Capítulo Dez – Meu noivo quase me matou, é verdade esse recado.

 

A cidade inteira mudou seus planos ao ouvir os sinos soarem e entrou em estado de emergência. As lojas fechavam, pessoas entravam em suas casas, a rua se esvaziava e barricadas eram encaixadas nas janelas e vidros dos andares térreos. Era possível ouvir o som das balistas atirando e dos executores gritando ordens uns para os outros. Eles não sairiam enquanto existissem flechas e balas de canhão, mandar Executores e soldados comuns era a última opção. Executores finalizavam os mortos de um em um e mandá-los enfrentar uma horda era ineficiente e perigoso, diferente dos Exterminadores, que finalizavam centenas e até milhares de zumbis. As muralhas e os grandes prédios de One Hall eram equipados com balistas também no térreo. Alguns prédios da cidade tinham sua porta de entrada no primeiro andar, com o térreo funcionando como um porão alto.

Toda a cidade era preparada para uma enorme horda interna. Com grades nas janelas e portas de andares baixos, muros altos e armamento as mãos. A cidade vibrava em uma cacofonia de alerta e desespero.

Levi correu em direção ao que a multidão fugia.

Esse era o dever de um Exterminador. Enfrentar o que os outros não podiam.

Não demorou muito para que ele fosse atingido por um odor muito desagradável, de sangue oxidado e mais. Os grunhidos enchiam seus ouvidos, assim como os pedidos de ajuda e gritos de horror. Aquela cena era o auge da Maldição da Terra dos Mortos. Morte, desespero e horror. Os descendentes do Punidos viam e viviam o que seus antepassados causaram.

Ao se aproximar da origem da confusão, Levi sentiu sua emoção desligarem. Ele desmontou do cavalo e mesmo vendo uma das cenas mais horríveis que uma pessoa poderia vislumbrar, ele não sentiu nada, nem medo, nem nojo ou pena. Os sons horríveis que saiam dali não o perturbou. Ele se quer teve medo de sofrer um destino parecido com aquele que aquela pessoa agonizava.

Levi apenas sabia que sua função naquele momento era desfazê-la.

Desembainhando a espada, Levi começou a cumprir sua função.

Ele cortou, perfurou e o fez novamente, dezenas e centenas de vezes, até que o fio de sua espada cegasse e uma sensação pegajosa cobrisse o seu corpo. Quem o visse corria de medo, o corpo de Levi estava coberto de sangue, a tal ponto que nem os mortos conseguia reconhece-lo como um vivo. Por onde ele passava um rastro de corpos o seguiam como sua sombra.

Levi matou zumbis, seguindo até onde o rastro de desespero era maior. Os instintos de Levi não desligaram nenhum instante, nem quando ele entrou em um bosque no meio de One Hall. Um bosque que não existia ali antes.

Caminhando por aquele bosque, Levi finalizou outras centenas de zumbis. Alguns deles estavam meio transformados em arvores, com pernas ou braços em uma mistura retorcida e macabra de troncos, galhos e até folhas. O ritmo de Levi diminuiu ao encontrar esses mortos imobilizados. Ele os finalizou um a um. Até chegar no centro do bosque, de onde uma imensa árvore emergia. Seu tronco tinha um formato estranho, era mais largo perto das raízes, anormalmente mais largo, de onde surgia, como se tivesse sido esculpida, centenas de mãos erguidas como se tentasse alcançar algo ou alguém.

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Ginger ficou encolhida por um longo tempo no topo de uma enorme árvore. Sua irmã Beverly a colocou ali depois de puxá-la para longe da horda que se formou no refeitório. Elas não sabiam como, mas a horda se tornou impossível de ser contida muito rapidamente, como se todo o quarteirão tivesse sofrido uma zumbificação espontânea no mesmo momento. Beverly não conseguia lidar com os zumbis que estavam dentro do hotel rápido o suficiente para evitar que alguns escapassem ou para impedir que os zumbis externos atacassem outras pessoas. No final, aquele não era um trabalho possível para uma pessoa só.

Beverly a puxou para o meio da rua, onde agrupou os mortos que as atacaram em uma enorme árvore e colocou Ginger no topo, no ponto mais alto. Como um farol, Ginger atraia zumbis. E Beverly transformava cada um deles em uma árvore. Foi assim que o bosque surgiu. E com o bosque, Beverly perdeu a visibilidade, o que resultou nos mortos chegando aos pés da árvore em que elas estavam e tentarem escalar. A árvore agora tinha um formato estranho, mas o perímetro estava seguro.

Depois de mandar sua irmã continuar na árvore, Beverly desceu para finalizar alguns zumbis meio transformados no perímetro. E Ginger ficou lá, em cima da árvore, encolhida, aterrorizada de mais para descer e tentando não desmaiar. Não seria uma morte certa desmaiar ali, mas certamente aumentaria o trabalho da Bev e Ginger sentia culpa de ser tão inútil. Uma pessoa normal pelo menos tentaria fugir. Aqueles que paralisavam em um ataque zumbi já estavam mortos há muito tempo.

Era possível ouvir as sirenes tocando por toda a cidade e Ginger mordeu os lábios, irritada com o barulho e com o fato que, diferente da maioria, ela sempre via os zumbis antes de ouvir as sirenes.

O tempo passava lentamente encima daquela árvore. Ginger esticou as pernas, que começavam a ficar dormentes.

Ela conseguia ouvir os grunhidos dos zumbis abaixo. Seus ouvidos sempre foram excepcionais e os pássaros não tinham descoberto o bosque ainda. O mundo estava muito silencioso, exceto pelo som da sirene. Ela não desceu. Ficou ali encolhida, ignorando o frio que sentia e tentando ignorar o odor ferroso que subia discretamente por entre o cheiro fresco das folhas. Ginger arrancou uma das folhas e aspirou. Essas árvores que Beverly produzia tinha um frescor, mas nenhum outro cheiro característico, como as árvores que cresciam de sementes. Uma folha de laranjeira teria um cheiro levemente cítrico, lembrando uma laranja, mas aquelas árvores formadas de zumbis não tinham cheiro de nada. Pelo menos não cheiravam a cadáveres, Ginger pensou, ainda cheirando a folhinha. O odor de sangue oxigenando começou a tomar conta da área, deixando-a um pouco nauseada. Os grunhidos dos zumbis pareciam cada vez menores, e ela teve a impressão de ouvir alguns galhos quebrando. Cada vez que um galho quebrava, um zumbi silenciava. Ginger parou para prestar atenção. Ela ouvia passos, mas não grunhidos. Eram passos muito confiantes, se fosse perguntar a opinião dela. Passos de uma pessoa viva.

Possivelmente era um soldado ou um Executor.

Considerando que um vivo chegou até ali, Ginger considerou que a situação naquela região estava controlada. Sua irmã, uma Exterminadora, tinha saído há algum tempo. Tomando coragem, Ginger começou a descer a árvore, olhando para todos os lados, averiguando se teria zumbis próximos a ela. Parecia limpo. Estava um pouco escuro, mas não tinham grunhidos próximos. Ela ignorou o formato estranho na base da árvore. Saber que aquelas mãos estavam tentando agarra-la lhe dava um frio no estomago.

Antes de colocar os pés no chão olhou novamente ao redor.

Sem nenhum morto. Sem nenhum vivo também.

Ginger caminhou silenciosamente de volta para o hotel, ignorando o tremor em seu coração e o pensamento de que cautela era inútil em seu caso. De vez em quando ela olhava para suas costas, torcendo para que nenhum morto-vivo a visse.

Até que ela chegou numa clareira. Suas pernas falharam de horror. Corpo se estendiam por toda clareira até uma figura ensanguentada, empurrando um zumbi recém finalizado.

Ginger tremeu quando aquela figura olhou em sua direção. Era um homem alto e musculoso. Sua camisa estava rasgada em algumas partes e Ginger ficou confusa se aquilo eram suas triplas ou se era o tecido que pendia dela. Os olhos eram vermelhos e respingos de sangue cobriam se rosto. Seu cabelo pingava sangue. O olhar dele parecia focar em seu rosto e Ginger sentiu o sangue sumir de seu dele. Seu ouvido encheu-se do som de seu coração. Ginger viu, aterrorizada, enquanto o sangue ao seu redor flutuava em direção a mão dele, tomando a forma de uma lança vermelho quase preto. Ele segurou a lança e lançou em direção a Ginger.


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