Capitulo Três – Beverly
Era um vitral gótico. Uma flor. A porta de entrada para uma casa
abandonada não tão abandonada assim. Passávamos por ela toda vez que íamos a
escola. Sempre olhei! Procurando algo, não sei o que. Talvez eu só seja louca!
Só um obsessão estranha! E olhando minhas irmãs, e como elas vivem, namorando e
brigando, tenho quase certeza de que não sou minimamente normal. Não há ser humano que
faça meus olhos se agradarem. Ninguém chega ao meu coração. É como se ele
tivesse ocupado por gelo. Não há o que esquente minha pele, que faça meu
estomago revirar, que me faça ter doces sonhos de doces futuros apesar de minha
ama os desejar, minha respiração não muda. Só amo a quem amo. Minhas irmãs e
minha mãe. E tem algo de errado comigo. Quanto mais velha eu fico, mais errado
fica.
Eu estava cuidando da roseira.
Cuido de todo jardim! Minha mãe adora. Diz que eu
tenho mãos de fada! Nem sempre. Quando estou estressada fico longe do jardim!
Flores começam a morrer! Detesto quando minhas plantas morrem e acabam morrendo
mais. Não sei o que sou, mas não sou humana! Pelo menos não uma humana comum.
Nem os Garden são. Eu sentir isso quando o Cam entrou em minha casa. Meus
instintos apitaram. O cheiro dele é diferente do cheiro da minha mãe, por
exemplo. É mais forte, é dourado. O da minha mãe é vermelho.
Eu não contei para minhas irmãs que eu sei, faço e sinto
coisas. Coisas que outros humanos não fazem. Não vou contar até saber o que eu
sou! E por que elas não são iguais a mim. Minha mãe deve saber. Mães sempre
sabem de tudo! Por isso ela foi estranha com o Cam.
Sinto um formigamento!
Daqueles que sinto desde que perdi a memória dos meus
quinze anos. Fecho os olhos e respiro fundo. Toda vez que eu sinto esse
formigamento eu apareço em outro lugar. É como se eu fosse sonâmbula. Estivesse
dormindo acordada, procurando algo que eu não lembrava.
Dessa vez foi no vitral antigo. Tinha algumas partes
dele quebrado. Aproximo-me do prédio. Era alto e antigo com a tinta cinza
descascada em muitos pontos. Seu portão era velho, de madeira trabalhada e
envernizada. Tinham dois door handle antigos em forma de leões. Nunca pesquisei
sobre esse prédio. Minha mão coça para abrir a porta. E se for invasão de
propriedade particular? E se tivesse alguém perigoso?
Respiro fundo e abro. A porta range. Espio dentro. Era
um sacão vazio, em que entrava apenas a luz pelas imensas janelas laterais.
Tinha uma lareira em um canto. Entro no ambiente. Estava vazio. O chão era de
mármore. Subo a escada com cuidado! Abro a porta do andar de cima. Então vejo o
primeiro sinal de vida.
Tinha uma cama bagunçada, uma escrivaninha com uma
porção de livros em cima, um abajur branco no cão e uma harpa no meio da sala. Estava
varrido e limpo em contraste com a parte de baixo. Chego perto da harpa e toco
em uma das cordas. O som ecoa pelo ambiente. Estava afinada. Vou para a
escrivaninha. Tinha um monte de livros em cima dela. Um caderno de couro negro
me chama a atenção. O caderno tinha um brasão em alto relevo e parecia que era
algo de bronze ou ouro velho. É animal de cinco cabeças, cada cabeça com a de
uma espécie diferente. A primeira é um leão rugindo, a segunda um lobo, a
terceira uma águia, a quarta uma serpente sibilando e a última é um corvo. Era feio
e bonito ao mesmo tempo. Meio bizarro é verdade, porém tão bem feito que até
ficou bonito.
-O que você está fazendo?
Meu Deus! Que voz é essa. Um timbre grave másculo. E
ao mesmo tempo de uma suavidade, uma sensualidade... Uma pétala caindo.
Profunda, suave, arrepiante. Sensual. Espera, eu deveria está com medo já que
invadi uma propriedade. Viro-me com os calcanhares, o caderno ainda nas mãos. É
nesse momento que minha boca cai.
Era o anjo!
O anjo que vivo
desenhando na minha frente, em carne e osso, mas sem asas. Os músculos
definidos estavam escondidos embaixo de um suéter negro. O anjo parecia que
tinha ganhado uma face com cor e rubro. Queixo quadrado, lábios carnudos e
vermelhos, sobrancelhas meio élficas e tão escuras quanto os cabelos grossos e
lisos como penas, de um negro profundo como a escuridão, e olhos cor de rosa, intensos
e sedutores que automaticamente fiquei sem fala. Aquelas características eram Garden.
Ele era parecido com o Cam. Só que mais baixo e mais magro. E tinha olhos menores
e puxados, como um descendente de oriental.
Entendi imediatamente por que esconderam o Garden
caçula. Ele é o Eros na Terra! Uma deidade da beleza! Era tão obvio como o sol
de que não era humano. Imaginei os suspiros pelos lugares onde ele passava,
gente se engalfinhando, flertando... Deve ser uma loucura. O anjo empalidece
quando me vê. Oi? Ele me conhece de onde? Uma desconfiança me atinge como uma
tempestade, me deixando desnorteada.
-O que está fazendo aqui?
Pergunta, me deixando ainda mais desnorteada. Sinto
meu rosto esquentar e minha pulsação ecoando em meus ouvidos. Assim, como quem
perdeu totalmente o tato social, pergunto, não reconhecendo minha própria voz:
-De onde você me conhece?
O Garden paralisa por um instante. Consigo enxergar
pânico em seu rosto antes de responder muito rapidamente:
-Eu não te conheço.
Alguma parte dentro o meu âmago dói. Um mentiroso. Com
certeza tem a ver com o vazio de um ano a minha mente. Aos meus dezesseis, eu
acordei e tinham se passado um ano da minha vida. Há um breu durante esse
período. E o cheiro e a sensação do Garden Eros parecem fazer com que minha
mente procure automaticamente por essas memórias. E isso faz com que minha
cabeça doa como se tivessem tentando abri-la. Essa mesma dor que está começando
agora. Em frente a um suposto estranho.
-Você está bem?
Interroga arregalando os olhos vermelhos. Não sei se a
preocupação era real, porque a dor em minha cabeça era tão insuportável que eu
não queria pensar. Eu só queria ir para minha casa e me encolher em posição
fetal até essa dor passar.
-Eu vou te levar até sua casa!
-Não precisa, estou bem.
-Não esta nada bem!
-Estou bem.
Repito andando rápido para fora da casa. O Garden
segue atrás de mim. Parte de mim fica agradecida, não tenho certeza se tenho
tanta força assim para chegar a casa. O caminho não era muito longo, mas eu
realmente sinto que estou restes a ter uma crise horrível. Não lembro quando
cheguei a casa. Apenas e Angel e Caryn terem me colocado em minha blusa
favorita, me deitarem na minha cama e de tomar uma pílula para dormir de gosto
amargo.
No dia seguinte, na escola, meu abatimento era tão
claro quanto o sol no céu. Ainda mais claro, por que está nublado hoje. E vai
chover todos os dias a próxima semana.
-Que é você tem?
Pergunta Hannah mastigando um chiclete com uma as
sobrancelhas levemente levanta. Estávamos sentadas na escada da arquibancada
coberta da escola, vestidas com meias calças grossas embaixo da saia por que o
céu desabou ontem à noite. Tinha um cheiro de terra molhada e grama úmida que e
agradava. Angel e Caryn estavam se despedindo de seus respectivos times e eram
seus últimos treinos. Hannah e eu viemos presenciar como boas “rainhas do
colégio” que somos (muitos pffts para descrever o que sinto com esse “titulo”).
-Hannah, onde você estava quando tínhamos quinze?
Questiono fazendo-a arregalar os olhos surpresas e
responder com a maior cara de pau do mundo:
-Brigando com você! Por causa o meu ex-namorado
horrível em que você estava, sabiamente, nem um pouco interessada, mas na minha
cabeça estava. Que bom que não se lembra disso.
-Como eu era na época?
-Uma megera, igualzinha é hoje!
-É uma pergunta séria!
-Estou falando serio! Você não era muito diferente do
que é hoje. E por que está me perguntando isso novamente?
-Não tinha nada acontecendo na cidade naquela época?
Insisto sentindo uma pontada de irritação. Como é
possível que não tenha nenhuma pista sobre o que aconteceu para eu ter perdido
minhas memórias.
-Eu estava em um momento delicado na época. Então se
aconteceu alguma coisa eu não percebi. Ou não me importei o suficiente para
lembrar. Até por que a coisa mais chocante para a escola foi sua amnésia. Posso
perguntar para algumas meninas se quiser.
-Por favor, faça isso!
-Seu desejo é um ordem, madame.
-OK.
Digo sorrindo pela primeira vez hoje.
Em casa ao me trocar, percebo o livro que vi na casa
do Garden na minha cômoda de cabeceira. Então eu trouxe esse livro. Toco a capa
de couro rachado. O emblema antigo, perdendo o brilho. Dou uma folheada com
cuidado. Parecia um diário. Ou um guia. Um diário guia, talvez.
Eu deveria estar estudando. St. Frederich Wosterford
não é nada fácil de entrar, mesmo que seja um curso como artes visuais. Eles
são os melhores. De qualquer modo, não estou com cabeça para estudar. O Anjo
estava vagando pelos meus pensamentos. Quer dizer, ele não é um anjo, e se um
dia foi, caiu com a terça parte. Anjos não seduzem. Eles são puros e
santos. E aquele ali era capaz de seduzir uma pedra.
Pego o diário roubado e o abro. Tinha cheiro de poeira,
as bordas das paginas são amarelas. Na primeira pagina estava escrito:
“Obra
de Ítalo Garden”
Garden. Deve ser parente dos Garden que conheço, isso
se não foi o pai de um deles que escreveu.
Ítalo tinha escrito a data 1967. Vou para a próxima pagina:
“Para
minha irmãzinha Eva”
Deve ser relíquia de família. Amanhã eu devolvo, já
que deve ser importante e não é meu principalmente. Nem sei o porquê eu trouxe.
O terceiro Garden realmente me deixou desnorteada.
-Beverly o que está fazendo?
Pergunta minha mãe, trazendo um grande balde de roupa
limpa para o quarto.
-Estou lendo!
Respondo fechando o diário. Meus instintos dizem que parte
das respostas das respostas que procuro está nesse diário. Normalmente eu não
os ignoro, mas hoje optei por isso. Minhas memórias não voltarão. Quero saber
por que as perdi, mas nem isso as trarão de volta. Eu tenho certeza, da mesma
maneira que eu sei que vai chover todos os dias da próxima semana.
-Deixa esse livro aí e vem me ajudar!
Ordena jogando o balde em cima da cama da Caryn. Ela
vai pirar se não estiver tudo dobrado, separado e longe da cama dela quando ela
voltar. A cama da Angel vive bagunçada. Minha mãe nem coloca mais roupas dobradas
em cima daquela coisa que Angel chama de cama, por que minha irmã mais velha
dormia em cima de tudo. A Angel é uma bagunceira nata!
Guardo o livro e vou ajudar a minha mãe que deveria
estar descansando em sua folga, a dobrar meio mundo de roupa e a organizar.
-Meu Deus! Vocês precisam de roupas novas!
Resmunga olhando para um buraco do tamanho de um punho
em uma camisa de banda de rock da Angel. Ela adorava essa banda há dois anos,
hoje, não mais. Depois pega um vestido da Caryn e o mede com os olhos. Resmunga
um curto de mais. Ela parecia tão frustrada. Eu me lembro dela frustrada desde
que sou pequena. Ela enruga a testa e não faz contato visual. As contas sempre
a preocuparam. Três filhas e mãe solteira. Quando éramos pequenas trabalhava em
uma lanchonete e vivíamos nela, morávamos em um apartamento de três cômodos,
dormindo as quatro na mesma cama, e os vizinhos de cima faziam um barulho do
inferno. Não sei como me lembro de coisas desse tipo quando minhas irmãs só
lembram coisas periódicas. Deve ser o meu eu não humano em ação.
-Não se preocupe mãe!
Digo sorrindo e segurando a mão. Minha mãe da um
beijinho a minha mão, sorrir e sai o quarto.
-Não esquece que a Caryn vai estudar na biblioteca dos
Garden próxima segunda. E você sabe como é sua irmã e os meninos. Ela puxou a
mim nesse quesito, e se tem algo que eu não me esqueço é de quando tinha essa
idade.
-Mãe...
-Sim?
-A senhora se arrepende?
-De que?
-De nós.
-Oh! Não! É difícil, mas não me arrependo de vocês.
-Queria ser forte como a senhora.
-Apenas conhecemos nossa força quando passamos por
provações, Bev. E eu não quero que passem por provações.
-Eu queria que não tivesse passado por isso sozinha. E
tão jovem.
Digo, antes que ela saísse do quarto. Minha mãe olha
para mim e sorrir. Ela estava um pouco melancólica.

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