Capítulo Vinte e Três – Farol.
Depois de comerem, Ginger levou Levi ao canto que ela chamava de ateliê. Possivelmente era um vestíbulo, o que fazia com que a situação encontrasse a conveniência e a ironia.
Ginger estava muito feliz em mostrar sua máquina de costura e principalmente de terem saído daquele clima sufocante da sala de estar. Ela era menos resistente a tensões do que gostaria de admitir e a cada momento que estavam na mesa sentia o medo de uma nova discussão surgir. Ginger sentia-se dividida entre o júbilo da presença de Levi e a tristeza da recepção hostil de sua família. Aquilo a fez muito mal e seu apetite morreu. Estava um pouco enjoada e com toda a certeza chorosa. A confusão era o principal ingrediente de seus sentimentos naquele momento. Quando seu pai afirmou que Levi ainda não sabia se queria casar com ela, Ginger teve que admitir que temeu por uma confirmação negativa da parte dele. Não sabia se era pela própria rejeição, ou por preocupação por seu futuro, mas seu peito doeu.
-Sua família é assim com todo mundo, ou é só comigo?
Levi a perguntou enquanto andava pelo vestíbulo, vendo todo aquele caos organizado. Eram rolos e mais rolos de tecido, misturados com fitas, rendas e tesouras, todos em volta de uma máquina de ferro. A máquina em si era pequena, mas tinham muitos apetrechos e estava encaixada em um caixa de madeira jacarandá, sobre pés de ferro que parecia ter um pedal. Uma correia de borracha conectava a engrenagem da máquina ao pedal.
Ginger segurou seu ponta agulhas e perguntou de volta, engolindo em seco:
-Assim como?
-Ariscos. Ou seria protetores?! Eles foram assim com seus outros pretendes? E com os de suas irmãs?
Continuou Levi, parando de passear pelo ateliê e parando perto de um manequim. Ginger era uma filha mimada, pelo que ele viu. Não era um problema para Levi, exceto pela sensação de que ela não era apenas mimada, mas também super protegida. Ginger era inegavelmente bonita, não fazia sentido não ter nenhum pretendente atrás dela, exceto se sua família tivesse os espantado. As próprias irmãs dela assumiram uma postura de proteção ao seu redor. Eles eram preocupados e exigentes.
-Eu tenho umas questões, como você já sabe. Minha família tem medo que eu seja maltratada, e já fui rejeitada antes.
-Não parece ser seu jeito a única motivação aqui.
Ginger começou a sentisse agoniada com a insistência de Levi sobre o protecionismo de sua família. Ele não sabia o motivo? Não contaram para ele? Era um assunto antigo e o próprio Éden sabia. Ela levantou os olhos, o observando de braços cruzados e a expressão firme. Levi era forte, mas ele ainda a aceitaria sabendo que ela era um Farol? Ele parecia já ter dificuldades de decidir sobre o casamento sem saber desse fato. E existia o risco dele desistir ao saber… Mas seria pior se ela não contasse agora e ele descobrisse depois de casados, por conta própria. Ginger não queria enganá-lo. Com a sensação de estar entalando, ela perguntou:
-Seu pai te contou que eu posso atrair os mortos, Levi?
-É o que?
Levi tinha ouvido o que Ginger disse, apesar de sua voz ter soado mais como uma miado do que como uma pergunta mesmo. Mas mesmo assim, ele duvidou de seus ouvidos. Ela era um “Farol” e seu pai sabia? E não teve o trabalho de contar para ele… Uma informação importante dessa.
Ginger enrolou seus dedos em uma das ondas de seu cabelo, assim como ela fazia com a fita métrica. Sua alma parecia querer implodir, mas algumas coisas precisavam ser ditas. A pele dela parecia ter perdido toda a cor quando ela perguntou:
-Quer um tempo pra pensar?
-Você contou isso para todos os seus pretendentes, Ginger?
Questionou Levi, tentando conter todo o tipo de frustração prestes a estourar e piorar essa bagunça. Como um casamento arranjado por causa de uma barreira se transformou nisso?! Aquele certamente não era o dia dele sair de casa. Ele queria ficar muito bravo e com alguém, mas não conseguia ficar com a cara pálida na sua frente. Era para Éden ter contado pra ele. Como deixaram passar essa informação? Ele não tinha nem feito as manutenções dos muros de sua casa e queriam lhe casar com um Farol? E para piorar, não tinha como Levi dar para trás nesse noivado. Não fale dos sentimentos da Ginger, na linha de frente, a presença dela destruiria o exército. Só isso. Levi realmente queria saber como seu pai ia resolver esse perrengue se ele não tivesse aceitado casar? Porque não tinha como deixar que ela fosse recrutada e os Faróis eram um tabu em One Hall. Era imprescindível que esse fato fosse guardado em segredo absoluto. O problema não era com os Blackblood, não era com Ginger, era com todo o resto. One Hall lavaria a cidade com sangue de inocentes pela própria sobrevivência, pela própria conveniência.
-Não, só pra você e para o primeiro, mas como ele reagiu muito mal, eu não conto mais para estranhos. Eu achei que seu pai tinha te contado...
Levi não replicou Ginger, ele só olhou para ela. Mesmo sabendo que aquilo não importava pessoalmente para ele, que estava a vida inteira enfrentando hordas e mais hordas, Ginger mulher só podia estar maluca de contar isso sem que eles estivessem no mínimo casados e com uns três filhos… Pior, ela contou para um outro qualquer aí, colocando sua vida em risco. Era o tipo de coisa que não contava nem para seus parentes. Levi já tinha ouvido relatos horríveis sobre Farois, sobre como eles eram mortos só por existir, por que sua existência era inconveniente. Ela era muito ingênua? O que era aquilo?!
O silêncio entre eles fez com que Ginger engolisse em seco.
-Se você não quiser casar comigo, eu vou entender. Eu não casaria comigo!
-Você sabe que não pode, de modo algum, ir para o exército, não é?
Perguntou Levi, mudando de assunto. Sua consciência não o permitiria não casar com Ginger, tinha um pouco mais do que sua felicidade em jogo ali e qualquer coisa eles apenas viveriam um casamento de fachada e pronto. Uma perspectiva bastante infeliz, mas nem tanto. Ele já sangrava por aquela cidade a bastante tempo e continuaria por mais tempo. Casar não era um sacrifício tão grande assim, Ginger estaria segura perto dele, assim como a vizinhança. E o exército. E as muralhas. E a fronteira. Para Levi, seu recuo foi destruído, só restava suspirar e avançar.
-Sim, eu vou acabar morrendo.
-Se você for, todo o plano de expansão vai para o confim dos infernos e não só isso como corremos o risco de perder milhares de soldados. Milhares. E não temos tantos assim.
A explicação de Levi fez com que Ginger piscasse e concordasse. Morrer não era seu estilo. Morrer e levar um monte de gente com ela definitivamente não era seu estilo. E sinceramente, ela nunca tinha pensado sobre isso. Sua morte era certa se saísse das muralhas, mas Ginger não lembrou que as pessoas que se alistarem com ela, ou que estavam fora da muralha compartilhariam do mesmo destino. A expansão era um conceito conhecido e relevante ali. Pessoas precisavam de comida e as terras dentro de One Hall já logo se esgotariam.
-Vou ficar quietinha em casa...
-E não fale para mais ninguém sobre ser um Farol, ouviu?!
-Sim, contei só pra você.
-Não Ginger, é sério, se descobrem que você atrai zumbis, corre o risco de te matarem. As pessoas não se importam se não é sua culpa, elas veem o problema e vão fazer o que for preciso para resolvê-lo, nem que isso signifique assassinar um inocente. Ou centenas deles.
-Eu sei... Meus me falaram, mas eu já tinha contado para o Daniel, o ex-pretendente.
-E como seus pais o resolveu?
-Não sei, fiquei chateada, não perguntei.
A resposta de Ginger fez com que Levi suspirasse. O protecionismo dos Garden não era sem motivo, aquela mulher não tinha um teco de autopreservação. E pela expressão dela, se quer tinha passado na sua cabeça que os mortos não eram o único perigo que um Farol enfrentava na vida. Há um motivo pelo qual não poucos chegavam à vida adulta e os mortos tinham pouco a ver com isso.
Preocupado, Levi saiu do ateliê em busca dos pais de Ginger. Ela continuou sentadinha na poltrona, querendo se afundar ali e sumir. Dali ela conseguiu ouvir Levi perguntando aos seus pais o que foi resolvido sobre Daniel. E resposta deles. Ginger sentia sua energia derretendo, como se ela nunca tivesse tido. Era um cansaço de alma, um silêncio de mente e o coração pesando no peito. Ela realmente dava muito trabalho.
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-Então, quando o senhor ia me contar que Ginger é um Farol?
Levi não deu tempo de seu pai o cumprimentar, entrando no escritório já questionando.
Éden estava entulhado atrás dos relatórios, decretos e todo o tipo de burocracia chata e repetitiva que recheava seus dias. Seu humor também estava azedo, mas não a ponto de ceder a injustiça de ignorar de onde vinha a injúria nos sentimentos de seu filho. Com um suspiro, ele respondeu:
-Não era meu segredo.
Levi se largou na poltrona em frente a escrivaninha e cruzou os braços com insatisfação. O rosto cansado do seu pai estava emoldurado por aquelas pilhas de papeis e manuais. “Não era meu segredo” e “nunca” poderiam ser considerados sinônimos a partir daquele momento. Éden não pretendia contar que Ginger era um Farol. E Levi não tinha uma resposta para o amargo sabor da ambiguidade que apareceu em sua garganta. Guardar um segredo era justo, mas não contar esse segredo quando envolvia seu filho, não era nada justo.
-E eu também queria mantê-lo com a liberdade de escolher se casar ou não.
-Com a Ginger?! Que pode morrer pra qualquer morto que apareça na frente dela? Eu não sou tão insensível e ela não é odiosa. Sabe que eu não conseguiria fechar os olhos para alguém com risco de morte iminente.
-Sim, sim, fui eu que te criei.
Levi só encarou seu pai se congratular, com o mesmo tom que a sua avó paterna, sobre os êxitos de sua boa educação. Será que ter 400 anos fazia com que os Imortais perdessem o senso de urgência ou de situação? Possivelmente. Levi não estava nem um pouco feliz com seu sacrifício auto-imposto e isso não tinha nada a ver com Ginger particularmente. Se ela fosse uma garota desagradavél, ele não estaria em maus lençois? Em quase literais maus lençois.
-E se ela fosse desagradavél? Eu estaria condenado pelo resto da minha vida?
-Não, porque eu tenho um plano para resolver a questão de Ginger sem uma carnificina.
-E imagino que pretenda me contar agora.
-Sim, convidei Cinnamon Scarlet para passar um tempo aqui e ele aceitou.
O sorriso de Éden ao dar essa informação, levantando um envelope vermelho entre os dedos parecia com o de uma criança. Levi tinha herdado as covinhas dele, mas estava pouco disposto a mostrá-las ali ou em qualquer outro lugar. Peony chamava aquilo de desperdício. Olhando o filho mais emburrado do que um velho rabugento, Éden questionou:
-Você não sabe quem é Cinnamon?
-Imagino que pelo nome de tempero deve ser parente de Ginger. O avô dela, mais especificamente.
-Sim, de fato, mas dizer isso nesse tom é um pouco amargo.
-Você poderia ter me chamado de Clove, aí eu combinaria melhor com a família.
-Vamos deixar os temperos e especiarias de lado, eu estou tentando contar meu plano aqui! Você quer saber ainda ou prefere ser pego de surpresa?
Éden ignorou o sarcasmo do filho. Ele estava de bom humor, mas tentado a desistir de contar seu plano na próxima provocação. Ouvindo a ameaça de ser deixado de novo no escuro, Levi tornou-se mais disposto a calar a boca e foi o que ele fez, esperando seu pai contar o grande plano que o salvaria da preocupação eterna de estar casado com um farol.

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