ele ia querer a ela? Esse grande imã de mortos? E se ele a rejeitasse? Como ela ia lidar com isso? Ginger não queria se arriscar.
Enquanto pensava, Ginger novamente foi confrontada com a proposta.
-Ginger, você quer casar comigo?
Foi uma pergunta de tom suave, o mais suave que ela já tinha ouvido da boca de Levi, e os olhos dele eram de um rosa perfeito, o tom favorito de Ginger. O som do coração dela entoava em seus próprios ouvidos a ponto dela não conseguir ouvir seus próprios pensamentos. Naquele momento, a única resposta que ela conseguia pensar era:
-Sim.

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