Capitulo Quinze – Beverly

 Passamos semanas no sitio de Cam. Seus sobrinhos iam e vinham. Angel e Dexter brigavam, Caryn e Cam namoravam e eu e Alef não fazíamos nada, exceto treinar minhas barreiras. Alef fugia depois dos treinos. Isso me deixava ainda mais irritada. Não que eu tivesse humor para qualquer coisa, eu estou irritadíssima. Sofro com formigamentos desde a traição de Enzo e minha mãe não para no sitio. Não a vi desde que acordei.

Inclusive, hoje dormiria mais, se não fossem as crianças gritando no corredor. Os sobrinhos de Cam estão sempre muito energéticos. Assim, são as crianças mais energéticas que vi na vida. Eu já estou achando que fazem fotossíntese. Não é a toa que Cam dorme na primeira oportunidade que encontra em qualquer lugar disponível. As crianças têm um apego a ele, a tal nível, que o moço só para a noite.

Fico na cama, olhando para as ripas do beliche. O barulho diminuiu gradualmente. Angel estava apagada no beliche de cima. Eva saia cedo toda a manhã para treinar e Caryn logo acordaria. Com um suspiro levanto e faço mina rotina matinal. Lavo a cara, escovo os dentes e desço.

Realmente as crianças tinham ido correr pela propriedade. Vejo algumas mães e as cumprimento. Então vou tomar meu café da manhã. Como uma desesperada, devoro meu café. Sinto muito mais fome do que o normal ultimamente. Possivelmente por que estou usando muito meus poderes. Depois do desmaio minhas barreiras estão cedo cada vez mais eficientes, ainda não consegui expulsar o Alef, mas pelo menos agora não quebra no primeiro instante. Grandion anda seguindo minha mãe em suas excursões, assim eu não fico muito preocupada com ela.

Depois do café, vou passear pela mansão. Eu poderia simplesmente ir para a biblioteca, mas minhas pernas continuaram a me levar para onde queriam. A casa era extensa, cheia de quartos e salas. Era possível ver cuidado em cada detalhe. Cam realmente se importa com seus sobrinhos, diferente dos seus irmãos, e pais, deles. Não vi um único irmão do Cam a não serem os Garden por aqui. As mães dos garotos, também não falam sobre eles, nem uma vez, como se existisse algum tipo de acordo tático pra não serem citados. E não faz pouco tempo que estamos aqui. Espero que Hannah e Lina estejam bem. Não entrei em contato com elas desde que cheguei aqui. Como não sou a sociabilidade em pessoa, elas não deve está muito preocupadas.

O som de um instrumento me tira dos meus devaneios. A música era triste e doce. Suspiro pesadamente. Alef. A porta da sala de onde vinha o som estava meio aberta.

Vejo a figura do Alef contra a luz do sol da manhã. Do cabelo negro bem aparado na nuca clara, as curvas das costas se insinuando sob a camisa branca, ás mangas dobradas no cotovelo, enquanto tocava uma grande harpa no meio da sala, Alef parecia pura poesia. Apesar da elegância de suas mãos, as cordas da harpa pareciam muito delicadas perante Alef. A música parecia levar minha irritação para longe. A minha mente vem à imagem de acordar todo dia com esse som. Encosto no beiral da porta, curtindo o momento. A música para e Alef vira-se e olha para mim. Seus olhos cor de rosa me deixam desconcertada.

-Te atrapalho?

Pergunto desencostando da porta. O Garden pisca, põem seus olhos sobre mim, fazendo com que meu coração comichasse, e com um esboço de sorriso, responde:

-Pensei que estava dormindo.

-Fui interrompida. Sabe como são, as crianças e tal.

-Sim, eu sei.

-Você toca bem.

Comento um pouco sem graça, colocando segurando minhas mãos atrás das costas e me balançando levemente. Alef sorrir, e tocando a harpa, com um tom carinhoso e como quem acha graça comenta:

-Sim, meu pai tinha que me ocupar de alguma maneira. Instrumentos de corda calharam bem, assim eu aprendia a tocar e a controlar minha força.

-Harpa combina com você.

Elogio, agora sentando em um banco próximo.  Ele parece muito próximo do pai. É bom saber que pelo menos alguém aqui tem um pai presente e que seu relacionamento é saudável. Alef rir com diversão e comenta:

-Não sabia que era dada a clichês, Beverly.

-Não?!

Retruco rindo dessa brecha que ele me deu. Alef fugiu de mim, e principalmente, do assunto de nosso passado por toda a semana que estivemos aqui. Se ele passou o tempo aproximado de um ano namorando comigo, Alef deve saber que apesar de não procurar ativamente um romance, eu amo historias românticas. Apenas não posso agir na vida real baseada em romances fictícios, ou esperar que o ser humano haja assim. Pessoas são mais orgulhosas, egoístas e complexas na vida real do que em obras de ficção. E relacionamentos, desde quando são com pessoas erradas ou no tempo errado, podem dar errados e muito.

-Sim, eu sabia.

-Um ano é muito tempo.

Comento como quem não quer nada. Se ele for uma montanha imóvel sobre esse assunto, eu vou ser uma dinamite. Alef suspira pesadamente e me corrige:

-É um pouco mais de um ano na verdade. Fui designado como seu Shadow quando terminei com Gaia, ou seja, eu tinha dezessete?! Seus poderes estavam ficando mais forte, o outro Shadow não dava conta.

-Como é sua ex-namorada?

-Ruiva, alta, fdp.

-Não terminaram em bons termos. Posso perguntar por quê? Ou é pessoal de mais?

-O fruto não cai muito longe da árvore.

-Qual é o significado disso?

Questiono interessada na ruiva, alta, fdp. Sinto um sentimento amargo brotando no peito. Como eles terminaram? Por que terminaram? Eu fui uma substituta para essa Gaia? Será que tem chances de voltar? Espremo essas perguntas no canto escuro da minha mente. Alef não é meu namorado e aparentemente não quer voltar a ser.

Alef faz uma careta e brilha com uma cor avermelhada. Cruzo os braços. O Garden irritado, seus olhos vermelhos, me pede:

-A mínima menção de Gaia acaba com meu dia Beverly, me pergunte outra coisa.

-Seus olhos mudam de cor.

Comento, piscando de surpresa. Realmente, eu achava que era impressão minha, mas os olhos de Alef trocam de rosa para vermelho como tinta manchando a água. O Garden, sem sinais do incomodo anterior, responde:

-Sim.

-Não era uma pergunta. A pergunta era por quê?

-Hesitação ou raiva. Qualquer emoção forte, mas normalmente, são essas duas.

-E suas asas?

-Suas perguntas parecem campo minado, me livro de uma e outra explode sobre meus pés.

Suspira Alef, com um sorrisinho, se arrependendo de ter me dado caminho livre.

-Você disse que eu poderia perguntar sobre qualquer coisa.

-Eu lembro.

-Então é culpa sua.

-Eu sei.

-Quando vai me contar quanto de culpa tem em minha amnésia?

Questiono, soltando logo a bomba, não muito paciente. Alef, imediatamente incomodado e para minha completa raiva, responde:

-Não hoje.

-Covarde.

Resmungo, muito irritada, cuspindo a palavra. Não olho para o Alef uma segunda vez e saio da sala, marchando, raivosa. Não quero ver sua expressão ou se ele se sente mal ou algo assim. Ele poderia simplificar nossa vida apenas confessando o que esconde. Ele não queria me manter longe? Se fosse tão ruim assim, não seria melhor me contar logo? Detesto ficar no escuro.

Marcho pelo corredor de volta para meu quarto, onde esbarro em Eva sentada na cama de cima, balançando as pernas.

-Alef te irritou novamente.

Comenta, pousando os olhos azuis em mim. Sua cabeça inclina um pouco para o lado, pensativa. Com uma carranca aceno com a cabeça. Gostaria de esclarecer o assunto do meu passado com Alef. Ouvir sobre isso evitaria que eu procurasse em minha mente essas memórias. Eva sorrir gentilmente, com suas sobrancelhas levemente franzidas e diz:

-Alef não saiu tão inteiro quanto ele leva a crer.

-Por que isso?

Pergunto subindo na cama e sentando ao lado de Eva. A Raven coça uma das sobrancelhas e responde:

-É um pouco difícil de falar, acho que eu não deveria dizer na verdade, mas Alef tem uma cicatriz muito feia nas costas. A punição de Alef foi ter perdido as asas. Derek se gabou sobre isso, não lembra?

-Sim, eu lembro.

Confirmo lembrando-me do segundo Trouble que invadiu minha casa. Sinto um incomodo ao lembrar-me do rosto daquele louro. A possibilidade de que Alef perdeu as asas como castigo por nosso relacionamento faz meu peito doer. Talvez ele pense que o fato de eu perder minhas memórias seja culpa dele. Se for isso, eu meio que o entendo. Não engulo o fato de que Alef perdeu uma parte dele por ter namorado comigo. Eva, balançando as pernas, continua:

-O Conselho é asqueroso. Estranho pensar que nossos pais faziam parte dele, por outro lado, é consolador saber que pelo menos eles não se dobraram a Hazazel. Apesar de ter custado um alto preço.

-O que aconteceu?

-Meu pai foi morto por Hazazel.

-Sinto muito.

-Ele morreria pelas mãos dele de qualquer maneira. O dom da minha família é uma das maiores armas contra alguém como Hazazel.

-O que é?

Pergunto com a curiosidade atiçada. Fazendo biquinho, Eva, para minha indignação, me responde:

-Um dia eu te conto.

-Você atiça minha curiosidade e não fala nada?

-Não posso colocar minha vida em risco, ainda não conheci o amor a minha vida. Em um mês vou conhecê-lo, aí eu te falo.

-Como você tem certeza que o pai do Alef é o amor da sua vida? Você tem quantos anos?

Questiono estranhando a fixação de Eva no pai do Alef. Ela parecia ter tanta certeza e não parece muito mais velha do que eu. A Raven sem muito drama me responde:

-Vinte?!

-Ele não é muito mais velho do que você?

-Sim, mas Alto Humanos vivem centenas de anos a mais do que humanos normais. Por exemplo, se sua irmã Angel começasse um relacionamento com Dexter, hoje, a diferença de sete anos seria um pouco assustadora, é quase uma década, mas quando ela chegar aos duzentos anos, Dexter vai ter duzentos e sete.

-Duzentos anos...

-Angel vai viver muito mais do que isso. Não tanto quanto você e o Alef. Muito mais do que eu com certeza.

-Como é que você fala com tanta certeza.

-Eu já sei como vou morrer.

-Está planejando sua morte?

Questiono assustada. Eva sorri para mim. Ela estava muito tranquila sobre sua própria morte e considerando que ela tem apenas vinte anos, é assustador. A moça colocando o cabelo para trás, responde:

-Não.

-Ent...

-Não se preocupe Beverly, ainda vou viver muitos anos.

-Certeza?

-Absoluta.

Responde Eva com firmeza. Fico mais tranquila. E parte de mim desconfia dos dons de Eva Raven. Realmente, deve ser assustador para qualquer um ter um inimigo com esse tipo de visão, se for o que eu estou imaginando que é.

Olho para a Raven. É uma moça muito bonita, com lindas maças do rosto, olhos em formato de lua minguante e o cabelo preto como a noite. Ela tem um tipo de mente muito forte para saber seu próprio futuro e apenas o aceitar. Talvez se debata com o destino quando chegar o momento. Ou tem algo tão valioso a sua espera na vida que ela não troque por coisa alguma.

-Fico me perguntando se minha vida vai voltar ao normal.  

-O que seus instintos te dizem?

-Que meu normal será outro. O futuro não dá medo?

-O que está fora de nosso controle, está fora de nosso controlo. O medo é normal, mas a vida só nos permite caminhar para frente.

-Você está parecendo uma coach.

Comento rindo da cara dela em alto e bom som. Eva revira os olhos para mim e rir também. Realmente, a vida apenas nos permite caminhar para frente, não se pode voltar ao passado e o presente é o ápice da efemeridade. Só que Eva não deixou de parecer uma coach motivacional.

-Vocês não respeitam o sono alheio?

Pergunta Caryn com uma carranca na cama de baixo do outro beliche. Angel estava apagada e resmungando na cama de cima. Com um resquício de sorriso, apaziguo Caryn.

-Foi mal.

Minha irmã nem me responde, apenas bufa coma boca e vira para o outro lado. Olho para Eva e pergunto:

-Vamos sair daqui?

-Já foi na estufa?

-Não, quero ir.

-Então vem.

Convida a Raven, descendo do beliche. A sigo em direção da estufa, deixando minhas irmãs dormir em paz.

A estufa é muito bonita. A maior parte das plantas é frutífera e todas bem cuidadas. Eva e eu ficamos horas conversando sobre diversos assuntos. Falamos sobre livros, descobri que ela tem uma irmã mais nova chamada Aurora e que conhece Alef desde os quinze. Ela também é uma das mais caras Shadow do mundo.

Ao meio dia fui à cozinha, ajudar Cam e as mães dos sobrinhos dele a fazer o almoço. Caryn e Angel também apareceram, mas como sempre não deixamos Caryn ajudar. Depois do almoço peguei alguns livros na biblioteca, treinei minha barreira com Dexter ao invés do Alef que fugiu de mim, e então ao voltar para o quarto depois e tomar um banho, vi um rosto que não vejo há muito tempo.

-Mãe, faz tempo que eu não te vejo.

Cumprimento a minha mãe. Ela está exausta. Sua aparência tem um aspecto envelhecido e tinha manchas escuras ao redor dos seus olhos. Com uma sobrancelha levantada e um fantasma de sorriso minha mãe responde:

-Não faz tanto tempo assim.

-Não?! A senhora sumiu na última semana.

Retruca Angel, tentando não demonstrar sua clara insatisfação. Minha mãe, com um suspiro, responde:

-Estou procurando seu pai.

-Os Garden não sabem onde ele está?

Questiona Caryn entregando um copo com água para ela. Antonieta levanta os olhos, e para nossa confusão, diz:

-O corpo do seu pai sumiu da clínica. 

-Oi?! 

Perguntamos em conjunto. Essa informação é nova. Não tínhamos idéia que Ítalo estava doente, e pelo jeito que minha mãe falou, gravemente doente. Deve ser por isso que ele não deu as caras. 

-Italo brigou com um cara muito poderoso...

-Já sabemos disso.

-Não me interrompa, Angel. Seu pai estava em coma. Em hibernação talvez seja mais adequado, mas ele não acorda há dezoito anos. Ele brigou com esse homem, Hazazel, e se exauriu a tal ponto que não acorda mais, mas continua vivo. Aaron me disse que ele acordaria quando voltasse ao normal. E agora ele sumiu! Tenho que achá-lo.

Continua mina mãe, bebendo um gole de água. Os olhos de Caryn arregalam de surpresa, já a Angel semicerra os olhos, pensativa. Considerando que o pai de Eva morreu lutando contra Hazazel, acho que estamos no lucro. Pelo menos nosso pai ainda está vivo. Só não entendi ainda o porquê dos Sadics terem essa rixa. Caryn pisca e pergunta para minha mãe:

-E nós?

-Não se preocupe, no sitio estão seguras. Podem confiar nos Garden, eles nos ajudaram no inicio.

-E por que a ajuda não continuou?

Questiona Angel, chateada, cruzando os braços. Quase posso ver o cérebro da minha irmã trabalhando para acomodar a idéia de que Ítalo não foi um pai presente não necessariamente por que não quis, mas por que não podia.

-O Conselho, quem governa os Alto Humanos, eles não gostaram da idéia de uma humana representar um Ancião Sadic ou de meio sadics um dia assumi-la. Com isso vieram atrás de nos, e eu desistir da cadeira do seu pai. Não tinha nenhum apoio a não ser os Garden, e eles não são tão influentes no mundo Sadic. Parte das posses do seu pai foi junto com a cadeira, mas tivemos alguma paz. Pelo menos era o que eu achava.

Suspira minha mãe, balançando a cabeça, chateada com toda a situação. Então esse Conselho é realmente problemático. Eu já sabia, tenho eventuais enxaquecas, uma amnésia maldita, não sei por que eu ficaria surpresa se existir uma discriminação com humanos comuns e seus descendentes. Apenas não entendi o porquê Ítalo, um suposto Ancião, brigou com o Hazazel. Eu até perguntaria a minha mãe, mas ela parecia exausta e até pouco disposta a falar sobre isso, então deixei para outra hora.

Minha mãe, Aaron e Bonnie pretendiam ficar no sitio por mais uma semana antes de voltar a procurar Ítalo. Eles até considerariam a possibilidade dele ter sido capturado por Hazazel, mas se isso fosse verdade não estaríamos sendo perseguidas. Segundo Aaron, há uma maneira de acordar Alto Humanos do tal estado de hibernação, mas era muito perigoso, portanto não usado.

Com minha mãe por perto meu estresse diminuiu. A insegurança que sentíamos desaparecia aos poucos e a rotina o sitio se estabelecia em nos. Sei que não vamos ficar aqui para sempre, mas ainda deixei minhas preocupações serem jogadas para o fundo da minha mente.

Antes de minha mãe voltar a procurar nosso pai, recebemos um convite para ir ao supermercado comprar mantimentos que o sitio não produz. Normalmente eu pensaria duas vezes antes de sair, mas estou presa no sitio há dois meses. A Angel já esta subindo as paredes. Então, com os devidos cuidados para não sermos reconhecidas, aceitamos. Caryn resolveu ficar no sitio com Bonnie, Eva, Cam e minha mãe.

Foi estranho está no mesmo lugar que Alef, já que não conversei com ele desde que o chamei de covarde. Pra falar a verdade, estou um pouco envergonhada, deveria simplesmente me desculpar de uma vez, mas Alef sumiu das minhas vistas durante a semana.

Depois de pegamos e pagamos tudo o que precisava, Dexter fez a cagada de querer agradar a Angel que estava com olhos desejosos para um pacote de bolacha que era lançamento. Sinceramente, acho que ele esqueceu que estava lidando com a Angel quando se ofereceu para pagar.

-Eu e Aaron vamos levar as compras para o carro.

Avisa Alef com um suspiro, enquanto Aaron ia à frente com o carrinho de compras. Concordo com a cabeça e apontando para minha irmã, digo:

-Vou evitar que Angel leve seu irmão a falência.

-Do que você esta falando Bev?

Pergunta Angel, com o carrinho cheio de bolacha. Dexter olhava para a “feira” de Angel como se aquele fosse seu pior pesadelo. Não sei se é o dele, mas é um do meu Top 10. Não pode dar uma corda para Angel que ela puxa.

Vê as costas de Alef enquanto caminhava para o estacionamento com as compras fez com que eu me sentisse sufocada, como se minha garganta tivesse fechada. Minha pulsação soa em meus ouvidos e sou tomada por uma sensação horrível.

Vou atrás do Alef e do Aaron, andando o mais rápido que posso, mas ambos tinham pernas longas e andavam mais rápido. Já estavam na porta. Não abram. Por favor, não abra essa porta, não vão lá fora. Minha garganta fecha, mas faço um esforço e abro a boca para chamá-los de volta. Eles voltariam se eu os chamar.

Ouço minha voz pronunciar o inicia do nome de Alef e uma mão toca em meu ombro, me assustando. Era uma mão muito fria. Um arrepio percorre por toda minha espinha. Trêmula de medo, eu olho para trás, para o dono da mão.

 O homem tinha pavorosos olhos azuis. Eram cheios de desdém e veneno. Asqueroso. Mal intencionado. A cabeça dele inclinasse em uma posição que seria adorável em outra pessoa. Não por que ele fosse feio, ele é muito bonito, mas esse gesto me lembrou imediatamente uma cobra em posição de ataca. Com um sorriso, me pergunta:

-Você sabe onde fica a farinha?

-Tira a mão de mim.

Respondo me desviando da mão dele. As sobrancelhas negras se enrugam como se ele fosse a vitima aqui, como se realmente estivesse perguntando sobre a farinha. Com um tom irritantemente falso de magoa, o homem resmunga coçando a nuca:

-Heh! Os jovens de hoje realmente são mal educado.

Não tenho tempo para respondê-lo. Alef e Aaron já tinham passado pela porta. Corro para fora do mercado com todas as minhas forças, me amaldiçoando por todas as corridas que neguei e por todas as aulas de educação física que fugi. Meu coração parecia que ia sair do peito.

Então ouço um barulho alto. Ensurdecedor. Cacos de vidro caem sobre mim como uma chuva mortífera, e minha barreira são ativadas automaticamente. Uma onda de vermelho e calor castiga meu rosto e quando passa resta um mundo cinza, pegando fogo e revirado. A fumaça faz meus olhos arderem. Uma parte de mim não queria olhar. Carros revirados, pessoas gemendo e chorando. Caos. Um completo caos.

O céu rugiu em um trovão.

Merda. Quem foi o maluco que fez isso?

Outro trovão, mais alto, mais perto. O céu formou nuvens cinza de uma cor profunda, adequado para a ocasião. 

Vejo o Alef sentado com a cabeça baixa, Aaron deitado ao seu lado. Eu não consigo ver o rosto do tio de Alef, mas sua mão pendia inerte. Não tinha luz. Não tinha brilho. Não tinha pulso. Ele já se foi. Assim, do nada. Como uma folha que passa diante dos olhos e o vento leva para longe, para algum lugar desconhecido. Efêmero.

Se minha barreira fosse maior talvez eu tivesse conseguido proteger mais do que minha família.

Começo a caminhar, minha garganta fechada de tristeza, desnorteada como um dia normal se transformou em um pesadelo.

Ouço outro barulho alto. A cabeça do Alef pende para trás manchando o asfalto de um vermelho vivo.

Caio de joelhos. A energia que pulsava em Alef sumiu. Apagou como uma vela assoprada. Morto.

Meu Deus.

Ele está morto.

Alef morreu.

Os olhos cor de rosa de Alef vem em minha mente. Eles eram tão brilhantes, quando me olhava pareciam me envolver em carinho.

Ouço um trovão. Soluço, engasgada.

Ele tinha um lindo sorriso. Eu queria ter visto mais. Queria ter sorrido de volta. Eu nem pedi desculpas ainda.

Um raio prateado corta o céu, que deságua sobre mim. Meus olhos embaçam. Não sei se são minhas lagrimas ou a chuva. Meu peito dói e é difícil respirar. Trêmula, eu engatinho até o Alef.

Não quero ver.

Meu corpo continua a se mover, mas eu não quero ver. O sangue de Alef mancha meus jeans quando chego a ele. Cheiro de ferro preenche minhas narinas.

Então com um movimento só, Alef levanta.

Comentários

Postagens mais visitadas