Capítulo Doze – Vou de lilás!

 Ginger passou mais uma semana em quarentena.

Melhor, a cidade passou por uma semana de quarentena. Tudo parou, os comércios, negócios, construções e instituições. Os policiais, guardas, sombras, executores e exterminadores, assim como o departamento de limpeza e a guilda dos coveiros, eram aqueles que tinham permissão para circular pela cidade. Com isso, Soul e Beverly saiam cedo e voltavam tarde.

Ginger, que acompanhava seus pais, sentia-se pouco à vontade para fazer qualquer coisa. Ela sentia uma exaustão mental tremenda. Um cansaço que parecia da alma. Lá para o dia quatro, depois de ter explorado toda a casa de visitas do palácio, visto uma quadros bonitos e umas esculturas clássicas ela começou a demostrar sinais de animação novamente.

A casa onde eles estavam no palácio era muito bonita, cheio de janelas, com um lindo jardim. Era um palacete para visitas, dividido em suas partes. Os Garden ficaram em uma ala e na outra estava hospedado um casal. De vez em quando Ginger os via passeando no jardim pela janela. O homem era um Imortal, mas a mulher não.

De qualquer forma, quando Ginger se animou o suficiente, ela conferiu os arredores do jardim. Eles eram murados, seu muro meio grade de ferro, meio alvenaria. Acenando com a cabeça, Ginger voltou para seu quarto e pegou um livro de romance água com açúcar de dar dor no dente, um bastidor de bordado maior do que sua cara, escolheu algumas cores de meada de bordado de algodão, alguns pedaços de tecido macio e um porta agulhas com formato de porco-espinho, do qual ela tinha guardado em uma caixa de madeira para garantir que as agulhas não se perderiam no meio do caminho. Ginger colocou todas essas coisas em uma cesta e por fim pegou um guarda sol de papel encerado. Saiu de volta ao jardim. Perto de um lago, Ginger abriu o guarda sol acima de uma das espreguiçadeiras, afinal, ela não gostava muito de sol. Sua pele era sensível e a sensação do sol sobre ela era desagradável, com um ardor que ela não suportava.

Sentou-se e colocando a cesta no chão, ginger pegou o bastidor de madeira, os tecidos, as meadas e a caixa que guardava o porco-espinho de agulhas. Depois de encaixar o tecido no bastidor, ela olhou para aquele tecido em branco e suspirou. Iria bordar o que mesmo? Olhou ao redor. Um lindo jardim. Resolveu começar com alguns espirais e arabescos verdes. Depois faria florezinhas e folhinhas. Afinal, ela estava bordando a mão livre, não precisava fazer nada tão complexo.

Mesmo quando sentiu fome e pensou em parar, prometeu a si mesma que seria só mais um ponto. Ginger se entreteve em sua atividade por um tempo indeterminado, apenas parou depois que sentiu sua cabeça pesada e cansada.

Sua rotina continuou assim até o fim de semana. O bordado ficou completo. Ela estava satisfeita, mas não sabia o que faria com aquilo. Talvez ela o entregasse para Beverly. Apesar de que Bev não aceitaria, o “casamento” de Ginger estava muito próximo, se ela gostasse do noivo. O enxoval de Ginger já estava todo bordado então ela insistiria para Bev aceitar. Ou então daria a Soul. Soul não tinha tempo para bordar o seu próprio enxoval, ela sempre estava fora das muralhas a trabalho.

Quando se sentiu satisfeita com o passeio, Ginger voltou para a casa.

Seus pais estavam conversando na clareira e Ginger sentou-se ali, apenas ouvindo-os. Ela não estava muito sociável e estava pouco disposta a entrar na conversa. Depois de um tempo, seu pai Isaac mudou de assunto:

-Ginger, amanhã vamos jantar com os Blackblood.

Ginger acenou com a cabeça em resposta. Ela gostaria que tivessem avisado antes, afinal, queria se preparar emocionalmente, mas tinha quase um dia para se regular emocionalmente. Não sabia como deveria agir? Animada? Com medo? Calma? Quer dizer, o que ela deveria esperar? De qualquer modo, eles já tinham chegado a One Hall a mais de uma semana, já tinha passado o tempo de Ginger conhecer seu famigerado noivo.

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-Vocês acham que eu deveria usar rosa bebê ou branco?

Perguntou Ginger para suas irmãs, olhando para os vestidos recém resgatados estendidos em sua cama. Sua mala só voltou para casa depois de garantirem que a área do hotel estava limpa. Ginger passou a semana usando as roupas de suas irmãs e sentiu-se uma visionaria por ter colocado alguns saches de cheiro na mala.

-Qualquer uma serve.

Respondeu Soul. Ginger fez beicinho para ela, enquanto Beverly analisava os vestidos.

Nenhuma das três irmãs pareciam muito afetadas pelos acontecimentos de uma semana antes. Na verdade, em toda a Terra dos Mortos, a morte era tão próxima e familiar que não havia lamentação se quem falecesse não fosse próximo. Ninguém lamentava estranhos. As pessoas se apegavam a aproveitar enquanto não era hora delas. O luto era pessoal e todos sentiriam o amargor dele no seu devido tempo, não havia o porquê de antecipa-lo por alguém que não conhecia. Era assim que funcionava naquele lugar.

Algumas famílias enterravam os seus, outras se preocupavam com o casamento de seus filhos. Claro, não havia zombarias sendo ditas aqueles que perdiam seus familiares, mas One Hall se recusava a humanizar os mortos que andavam por suas ruas. Era uma questão de sobrevivência. Um morto era um morto, nunca teria prioridade sobre os vivos.

-Acho que você fica linda em qualquer coisa, então só escolha seu preferido.

Comentou Beverly, cruzando os braços. Ginger era muito bonita e geralmente escolhia cores que lhe caiam bem.  Ela ficaria bem com qualquer um dos vestidos escolhidos.

-Eu gosto dos dois igualmente.

Ginger replicou, ainda com um beicinho, olhando para os vestidos. Era seus melhores vestidos. Sua avó materna mandava rolos de tecidos com cores delicadas e vibrantes sempre que comerciantes do Império Scarlet vinham a Terra dos Mortos. Os Garden ficavam com alguns dos rolos e vendiam o restante para outros nobres, afinal, eles não poderiam usar seda, organza e veludo cotidianamente e se transformassem todos em vestes teriam mais roupas do que lugares para usa-los.

-Usa o rosa, você vai querer se casar de branco, né?

Argumentou Soul, com um suspiro cansado. Soul desconfiava que esse jantar poderia ser decepcionante e estava na duvida se contava para sua irmã sobre quem era o noivo ou não. Ginger estava muito quieta sobre o homem que a salvou, ela não comentou nada sobre tentar encontra-lo para agradecer. Isso era um mal sinal.

-É verdade! Contudo, meu vestido de noiva não é parecido com esse. As flores dele são brancas.

Disse Ginger, complicando sua situação. O vestido branco tinha flores coloridas e ela gostava de como parecia que estava carregando um campo de flores nas saias. Sem paciência, Soul retrucou:

-Usa vermelho então, seu noivo gosta de vermelho.

-Como você sabe?

Questionou Ginger, encarando sua irmã com as sobrancelhas franzidas. Soul não conhecia seu noivo, como ela poderia saber ou imaginar isso? Beverly também deu um olhar estranho para sua irmã, que pareceu um pouco encabulada. Beverly logo desmente a pré-noção de Soul, abanando as mãos:

-Não, ele acha muito vampiresco para o gosto dele. Seu cunhado gosta de vermelho, acho que seu noivo gosta de preto. Mais do que o meu, inclusive.

-Vou de lilás!

Decide Ginger, de repente. Ela praticamente correu para a mala e a arrastou para perto da cama onde se empreendeu a procurar o tal vestido lilás. Soul e Beverly se olham um pouco exasperadas. E Beverly cautelosamente pergunta:

-Quero perguntar sua lógica?!

-Lilás vai bem com preto.

Respondeu Ginger, ainda procurando o tal vestido. Soul pisca, incrédula. Ginger parecia muito empolgada. Perigosamente empolgada. Soul cruza os braços ao questionar:

-Você nem se conhecem e já está planejando combinação?

-Rosa é a cor dos olhos dele.

Comentou Beverly, ignorando a estranheza de sua irmã. Quer dizer, Ginger gostava de combinar coisas, não seria surpresa se ela quisesse combinar roupas com o futuro noivo. Na verdade, Beverly conseguia imaginar Levi passando o resto da vida sem opinar seu próprio guarda-roupa. Sua irmã não ficava bem de preto. E ela era muito insistente em rejeitar o que não a deixava bem.

Ginger, para de procurar o vestido na mala e olha para o vestido rosa na cama. Lembrando-se do homem ensanguentado de olhos cor de rosa, de repente ela sentiu um rancor irracional pelo vestido rosa. Na verdade, por toda coisa rosa, pelo menos por enquanto. O homem quase a empalou! Ela tinha o direito de ficar tão chateada quanto a grata. Ginger estava dividida entre os dois sentimentos, rancor e gratidão. Muito seriamente Ginger decidiu:

-Também é a cor dos olhos daquele homem que quase me atingiu com uma lança... Vou de lilás. 


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