Capítulo 1 - ANGEL

A semana está muito calma. Irritantemente calma. Como um dia quente antecedendo uma chuva forte. Não briguei com ninguém, não discuti com a Caryn, minha gêmea mais nova, nem a Beverly teve crises de enxaqueca, nenhuma das meninas desfalcaram no treino e o cachorro do vizinho não cagou no nosso gramado nenhuma vez a semana inteira. Está tudo tão calmo e normal que estou com medo.

Então quando o primeiro sinal de normalidade aconteceu, eu fiquei aliviada por um instante. Um pouco culpada também, mas o sinal do destino de que o teto não desabaria sobre nossas cabeças foi um gemido de dor e eu preferia ter pisado no coco do cachorro.

Minha irmã Beverly tem enxaquecas fortíssimas desde os quinze anos. Levamos a ao medico, mas não era nada. Estava completamente saudável, como sempre foi, exceto por essas malditas enxaquecas e uma misteriosa amnésia que cortou as memórias de meio ano cirurgicamente.

São quatro da manhã, e só escutei por que dormi mal a semana inteira de tanta ansiedade. Levanto da cama, o chão ainda frio, Caryn dormindo como uma pedra, mamãe trabalhando. Beverly estava encolhida na cama empapada de suor, o cabelo ruivo parecendo um ninho de rato, com os olhos espremidos e as mãos na cabeça. Vou à cozinha e pego o remédio para enxaqueca.

-Ei!

Sussurro para não assustá-la, colocando um copo com água em cima da mesinha de cabeceira. Ligo o abajur.

-Trouxe um remédio.

Minha irmã balança a cabeça concordando. Ela levanta a cabeça, os olhos azuis muito úmidos e toma o remédio.

Hoje começa as provas finais, isso deve tê-la estressado.  Ser boa aluna não é exatamente a coisa mais fácil do mundo, mas a Beverly conseguia. Ela queria entrar para a Universidade St. Frederich Wosterford, cursar Artes Visuais, e está é uma daquelas universidades em que pessoas com notas normais, ou abaixo do normal, e sem dinheiro não estudam. A Beverly vai ter que fechar esse ano com dez em todas as matérias e depois consegui uma bolsa integral. Acho que a pressão para a vida adulta está chegando para nós. Caryn quer cursar direito na Arthur Chamoer e eu simplesmente não sei o que quero fazer.

Fico perto da Beverly até que ela adormecesse novamente. Já era cinco e meia e ainda estava escuro. Chovia horrores. Merda! Moramos em uma região mais afastada da cidade: A Vila. Aqui tem uma quantidade de casas grande e longe o suficiente do centro para ser chamado de vila, mas não de cidade. Poderia ser chamado de bairro, mas considerando que estamos mais próximos da floresta do que da cidade, as pessoas acharam mais atraente chamar a Vila. A Vila de Destiny City, com um imenso lago no meio e que ninguém se importa em calçar a rua! Parece que dar um ar de vila pacata e romântica. Sim, aparentemente é muito romântico ficar com lama até os joelhos.

Deixo a chuva e seus problemas limpar a janela do meu quarto e desço para a cozinha. A casa estava toda escura. Coloco um casaco. As manhãs sempre são frias por aqui, com direito a neblinas e nuvens pesadas. Coloco a água do café no fogo e o leite para cozinhar. Vejo o carro vermelho da minha mãe pela janela da cozinha quando o despertador toca ao mesmo tempo em que a vida ganhava o primeiro tom de azul do dia. Minha mãe é residente no Hospital Central. Ela sempre sonhou em ser medica, mas teve que adiar seus planos para nos criar.  Só pode começar a estudar medicina depois que fez as pazes com meus avôs e consegui uma bolsa integral. Eles morreram há dois e quatro anos, respectivamente, mas deu tempo para minha mãe entrar na faculdade de medicina e começar a fazer residência. De qualquer maneira, toda vez que ela chega de um turno já de manhã, está com a mesma cara acabada, envelhecida pelo menos uns dez anos, o cabelo em um coque desgrenhado e a expressão desanimada. 

Ela entra em casa, joga as chaves em cima da mesa e suspira. Olha em minha direção e sorrir lentamente:

-Bom dia.

-Tem café! Quer?

- Claro.

Aceita, sentando em bancada americana de pedra vermelha. Coloco uma caneca na sua frente e lhe sirvo o café, fazendo o vapor e o cheiro tomar o ambiente. Não temos uma casa grande, mas ela é nossa. É um lar!

-Já de pé? Sempre foi a ultima a levantar!

-A Beverly teve enxaqueca.

-Estão mais comuns.

-Sim, estão.

-E vocês?

-O que?

-Sentem alguma coisa estranha? Pesadelos formigamentos?

-Não. Por quê? Deveríamos ter?

-Seu pai não tem os melhores genes do mundo.

-Não tenho nada dele a não ser o cabelo branco!

Digo um pouco ríspida. Minha mãe bebe um gole do café. Meu pai não é um dos meus assuntos preferidos. Não gosto de falar dele. Ele nos abandonou quando muito pequenas. Eu não lembro como ele é, nunca vi uma foto, ou ouvi sua voz. Quando era menor sonhava que ele voltaria. Sonhava que ele era um rei, e que éramos princesas, e teríamos uma casa imensa, brinquedos à vontade e que minha mãe seria tratada como uma rainha, não como a mulher que engravidou de um cara que fugiu.

-Não tem raiva dele?

Pergunto um pouco bolada. Eu sei que não é hora, mas meu primeiro impulso sempre é confrontar. É minha natureza!

-Não sempre! Ele me deu vocês e eu entendo seus motivos.

-Ele te deu três crianças e te abandonou!

-Não me abandonou Angel! Você não o conhece, e eu entendo que tenha raiva, mas ele tem bons motivos para não está presente!

-E eu não consigo imaginar o por que!

-Ele não pode estar conosco.

Sussurra como se isso fosse mudar o que eu acho disso tudo. Não mudou! Pagar ao menos as despesas escolares não é mais do que a obrigação dele! Ajudar financeiramente é o mínimo. E uma visita não mataria. Comparecer ao menos em nossos aniversários, ou nos feriados, um telefonema, seria mais do que nós temos, do que eu tenho. Eu não ligo! Não mais!

-Mãe!

Exclama Caryn descendo as escadas e abraçando nossa mãe. Tomo um gole de café puro para me acalmar. As botinas de Caryn faziam toc toc no nosso chão de madeira da nossa cozinha.

-Oi, amor, tudo bem?

-Sim! Só estou um pouco nervosa com as provas.

Deixo Caryn e minha mãe, e subo para nosso quarto.

A Beverly desenhava sentada na cama com uma das pernas para fora balançando, com tanta intensidade que provavelmente vai marcar a folha de baixo. Como é que consegue? Por que eu não consigo desenhar uma flor de quatro pétalas dignas e Beverly desenha tudo com perfeição, como uma foto. Deixo-a em paz e vou vestir o uniforme escolar. Finalmente vou me livrar dele. Só mais uma semana.

-Você está bem?

Pergunto estranhando quando ela para de desenhar e joga o lápis pro lado. Beverly encara-me um pouco irritada e balança a cabeça como quem diz esquece. A Beverly não fala nada até as dez da manhã. Comunica-se com gestos da cabeça, olhares e sorrisos até dar seu horário de pique.  Ela olha para o caderno a sua frente. Chego um pouquinho mais perto e dou uma espiada. Tinha um anjo pousando. Os músculos definidos e tensos, as asas negras levantadas saindo de suas costas largas, as ponta de seus dedos tocando o solo, a arma em sua mão. O anjo parecia que tinha ganhado uma face. Queixo quadrado, lábios carnudos e escuros, sobrancelhas grossas e tão escuras quanto os cabelos grossos e lisos como penas e um olhar tão intenso que poderia fazer corar apenas de olhar. E não era possível parar de olhar. Era um desenho perfeito de uma pessoa completamente irreal. Beverly toca em seu desenho com um tanto de fascinação. Isso tinha acabado de sair da mente dela. Impressionante. De verdade.

-Vamos, Caryn já deve ter colocado a mesa!

Digo, a tirando de sua própria mente. Beverly suspira, levanta os olhos e pisca, voltando para terra. Logo em seguida fecha o caderno de desenho e o coloca na mochila.

A escola está da mesma maneira que sempre. Caryn, eu e Beverly vamos para as nossas salas, pegar os melhores lugares que devem ter restado. Sempre chegamos atrasadas na escola. Sempre. Enquanto a Caryn cumprimenta meio mundo de gente eu fico observando uma multidão olhando para a entrada da universidade. Olhando não, se amontoando e fazendo uma algazarra como se alguém muito famoso estivesse parado ali.

Em frente a nossa imensa escola, que é em um prédio vermelho desbotado que já foi um castelo, há uma universidade. É só atravessar a rua. A Universidade na verdade era parte da escola, mas resolveram que não é saudável para as alunas ter homens feitos andando por seu pátio. E não era mesmo. A taxa de garotas imaturas para caras estúpidos é muito grande aqui. Uma vez ou outra ouvimos boatos de um pobre coração partido, um bebê com um pai estúpido e uma mãe imatura e desamparada. E minha mãe conheceu meu pai enquanto ele cursava o ultimo ano da faculdade. Fazia Administração e eles se esbarraram no pátio um dia. Ouvi uma vez uma das mulheres que estudava com a minha mãe na época que ele era o homem mais bonito que ela já tinha visto na vida. Se for, eu não quero saber. E eu fico pensando que a Educação sexual dessa escola não está fazendo muito efeito. Nunca vi tanta grávida jovem na minha vida.

Algumas colegas minhas estavam em frente à janela que dava para a rua, atrás de mim. E era no mínimo deprimente. Era muito cedo para estarem tão animadas. Ninguém deveria ter essa energia as oito da manhã. Olho para a Beverly que conseguiu convencer o Benjamim Fast, o cara mais inteligente da sala, a ceder o lugar para ela, desenhando novamente. Suas mãos estavam movendo muito rápido. A Caryn estava do meu lado fofocando sobre alguma coisa com Laura Senna.

-O que está acontecendo?

Pergunto a Drew Partty, uma ruiva de cabelo curto que estava perto de mim. Ela levanta as sobrancelhas surpresa e sorri como se fosse me contar o babado do ano. Ah, meu Deus do céu! Onde foi que eu me meti?

-Já viu os Garden?Eles chegaram à cidade ontem e são os gatos. Mais do que isso! Os hiper super gatos. Lindos de doer os olhos. E também me parecem podres de ricos. A melhor parte é que vão estudar na UPFJ.

-Garden?

-Sim, Garden!

O nome dos caras significa jardim? Fico curiosa, mas me contento em revisar para prova! Os Garden não vão fazê-la por mim!

Depois que terminamos ficamos de bobeira no pátio. Sentamos na grama molhada mesmo. Eu devoro um sanduíche com gosto, a Caryn flerta com um garoto e Beverly continua a desenhar agora mais relaxada. Chego mais perto dela e fico vendo-a fazer traços precisos e esses traços se tornarem algo quase vivo. Ela me olha por cima de seus longos cílios ruivos.

-O que foi?

Pergunto percebendo seu olhar eu estou com problemas novamente. Beverly tem uma imaginação de deixar qualquer um com inveja. Qualquer um mesmo. Aquele olhar vago era muito comum. E apesar de viver no mundo da maionese não era novidade nenhum que atrás daquele ar de quem não está na Terra tinha alguém que observava tudo.

-Sinto uma sensação esquisita.

Responde baixinho, sem suas mãos parar de desenhar loucamente. A Beverly tem algumas peculiaridades que não são encontradas em nenhum outro humano que eu conheça. Primeiro é sua intuição, quando ela diz que algo vai acontecer, é certo que vai. A segunda é sua memória. Lembra de quase tudo em sua vida. Ela já reclamou que ouve algumas vozes que nunca ouviu na vida e ficamos preocupados e tal. Isso até ela parar de dizer que estava ouvindo-as novamente. E uma vez ela disse que eu sou rabugenta desde pequena. Que ela se lembrava do meu choro. Ignoramos isso na maior parte do tempo. Afinal, ninguém tem essas memórias. Nem as pessoas com memória fotográfica. O fato de ter esse tipo de memória deixa o fato de ter perdido as memórias de três anos atrás ainda mais esquisitos.

-A ultima vez que você falou sobre sensações esquisitas perdeu a memória de um ano misteriosamente.

Resmunga Caryn sorrindo para Jack Tach. Ele era um atleta, devia ter um e oitenta. Tinha um cabelo bem estiloso. Segundo Beverly tinha um belo sorriso também. Caryn adora caras altos.

-Esta com medinho, é?

-Óbvio!

-Eu poderia ganhar dinheiro com isso, mas acho que não vou ter a oportunidade.

-Ah meu Deus! Você vai morrer?

-Não, Caryn. Acho que vamos ganhar uma bolada.

-Por que não disse antes! Aceito boladas, desde que não sejam literais.

-Ei! Vamos a uma lanchonete hoje?

-Com que dinheiro Angel?

-Ir a uma lanchonete não nós fará mais pobres, Bev. É bom relaxar depois de uma prova daquelas de matemática!

-Caryn, fica do meu lado, por favor.

-É bom quebrar a rotina.

-E sua dieta?

-Que dieta, Bev? Sou nova demais para dieta. Estou no peso ideal.

-Exatamente e agora vou comprar batatinha na lanchonete da UPFJ.

No caminho de volta para casa vemos algo peculiar acontecendo na Mansão Assombrada. Chamamos de assombrada por que não tem ninguém morando nela. Na verdade é um castelo do outro lado do lago. Tem até uma torre! A Beverly sempre quis ir lá, mas ela não está conservada. Algumas pessoas mais velhas dizem que é um lugar impressionante.

-Ei, os donos da mansão assombrada voltaram?

Pergunta Beverly olhando para em direção a mansão assombrada. Parecia que iam voltar a usá-la, ou demoli. Não sei, tanto faz mesmo. Olhei para a mansão e todas fizeram a mesma coisa. Realmente parecia que ia voltar a usá-la. Carros de mudança estavam em seu portão, pedreiros faziam reparos e jardineiros começavam a cuidar do jardim. Tinha um guindaste na porta. A distância de nossa casa e a mansão é de uns trezentos metros mais ou menos. Como nossa cerca é baixa então consigo ver tudo perfeitamente. O que me chamou atenção mesmo foi o carro azul petróleo, que estacionou em frente à mansão. Não precisa ser um gênio para saber que ele era super ultra hiper mega caro. Tipo deve custar os dois olhos e o fígado. Esse carro nem tinha sido lançado ainda. Parece que nosso novo vizinho é podre de rico.  A porta do carro se abre e sai à criatura mais esnobe e bonita que eu já vi na minha curta vida. Era alto, de maxilar quadrado, cabelo curto negro como petróleo, nariz grego, o porte era atlético, de gente que malhava ou fazia algum esporte. Poderia muito bem ser um daqueles modelos em que as meninas se juntavam para ver as fotos e babavam litros. Oh! Bom Deus não permita! Se não, se acabou a paz. Esse deve ser um dos Garden!

-A Hannah vai adorar saber disso!

Comenta Beverly casualmente. Beverly tem uma amiga que não é irmã dela: Hannah Suarez. A Beverly a adora. Algumas vezes gentil, outras com uma língua afiada como faca!

Uma BMW preta passa em alta velocidade por nós. E toma o rumo da ponte da mansão. Que violência! Estaciona perto do carro. O piloto tira o capacete, entrega a alguém que o esperava e passa a mão nos cabelos. Ele olha para Caryn. Sim. Para a Caryn. Diretamente! Como se soubesse das vizinhas espiando-os com um saudável interesse. O resto não existe. E eu juro, juro de pés juntos que ele deu uma piscadela para ela com aqueles misteriosos olhos verde azulado. E tinha uma tatuagem imensa do ombro aos bíceps. Ótimo! Era o que faltava nessa cidade: Dois "gatos" metidos. E a pior parte: Eles são nossos novos vizinhos.

 


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