Capítulo Vinte e Quatro - Inesperado!
Ginger duvidou de seus olhos ao ver as datas escritas no papel à sua frente. Eram as melhores datas para um jantar de noivado. Finalmente tinha chegado esse dia e foi antes do esperado. Ginger achava que Levi aproveitaria para ter mais tempo com ela, mas no encontro seguinte à visita dele à família dela ocorreu um: “escolhe aí uma data”.
Ela o encarou com as sobrancelhas franzidas, como quem encara uma equação.
Levi estava usando o uniforme de trabalho. Ela nunca o tinha visto de uniforme tão perto, por que ele não o usava nos dias de folga. Ele tinha saído do trabalho direto para a casa dela? Que bicho o mordeu?! Ginger se controlou para focar no que as sobrancelhas dele diziam ao invés da beleza daquele uniforme preto que lhe era muito interessante. Queria revirá-lo e ver sua costura, mas controlou esses pensamentos fantasiosos e se concentrou no rosto de Levi. Um belo rosto também. Sobre as sobrancelhas, nada diziam, elas estavam plácidas, e ele bebia chá, comia bolo e viajava na maionese como em qualquer outro dia normal, mas o papel na mão dela dizia que aquele não era um dia normal. Que bicho o mordeu?! Tomada por uma coragem quase provocadora e uma curiosidade genuinamente preocupada, Ginger o questionou:
-Você está bem?
-Sim.
-Mas vossa Alteza está de uniforme!
-Eu fui trabalhar. E não se preocupe, troquei de uniforme antes de vir para cá. O outro estava imundo…
-Sim, eu sei e isso é estranho.
-O que é estranho, Ginger?
-Você, aqui, depois do trabalho e querendo marcar o noivado. Tudo no mesmo dia. É estranho.
Explicou Ginger, sentindo sua calma escorrer por entre os dedos. Esse tipo de mudança de plano a apavorava e ela sinceramente não entendia o porquê das pessoas simplesmente não avisarem o que vão fazer ou o que pretendem fazer. Parecia que o mundo estava em um livro de mistério e ela era a leitora sendo constantemente surpreendida por mudanças bruscas de script. Como ela ia lidar com isso? O mundo estava sempre em constante mudança e era cansativo.
-Não tenho o porquê ficar adiando o noivado. Meu pai está preocupado, o seu pai está preocupado e se casar é nosso destino, é melhor resolver isso logo.
Algo no tom de voz de Levi irritou Ginger. O destino deles como casal estava selado? Quando isso aconteceu que ela não viu? E porque o tom dele parecia, sei lá, sacrificial?! Um tom odioso. E Ginger não sabia se era apenas coisa de sua cabeça ou seus ouvidos estavam certos, mas ela se irritou. Mesmo que se tivesse opção, ela não casaria consigo, ouvir outra pessoa falando naquele tom, como se ela fosse um fardo, atingia em cheio suas feridas mais profundas.
-E se eu não quiser casar?
Inquiriu ela, resistindo a uma tremenda vontade de rasgar aquele papel em sua mão em pedacinho e jogá-los na cara de Levi. Naquele momento tudo o que ela não queria era casar com ele. Idai que ela iria morrer? Todo mundo morria, todo mundo iria morrer um dia, a morte era inevitável! O que Ginger não suportava era ser um fardo, um destino terrível e inevitável de responsabilidades eterna para todos. Odiava ser fraca. E odiava como todo mundo era mais forte do que ela e não a compreendia. Era impossível eles entenderem o quão humilhante era depender de outrem. O quão delicado era ter a consciência de que um suporte era sempre necessário e lidar com a tamanha pequenitude de sua existência.
Levi não estava na mesma página que Ginger e ele não entendeu os sinais do que vinha pela frente, afinal, ele, usando fogo ao invés de cal, respondeu:
-Você já teria dito.
-Eu não quero! Eu não vou casar! Não vou casar com ninguém, não vou casar com você, com seu primo, irmão e com ninguém! Já que sou um fardo, eu vou morrer como um!
O príncipe não conseguiu responder a tal explosão. Ele só olhou, atônito, a mulher saindo de calmaria para furacão em instantes. De onde veio aquilo? Ela parecia está completamente normal e até animada há pouco tempo e agora estava com o rosto rubro e levantando da poltrona com ímpeto. Não parecia uma provocação, ou uma brincadeira… Ele só conseguiu pensar na pergunta, da qual fez bobamente:
-Quem disse que você é um fardo?
-Você. Não sou um destino inevitável? Antes eu não era… Antes eu era uma possibilidade, mas agora que você sabe que eu sou um Farol, é sua obrigação casar comigo! Se não seu exército morre, os planos de One Hall vão por água abaixo e blá blá blá!Não é isso que você andou pensando?!
Pois Ginger não deixou nem Levi responder qualquer coisa, saiu marchando da sala e só não bateu a porta atrás dela porquê não tinha uma.
++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
Éden ouviu o relato de seu filho sobre como a “ex-noiva” terminou com ele sem mais, nem menos, com um misto de desespero e graça, pensando sobre onde ele tinha amarrado seu burro. Os pais de Éden estavam sentados no sofá atrás de Levi, ouvindo a história com muito interesse.
-E agora? O que eu faço?
-Você ainda quer casar?
Questionou Éden, impressionado com a resistência do filho. Ele sentia que faltava alguma coisa na história, mas Levi não parecia que estava mentindo. De qualquer modo, os sentimentos de admiração de Éden desvaneceram após a resposta de Levi:
-Não sei.
Uma resposta normal, considerando as circunstâncias. Uma resposta preocupante, também considerando as circunstâncias. Nessa altura do campeonato Levi já deveria saber o que queria, mas agora o que ele queria também pouco importava. Independente se aquela era uma resposta normal para um casamento arranjado ou não, a avó de Levi imediatamente manifestou sua opinião:
-Eu acho que é uma péssima ideia você se casar sem saber se quer casar. Aliás, eu não acho, eu tenho certeza: é uma péssima ideia.
-Mas a data do alistamento está chegando vó!
Elena cruzou os braços com a réplica de Levi. Ela odiava casamentos arranjados e já tinha visto inúmeros fracassarem. O de Levi parecia a cria entre um casamento arranjado e um de conveniência, mas passava longe de um casamento por amor. Todos casamentos, seja o arranjado, o de conveniência ou por amor, precisavam de cooperação e respeito mútuo para darem certo e Elena acreditava que, apesar de disposto a cooperar, seu neto não parecia ter respeito suficiente por sua noiva. Vendo sua preocupação com o alistamento, ela não se intimidou de perguntar:
-Você está preocupado com o exército ou com a menina?
-Com os dois! É possível se preocupar com mais de um assunto ao mesmo tempo.
O argumento de Levi não foi replicado dessa vez, mas ele sabia que sua avó não estava satisfeita com aquele noivado. Ela ria e fazia piadas, mas tinha uma opinião muito clara sobre isso. Tinha pouco a ver com a Ginger, era sobre o tipo de casamento mesmo. De qualquer modo, engolindo sua própria irritação e confusão sobre todo esse assunto, Levi fez a pergunta que o fez ir a casa do seu pai:
-Vocês têm alguma ideia sobre o porquê dela ter ficado chateada?
-Aposto que foi o jeito que você falou.
Elena opinou, cruzando os braços e se encostando no sofá. Não acreditava que seu neto fosse mentiroso, mas sabia que ele poderia ser direto. E em alguns momentos praticidade era ofensivo para ouvidos sensíveis. Isso sem contar que ele relatou a história do que aconteceu exatamente como um relatório, sem a mínima emoção na entonação de sua voz, mais frio do que como um terceiro contaria essa mesma história. E se não pedisse a opinião deles sobre isso, Elena continuaria a achar que era realmente um relatório, não um pedido de ajuda.
Levi não prestou atenção no jeito que falou com a Ginger, mas tinha certeza que não foi rude ou mal educado, ou ameaçador. Se foi seu jeito, ele não poderia dizer qual foi o gatilho. Ele sabia e respondia apenas aos seus próprios sentimentos, que no momento era uma bagunça entre cansaço, enfado e preocupação, tudo ligado com uma confusão bem grudenta. Seu pai e avô não replicaram Elena, cada um parecia estar pensando em sua própria resposta. Depois de um silêncio beirando ao desconfortável, apareceu uma resposta:
-Desconfio que você esqueceu de fazer uma coisinha, Levi.
Adrian Blackblood era conhecido por duas coisas: por seu sobrenome e por não gastar palavras. Segundo Elena, ele sempre foi assim, mesmo antes de perder a memória. Pensava, agia e então avisava. As pessoas o consideravam particularmente imprevisível, mas para sua própria esposa, ele era um máximo, que era o que importava no final das contas. Todo mundo pareceu muito interessado no que ele diria e de fato foi uma especulação deveras esclarecedora:
-Você não pediu a Ginger em casamento, né?
-Hã?
Foi um som em coral. Levi se viu entre os olhares julgadores de seu pai e de sua avó. Seu avô apenas voltou a beber chá, como se aquela bomba não fosse com ele. E não era mesmo. Afinal, Adrian pediu a mulher dele em casamento adequadamente duas vezes e nas duas vezes ela aceitou ficar com ele. O único arrependimento de Adrian Blackblood sobre suas propostas era não ter a memória da primeira.
-Você não perguntou se ela queria casar com você?
Éden questionou Levi levantando da cadeira com todo o ímpeto. O que passava na cabeça daquele moleque?! Ele não perguntou se a mulher queria casar com ele… Levi olhou para seus antepassados também surpreso. Pedi? Pedi? Ele precisava pedir Ginger em casamento? Eles não tinham combinado tudo? Não era um casamento por conveniência? Pedir a mão dela não era apenas uma burocracia?!
Claro que Levi não guardaria para si todas essas indignantes questões. Ele as externou com muito afinco:
-Precisa?! Está tudo combinado! Não é suposto que nós vamos casar eu pedindo ou não pra casar com ela?! Mais do que isso, eu querendo ou não!
-Iam… Ela terminou com você. E se fosse minha filha, eu a apoiaria.
Corrigiu Elena, lembrando que Ginger terminou com Levi, enquanto Éden processava a informação do que o seu filho não fez. O que ele estava fazendo mesmo enquanto Levi não aprendia o básico das convenções sociais? Matando zumbis, provavelmente. Tudo bem que em sua família não acontecia um noivado há cinco anos e que Levi não viu Abraham pedindo Beverly em casamento porquê seu irmão escolheu fazer uma proposta intimista e particular. Éden se revestiu de paciência e então explicou calmamente ao seu filho toda a lógica do porquê pedir a mão da sua noiva, mesmo que de um casamento de conveniência, era a coisa certa:
-Mesmo por formalidade, mesmo que tivesse tudo acertado, você tinha que ter perguntado se ela quer casar com você! As pessoas gostam de sentir que sua opinião importa, que suas escolhas importam. Como você começa um casamento sozinho? Nem faz sentido isso.
-Então eu faço o que agora?
-Você têm dois caminhos: desistência ou humilhação.

Comentários
Postar um comentário