Capitulo Dois – Caryn
Acho que a árvore em
frente a minha casa é a mais antiga da cidade. Moramos em uma casa
antiguíssima, mas essa área é repleta de casas no estilo barroco, de palacetes
góticos e castelos feudais. São tombadas pela cidade, então não são possíveis
reformas que mudem sua estrutura, ou demolições. Relíquias da cidade. E nossa
casa é uma dessas. Ela não é muito grande. É confortável, aconchegante, uma das
casas que foram construídas quase dentro do lago. Com dois andares, de tijolos
vermelhos, em um estilo gótico, tem mais jardim do que casa. O cachorro do
vizinho adora! A Beverly mais ainda. A Angel detesta! Pra mim tanto faz, desde
que o imenso carvalho que tem no limite do nosso terreno com o vizinho
permaneça. Meu avô, Killian Blood, construiu um balanço de madeira para minha
mãe quando ela era bem menina. Quando nos mudamos para cá, comecei a ir lá para
pensar em bobagens, ou me esconder da Angel. Hoje uso para estudar. É silencioso
e calmo o suficiente para isso. Ou era! Os vizinhos estão reformando alguns
pontos da casa e terminando de levar as mudanças. Toda hora passa um carro,
pedreiros faziam uma barulhada enquanto reforçavam alguns pontos da casa, e
estavam tratando o lago com uma maquina que fazia um barulho que é uma
desgraça! Eu não poderia estudar em casa por que a Beverly estava usando nosso
quarto para os estudos dela, a Angel estava ouvindo musica em alto som no
quarto da nossa mãe e a mamãe estava pregando estantes na parede.
Então hoje eu fui estudar no parque próximo a minha
casa.
Suspiro pesadamente quando sinto um pingo cair bem no
meio da minha testa. Olho para o céu! Está brincando?! Hoje não é meu dia. Não
é mesmo! Outro pingo cai em cima de uma das folhas do meu livro. Olho para
minha casa. A chuva começa a cair fortemente me molhando, molhando meu cabelo e
meus livros. Merda! Coloco todos dentro da minha mochila e começo a correr de
volta para casa. Uma moto para na minha frente.
-OI! Você mora na região do lago, né?
Pergunta tirando o capacete. Ele saiu de onde? Olho
para minha casa. Trezentos metros. O palácio dos Garden cinquenta metros no
máximo. Eu já estava empapada. Minha roupa tinha grudado em meu corpo.
-Quem é?
Resmungo tentando tirando o meu cabelo molhado do meu
rosto. O possível Garden levanta uma das sobrancelhas negras. Ele era bonito!
Sabe, daquele tipo de pessoa tão bonita que você tem certeza de que passou na
fila da beleza muitas vezes. Era muito alto, mais alto do que meu ficante,
musculoso, mas não a ponto de parecer um minotauro, tinha uma tatuagem tribal
no braço que a camisa escondia o resto. Acho estranho ver alguém bonito de
corpo e de rosto, mas ele conseguia. E tinha olhos maravilhosos. Sério!
Maravilhosos. Não sei se eram verdes ou azuis. Ou os dois. Eram selvagens, inteligentes,
tão animalescos e exóticos cheios de manchas douradas e promessas luxuriosas.
Parecia meu tipo de cara. Possivelmente estou com um olhar faminto na cara.
-Eu moro na vizinhança, acabei de me mudar. Você quer
uma carona?
Diz em alto e bom som, me encarando da mesma maneira
que eu estava o olhando. Eu senti esquentando e meu coração parecia uma escola
de samba ensaiando.
-Te dou uma carona para sua casa.
-É ali!
Aponto, minha casa estava as vista. Confesso que
estava um pouco longe, mas está as vistas.
-Está chovendo!
-Já estou toda molhada mesmo!
-A carona ainda está de pé!
-Ok!
Concordo subindo na garupa da moto! Pelo menos eu
estaria seca mais cedo. O vizinho nem parecia que estava encharcado de água.
Ele estava tão quente. Segurei nele, tirando uma casquinha daquela pele macia e
quente. Não me importo com a chuva castigando minha pele e faz meu vestido
grudar em meu corpo, mas me importo com os meus livros. Meus livros de
pré-vestibular são o dois olhos da cara e não temos dinheiro para ficar comprando
livros. Minha mãe vai me matar!
Chegando a casa, não preciso convidar o vizinho para
entrar. Afinal, estava chovendo. E a chuva parecia que não ia embora tão cedo!
Minha mãe para de parafusar o quadro da Beverly e mede o vizinho de cima a
baixo. Aposto que deu um trabalhão, por que ele era alto, dever ter uns dois
metros de altura, assim, facilmente!
-Olá!
Cumprimenta parando a furadeira, com um tom de quem
estava falando com um cão bravo. A Beverly, que estava fazendo café cremoso
coloca a chaleira, que ela pintou rosas azuis, na bancada, ainda olhando para o
vizinho com as sobrancelhas franzidas. Ou era para mim?
-Que tal você trocar de roupa, Caryn? Beverly pode ir
buscar uma toalha para o senhor...
Ela fez uma pausa para ele dizer seu nome. Ah! Que
distração minha, nem sei nome da pessoa!
-Cameron.
Responde tremendo um pouco de frio.
-Para o Cameron, por favor.
-Pode me chamar de Cam.
Avisa Cameron simpaticamente esboçando um sorriso de
menino amarelo.
-Para o Cam, por favor.
Continua minha mãe, se corrigindo. Beverly concorda
com a cabeça e sobe para nosso quarto junto comigo. Fiquei com a impressão de
que estava deixando o Cam nas garras do lobo.
-Ele é alto, né?
Pergunta Beverly, sentada na minha cama com a toalha
para o Cam em cima do colo. Será que ela esqueceu que ele precisa dela?
Possivelmente. Eu secava meu cabelo em uma toalha. O problema do meu cabelo é
que quando ele molha e seca, fica parecendo que uma vaca lambeu. Sem a menor
vida.
-Ele quem?
Pergunta Angel, tirando os olhos do livro.
-Cameron Garden!
-Todo mundo é alto para você, Bev!
-Palhaça!
Esbraveja Beverly jogando meu travesseiro em Angel. A
Beverly é a mais baixinha de nós quatro. As pessoas tendem a ser mais alta que
ela.
-Ele é bonito também!
Digo desistindo do meu cabelo com um suspiro. As
sobrancelhas caras de Angel levantam. De vez em quando eu tenho a impressão de
que Angel não tem sobrancelhas de tão claras que são elas.
-Como você nunca teve bom gosto, vou ter que ver.
Decide, levantando e nos seguindo de volta para a
cozinha. Retruco ofendida:
-Jack é gato!
-Sim, mas só o Jack! Por acaso o nome dele é Jackson?
-Sabia que eu não sei.
-Vai pegar ele quando?
Pergunta Beverly inocentemente. Só não corei por que
não me dei o trabalho, mas respondo rapidamente:
-Já peguei!
Quase posso sentir a boca de Beverly abrindo.
Possivelmente indignada por eu não ter contado para elas, mas também, foi hoje
de tarde, então não tem muito tempo. Angel burfa e comenta sinicamente:
-Bem, você estava cozinhando ele a fogo baixo!
-Não estava não!
-Cozinhando o que?
Pergunta minha mãe tomando uma xícara de café cremoso
enquanto o Cam parafusava o quadro para ela. Não tinha visto esse quadro ainda.
Ele era gigantesco. De um anjo! Não sei o que a Beverly tem com anjos.
-Outro anjo?
Pergunto olhando para a Beverly um pouco vermelha. Era
um quadro todo em preto e branco, mas tinha um vermelho nas asas arrancadas do
pobre ser.
-Não é um anjo! É um alado!
Corrige Cam chegando um pouco para trás, possivelmente
conferindo se ele não tinha pregado nada torto. Foi aí que percebi que ele
estava sem camisa. O dia acabou de ser salvo!
-Alado?
Pergunta Angel com um tom sínico na voz. Detesto esse
tom, sério. A Angel tem que para de fingir que é mais esperta do que o resto.
-Sim! A cicatriz! Um anjo teria cicatrizes onde as
asas nascem em forma de um V normal, Alados tem o V invertido. Parece até com
meu irmão!
Comenta ignorando completamente o tom de voz da Angel.
-O mais novo, é claro!
Continua observando o quadro com a testa franzida.
-Sua toalha chegou!
Avisa Beverly entregando a toalha nas mãos de Cam! O
vizinho coloca a toalha sobre os ombros e senta no chão aos pés da minha mãe,
que observava o quadro de Beverly como se pudesse extrair algo dele! Sirvo uma
caneca daquele café maravilhoso que Beverly fez e sento ao lado dele com minha
própria caneca.
-Obrigado.
Agradece com um sorriso. Concordo com a cabeça,
ocupada de mais vivendo esse momento maravilhoso. Tem coisas que nos faz ter
certeza de que vivemos para viver aquilo. Por exemplo, observar um dos quadros
de Beverly, perto da lareira quentinha, tomando uma xícara de café cremoso,
docinho, calórico. E tem o Cam, é claro. Se eu enjoar do anjo, posso olhar para
ele e para seu abdome todo trincado. Com certeza, dele, eu consigo extrair
alguma coisa.
-Tem quantos irmãos Cam?
Pergunta minha mãe, acabando com o silêncio. Cam
sorrir como quem faz uma piada interna e pergunta:
-Por parte de pai ou de mãe?
-Que cresceram com você!
-Dois, Dexter, chato de galocha, primogênito e Alef,
rebelde sem causa, caçula. Parte de mãe! E outros cem por parte de pai. São
tantos que posso passar na rua e nem saber que é meu irmão. Mas conheço dois:
Ephrain e Semuel! Insuportáveis! Os dois!
-Parece que não gosta de seus irmãos!
Resmunga Angel, bocejando de tédio! Ela não era do
tipo que curte atividades paradas e que envolvam reflexão e concentração,
apesar de gostar de ler como todas dentro de casa. Só não dormia quando o
assunto era de seu interesse.
-Só gosto dos que são filhos da minha mãe, mas não
conte para eles!
Retruca sorrindo para a Angel. Ela dá de ombros.
Simples assim. Cam levanta as sobrancelhas, vira-se para mim e comenta:
-Ela não é muito simpática, né?
-Nem um pouco.
-Simpatia pra quê?
Pergunta minha irmã loura mal humorada. De vez em
quando me pergunto se minha irmã não tem alguns problemas.
-Não sei, para socializar?
A campainha toca interrompendo o que seria o inicio de
uma discussão sobre como a humanidade é cruel e as pessoas não são confiáveis.
Como se existisse apenas psicopatas no mundo!
Angel vai atender á porta por que estava entediada.
-Seus livros molharam, não foi?
Pergunta Cam de repente, me dando um susto. Respondo
como uma lenta:
-Ah! Sim!
-Que livros?
Indaga minha mãe, se empertigando em dois tempos! Ela
estava com uma expressão felina no rosto. Aquela em que ela usa para nos puxar
a orelha ou para descobrir alguma coisa.
-Os que ela usava para estudar!
Responde Beverly, na bancada, colocando mais café na
sua caneca. Ela faz uma careta olhando para a caneca. Acho que não tinha café
suficiente!
-Os caros?
Pergunta minha mãe com os azuis olhos arregalados.
Parecia que tinham dado uma facada nela. Bem, possivelmente foi o que
aconteceu! Uma facada no bolso dela. Concordo com um grunhido fingindo que
ainda tinha alguma coisa no meu copo. Só para não ter que fazer contato visual.
-Não temos dinheiro para comprar outros!
Suspira minha mãe frustrada.
-Temos uma biblioteca imensa, Caryn pode usá-la. Se
quiser, é claro!
Oferece Cam, olhando para mim. Beverly levanta ambas
as sobrancelhas do outro lado dele e depois faz uma cara de ofendida. Se Cam
olhasse para o outro lado veria um cãozinho pidão. Beverly adora livros. Mais
do que eu, mais do que Angel. Jogue ela em uma biblioteca e terá que lembrá-la
de comer. Fico eufórica com a possibilidade de passar mais tempo em uma
biblioteca, com o Cam, mas me contenho. Não posso dar na cara. Olho para minha
mãe e digo:
-Estou sem meus livros!
-Sim?
-E ele tem uma biblioteca!
-E?
-Me deixa ir, por favor?
Peço com cara de bicho pidão a olhando como se eu
fosse absolutamente inocente. Sou um doce! Claro que peguei um monte de cara! E
o Cam é o proximo. Mas eu quero me formar então posso pegá-lo depois do
vestibular. Prioridades são prioridades.
-Só se a Beverly for junto!
Decreta minha mãe como uma rainha com meu destino nas
mãos. A Beverly engasga (ainda tinha café naquela caneca? Como ela consegue
multiplicar alimento?) e olha para minha mãe. Bem, ela queria ir para a
biblioteca, mas não para ser minha baba. Beverly olha para mim, e eu convoco o
meu melhor olhar de pelo amor de Deus diz sim. Ok! Não estou sendo muito
discreta!
-Ok! Vou ser a acompanhante dessa dama virginal!
Cede Beverly se contendo com maestria, como se tivesse
fazendo um favor para mim, e não estivesse eufórica com a lendária biblioteca
do Castelo Assombrado. Meu Deus! Como ela consegue? Que atriz maravilhosa!
-E a Angel também!
Minha mãe percebendo que perdeu uma cartada, e tirando
outra do bolso. Angel! Ela nunca vai querer ir!
-Ah! Mãe! Aí eu não vou estudar!
-Tenho a impressão de que se você não for acompanhada
não vai estudar mesmo.
Retruca Antonieta com cara de quem te conhece que te
compre. Faço cara de pidona.
-Ok! Caryn.
Cede minha mãe revirando os olhos. Bato palminhas.
Obvio que vou estudar, tenho que passar na prova.
Quando a chuva para, Cam se despede.
-Então, já vou indo!
-Deixa que eu guie até a porta!
Ofereço me levantando. Cam concorda:
-Sim! Beverly, Angel e Sra. Blood foi um prazer
conhecê-las.
-O prazer foi nosso.
Responde minha mãe. Guio Cam até o portão do jardim.
Levanto minha mão e estendo-a para aperta a dele. Ao
invés de apertá-la, ele pegou minha mão e a beijou, olhando para mim com uma
intensidade que nunca vi. Meu coração esquentou, trabalhando como uma escola de
samba ensaiando. Eu estava totalmente surpreendida. Quem ainda faz isso no
século XXI?Ninguém que eu conheça.
Cam sorriu torto, e meu coração se derreteu como
gelatina em dia de sol. Se ele tenta-se me beijar agora eu deixava. Meu Deus do
céu!
–Foi um prazer conhecê-la Caryn.
Diz Cam.
Eu estava a ponto de sair pulando e cantarolando sexy,
sexy, sexy. Mas eu não vou pagar de lerda. Não na frente grego semideus do Cam
Garden.
–O prazer é todo meu.
Falo a mais pura verdade. Esperar até o vestibular? Eu
achei isso mesmo? Estou muito enganada!
–Tenho minhas dúvidas.
Sussurrou ele, virando as costas e indo em direção ao
irmão, que me olhava com uma cara esquisita. Eu já ia virando quando me lembro!
-Ah! Obrigada pela carona!
Cam só se vira, sorrir ainda mais, indo embora frente
a um por do sol espetacular!Pensando bem, não foi um dia ruim. Olhando para aquele sorriso, aquele cabelo
aos ventos e esse por do sol rosa e laranja. Na verdade, nada ruim.

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