Capitulo Quatro - Angel

Confesso que os novos vizinhos não tiram meu sono por algum tempo, apenas pairavam na minha mente como fantasmas e sumiam, até que chegou à quinta feira.

Aparece uma mão em cima do meu livro! Olho lentamente para cima. A Beverly me olhava com raiva! Digamos que estou acabando com o momento família da minha família. Hoje é quinta e estamos no lanche da tarde! Minha mãe esta em casa hoje! E então aproveitamos para passar o tempo juntas. E ao invés de dar atenção para minha mãe, estou dando para um livro, o que deixa a Beverly, a garota totalmente família, um pouco mais viva. Ops, irritada. A Beverly é um pouco fria. Como uma boneca de porcelana. Perfeita e fria. Exceto pelos olhos. Ela tem olhos estranhos. É de um azul elétrico desconfortante. Nunca vi ninguém ficar olhando para ela por muito tempo.

-Dia da família esqueceu?

Perguntou ela, meia que carrancuda. É até estranho. Beverly não é muito expressiva, então qualquer mudança é muito brutal. O cachorro da família Gradion levanta a cabeça quando a Bev fala. Ele é dado a passeios e volta para casa só quando quer normalmente na hora da comida.

-Não. E o que tem ler o livro? A mamãe não liga, não é mãe?

Perguntei a minha doce mãe Antonieta, que estava meio que ocupada fazendo trancinhas no cabelo loiro de Caryn.  Em plenos trinta e seis anos, teve a mim e as minhas irmãs com dezoito, mas parece que o tempo parou para ela em seus momentos de lazer. Sério, os sinais da idade em minha mãe aparecem apenas quando ela sorri, ou quando está muito cansada, por que é quando as linhas de expressão ficam mais evidentes. Tirando isso, com seu cabelo loiro ondulado maravilhosamente claro, seus olhos azuis intensos e misteriosos como se soubesse de todos os seus segredos (provavelmente ela sabe por que mães sempre sabem de tudo e quando não sabem, desconfiam) e aquela pele maravilhosa, eu juro que se você a visse duvidaria muito que ela é mãe de três meninas. Ela tem uma beleza absurda. Quando a olho concentrada trabalhando para sustentar nossa família, ou trançando o cabelo da Caryn, ou vendo a Beverly pintar e não deixo de pensar em como ela é forte e bonita. Não sei como meu pai foi tão tonto a ponto de abandoná-la. Claro que minha mãe passou por cima de suas muitas dificuldades e hoje ela nos mantém com maestria. Antonieta é a personificação da força.

-O que querida?

Perguntou minha mãe, levantando os olhos e me olhando com um sorrisinho adocicado. Ela nem sequer estava ouvindo. Deve ter se perdido em pensamentos. Isso é tão ela. E é tão Beverly. Viajar na maionese deve ser de família. Como provavelmente herdei a personalidade do meu pai (Bléééé) eu não consigo ficar na inércia por muito tempo. Sou imperativa. Tenho que falar e se não posso falar me mover loucamente. Isso sempre resultou em problemas na escola.

- Hã, nada não!

-Ah! Mãe, a senhora sabe qual e a idade dos Garden?

Pergunta Caryn, sentando na cadeira e colocando os pés sobre a mesa, observando um beija-flor azul bem pequenino paquerar uma das nossas flores, como quem não quer nada. Temos um belo jardim. Afinal, minha mãe e Beverly adoram flores e plantas. Eu e Caryn apenas ajudamos a cuidar, regando as plantas e podando de vez em quando. Mas apenas a Beverly é fixada nisso. Tem também uma horta, porque quer economizar em hortaliças e companhias. È o orgulho particular dela.

-Por que o interesse Caryn?

Pergunta minha mãe franzindo as sobrancelhas loiras preocupada por esse súbito interesse nos novos vizinhos. Eu também tenho um pouquinho. E se forem psicopatas, assassinos ou algo pior? Não sabemos a procedência de seus atos. E eles moram na casa do lado! E se forem mafiosos? Os seus seguranças são assustadores. E eles são podres de rico. Podem muito bem ter conseguido esse dinheiro todo com trafico e prostituição alheia. Pode ser pior!

-É só para saber mesmo.

Disfarçou Caryn seu obvio interesse pelos garotos. Quer dizer, pelo Cam. Não colou para minha mãe. Afinal, pais não são bobos. Ou então não seriam pais, seriam? Definitivamente não. E minha mãe não é mais uma donzela ingênua há muito tempo. E ela conhece todas as nossas tretas, afinal, nos conhece antes mesmo de saímos de sua barriga. A Caryn é uma péssima mentirosa. Não é por acaso que vive se metendo em confusão.

-O mais novo tem três anos a mais do que vocês.

Informou minha mãe friamente. Mais novo? E têm mais novo entre eles? Por que todos me parecem ter a mesma idade. A diferença de idade deve ser mínima. A possibilidade de ser gêmeos estaria no ar se não tivesse os olhos de cores diferentes. Gêmeos com os olhos de cores diferentes até que rola, mas, trigêmeos... A probabilidade de serem apenas três de uma única gestação, sem serem da mesma placenta, é bem pequena. Como é o meu caso e o das minhas irmãs.

-Como é que a senhora sabe?

-Talvez por que eu saiba contar, Angel?

-Desculpas, é reflexo.

-Cam não é pra você, Caryn!

Continua minha mãe, pegando ar. Ela realmente detesta essa ideia. 

-Como você pode ter tanta certeza mãe?Virou advinha agora?

Perguntou Caryn fazendo careta. Ela é a copia da minha mãe quando era da nossa idade. Eu já vi as fotos. As duas têm o mesmo cabelo loiro, os mesmos olhos, até as mesmas pernas. Enquanto eu tenho esse cabelo cor de mashmellow que não pode ver uma fumaça que já fica cinza.

-Que tom é esse Caryn Virginia Blood?

Esbraveja minha mãe, enquanto pegava uma panqueca recém saída da frigideira, que Beverly tinha acabado de trazer da cozinha. Eu nem vi quando ela saiu. A Beverly tem esse dom, uma hora está do seu lado e na outra está do seu lado com alguma coisa gostosa na mão. Ela fala tanto que quando sai ninguém percebe. Caryn murcha como uma florzinha sem água!Ela resmunga um desculpa bem baixinho!

-Bem feito!

Pigarreei, enquanto mordia a maçã verde que peguei da cesta de fruta. Amo maças, principalmente se for verdes, só não entendo por que elas são usadas como o fruto do desejo. Caryn me faz uma careta. Mostro a língua para ela. Então nossa mãe brada:

-Vocês duas nem comecem! Meu Deus! São irmãs!

-E estão acabando com minha tarde!

Resmunga Beverly, mordendo uma panqueca!Ela olha para o castelo Garden. Um grupo mais distante chamou minha atenção. Perto da casa de visitas estavam os Garden. Um dos três, Cam, supondo pelo tamanho, estava jogando pedrinhas no lago, enquanto os outros dois estavam parados, escorados na parede e de braços cruzados, ouvindo o homem mais velho, que não tinha idade para ser pai deles. Pelo menos a meu ver. Ele deve ter uns quarenta anos, o cabelo era preto amarrado com uma tira de couro, a barba estava mal feita. O terceiro também era um Garden, mas eu não o vi antes. Tinha aquelas características básicas Garden, o cabelo escuro, o queixo quadrado, a beleza irritantemente estonteante. Ele parecia familiar. E era esquisito como perto dele seus irmãos pareciam normais. Era mais bonito que os outros, como um Eros encarnado. Tinha um quinto homem ao lado do Aaron, o Garden mais velho. Eles pareciam muito irritados com esse cara em particular.

Então o Garden Eros da um passo intimidador em direção ao não Garden, que da um passo para trás. Ele era mais baixo e magro que todos ali, mas tive uma sensação de ar vibrando que também era familiar. Era um tipo de intimidação que eu já vi outra pessoa exercendo. O Eros chega bem perto do não Garden, que estava tremendo nas bases. Seguro na minha cadeira empolgada. Beverly prende a respiração. Cam levanta a cabeça e nos ver observando. E vai falar com o irmão. Merda, Cam! Perdi minha diversão da tarde. O Garden para quem Cam nos dedurou olha para nós. O Eros não nos olha, mas o não Garden cede e foge aproveitando a oportunidade. O Eros coloca as duas mãos nos quadris, respira fundo, gira o corpo em nossa direção, acenando com a mão. Automaticamente devolvemos em conjunto. Homem assustador de bonito.

O nem um pouco simpático Garden da um sorrisinho de desdém que me deu vontade de arrancar de sua cara a tapas. Faço a coisa mais mal educada que me vem à mente e mostro para ele o terceiro dedo com um sorriso de tubarão que diz oi idiota.

-Angel...

Adverti minha mãe com cara feia. Como se ela nunca tivesse feito isso na vida. O novo vizinho semicerra os olhos e me dá um sorriso ainda maior. Presas aparecem no lugar de caninos. Balanço a cabeça. Eu só posso está vendo coisa. Deve ser a distancia. Não é possível. Acho que estou tão faminta que estou tendo ilusões. Aaron toca de leve o ombro do "vampiro" e me dá as costas o metido.

-Deveríamos cumprimentá-los?

Pergunta Beverly semicerrando os olhos, muito felinamente. Dou uma gargalhada de desdém. Nunca que eu vou ser educada com quem riu de mim por espiar uma treta publica. Tem sorte que eu não comecei a filmar ai sim seria falta de educação. Respondo a pergunta para Beverly de maneira enfática:

-Definitivamente não!

-Não seria educado? Mãe?

Pergunta Caryn olhando para onde o de olhos verdes tinha entrado. Suspiro pesadamente. Não é assim tão difícil resistir a homens. Eu faço isso durante toda a minha vida.

-Na verdade, vamos deixar os Garden quietos no canto deles.

-Viu! Eu tenho razão. Os conhece mãe?

-Foram embora antes de vocês nascerem, Angel. Não nós falamos. Eles não saem muito de casa

Responde pacientemente, agora ela nos conta. Bem eu já sabia! Encontrei o Aaron Garden no mercadinho um dia desse ai e ele só fazia pergunta sobre minha mãe: Como é que ela está? Como está a família? Essas coisas estranhas. Ela pode ter se esquecido de contar!

-Maravilha! Por que se saísse, sinto muito mãe, mas ia rolar treita. Talvez eu seja presa por assassinato.

-Onde é que você aprende essas coisas? Deus! Parece até com o pai!Leva tudo logo para o lado da ofensa. Aquilo poderia ter sido um sorriso simpático.

Reclama minha mãe, praticamente me ofendendo. Quer dizer, eu sou um pouquinho de nada geniosa, mas me comparar com o homem que a abandonou grávida... Meu Deus! Isso é uma grande ofensa para mim. Ainda mais por que eu tenho mesmo os genes dessa criatura que nem sei o nome. E não quero saber.

-Desde quando a senhora tem dom para ingenuidade?

-Angel Roselly Blood, veja bem como fala comigo!

-Não seria ouvir?

Pergunta Beverly inocentemente fazendo uma careta enquanto desenha algo rapidamente. Dou uma espiada. Era um anjo. De novo. A Beverly desenha muito, mas ela ultimamente está fissurada em anjos. Não em anjinhos pequenos e fofinhos como nas estatuas, mas em anjos grandes, bonitos e homens. Deve ter algo a ver com os pesadelos que ela sempre teve mais se tornaram mais intensos quando nós completamos dezessete a um mês. Então ela deixou de desenhar suas águias de tamanhos monumentais, seus dragões de nariz arredondado e escamas que parecem penas e todo o resto que existe no mundo, incluindo casas velhas, palácios, paisagens que não existem na terra e uma mansão que sempre vem insistentemente em sua cabeça para desenhar a anjos. E foi engraçado por que começou com um menino de dez anos com asas, e foi evoluindo até esse menino ser um homem jovem, mas adulto de mais ou menos vinte anos. E ela não sabe que cor vai dar as asas dele. É sempre branca ou negra. Ou os dois. Ela faz careta para o desenho.

-Vocês entenderam!

Afirma balançando a mão e fazendo um muxoxo com as mãos, com um sorriso esperto na face. Acho que para minha mãe, nós criar é uma diversão trabalhosa. Tem lá seus momentos de prazer e muitos de desespero.

-E vocês não têm que fazer o jantar?

Lembra a minha mãe, pegando o meu jornal e bebendo um copo de suco. Ela olha disfarçadamente para a casa do lado. De repente parece muito cansada. Por que a volta dos Garden está mexendo com ela dessa maneira? Será que eles têm algo a ver com o meu pai? Por que se tiverem, eu não quero mesmo meia com eles. Não quero saber de nem de ficar no mesmo lugar que esses homens.

-Ainda são quatro... Ops... Cinco. Já são cinco horas?!

Exclama Caryn olhando para o relógio do seu celular com a boca aberta em exclamação. A Beverly sorri por de trás do caderno de desenho. Minha mãe dobra o jornal e coloca o copo em cima e logo ordena:

-Tire a mesa, eu vou para o escritório. E fiquem longe desses garotos.

-E desde quando chegamos perto de meninos?

Resmungo começando a ajudar a tirar a mesa. Mas é cada uma que me inventam.


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