Capítulo Dois - Como intimidar um civil, de Blackblood Levi!
Assim que a espada tiniu contra a parede, o zumbi correu em direção de Levi, mais rápido do que esperado ao escorregar em seu próprio sangue.
Levi soltou a espada e correu com todas suas forças assim que percebeu a velocidade do zumbi. A espada caiu assim que ele a largou, mas não tinham como voltar com o bafo do zumbi em suas costas. Procurou a faca de reserva que levava no uniforme. Percebeu que esqueceu. Estava desarmado. Teria que usar aquilo. Prometeu a seu pai que não usaria sem extrema necessidade, mas ela chegou antes do esperado. Ao chegar no saguão pulou direto o balcão, querendo colocar o máximo de distância entre si próprio e o morto-vivo. Gritos ecoaram do lado de fora. O zumbi esbarrou no balcão com toda força, caindo no chão.
Levi Blackblood sabia o que fazer antes de chegar ao saguão e procurou rapidamente com os olhos o que precisava. Vidro, espelho, qualquer objeto cortante. O espelho do elevador parecia ser de metal polido. E não tinha outro no saguão. O dono do local era o mais mão de vaca entre as mãos de vaca. O que restava eram as janelas.
O zumbi o localizou novamente. E Levi sabia que não tinha muita escolha. Correu contra uma das janelas e usou toda a sua força em um murro. Os espectadores do lado de fora recuaram desesperados. A janela estilhaçou. Com um dos cacos restantes na janela, Levi rasgou sua mão dominante. Seu sangue escureceu assim que tocou o ar. O zumbi estava atrás de Levi. Tão próximo que quem viu a cena o considerou o Exterminador um morto. Os moradores do lado de fora faziam uma grande confusão tentando fugir. Agora seria dois zumbis fortes ao invés de um. O ar crepitou. As janelas tremeram e estilhaçaram quando uma lança escura como obsidiana surgiu da mão ensanguentada do Exterminador e perfurou a cabeça do zumbi.
A lança se desfez. E Levi foi tomado pela sessão familiar de exaustão extrema. Suas pernas enfraqueceram e ele caiu no chão atônito, com os ouvidos zumbindo e sua visão cheia de clarões vermelhos e embaço. Não estava preocupado de outro zumbi aparecer. Fechou os olhos e respirou profundamente. Aquela era a sina de um Exterminador. Uma mente calma, reflexos afiados, apatia congelante e exaustão debilitante no fim. Se aparecesse novos zumbis, se recuperaria como quem nunca se cansou e quando terminasse voltaria a esse estado. Olhou para sua mão suja de sangue. A ferida demorou a fechar. Aquilo não era normal para um Blackblood. Seu corpo estava exaurido. A última vez em que esteve exausto naquele ponto estava à beira da morte, perdido em um jardim estranho. Lembrava vagamente do cheiro floral da mulher que o salvará e talvez do brilho de uma fogueira.
Levantou os olhos ao ouvir o som de um Executor o chamando. "Está bem, meu lorde?". Levi achou que era isso que o soldado o perguntou. Balançou a cabeça. Estava sonolento e com fome, mas ainda tinha que terminar o serviço.
-Confira se ainda há zumbis no prédio.
Ordenou surpreendendo o homem à sua frente. Levi não vê o Executor sair. Como sinal de normalidade seu coração se encheu de um sufocante sentimento de raiva. Depois que descansasse um pouco teria um papo com o dono do prédio.
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Depois de se arrastar até uma das carruagens da guarda da cidade e tirar um cochilo, Levi voltou ao prédio.
Sua mão tinha finalmente curado e ele estava mais irritadiço do que nunca. Seu cochilo foi tão pesado que ele esqueceu que estava vivo e acordar ao som das batidas na porta da carruagem foi estressante. Isso sem contar a fome. Metade de seu humor foi engolido por seu estômago, temia Levi.
O saguão da caserna estava lotado. Metade da equipe de limpeza da guarda da cidade limpava o que restou do sangue e os cacos. Os corpos já tinham sido levados para o necrotério e a janela quebrada estava coberta por um lençol. Ainda faziam a contagem dos moradores enquanto a outra metade da equipe de limpeza procurava outros possíveis materiais biológicos, e focos de contaminação, do mortos pelo prédio.
Levi, com uma paciência à beira da inexistência, vai ao balcão, onde dois atendentes tentavam lidar com as demandas dos moradores. Ele não precisou falar nada, quem o via abria caminho. Metade era medo, metade era respeito, duas coisas que se misturavam com frequência quando o assunto era Exterminadores.
-Quero falar com o dono.
Avisou o Blackblood, ao chegar no balcão, a voz arrastada de sono e a cara fechada. Os atendentes olham um para o outro e o que parecia mais experiente entra para o corredor. Enquanto esperavam o secretário voltar, a moça que ficou no saguão, timidamente avisou:
-Meu lorde, o proprietário estava à sua espera.
-Por qual motivo?
Questionou Levi, mal humorado, mas tentando manter a educação. Dependendo do motivo que o proprietário estivesse procurando-o, Levi estava disposto a pegar leve com ele. A atendente constrangida responde:
-É… É por que quebraste a janela… Meu lorde.
-Ele pretende me cobrar é?!
Levi perguntou retoricamente. Um sorriso escapou de seus lábios. As presas em seus caninos pareciam particularmente afiadas para quem estava perto. Levi olhou ao redor e encontrou um Executor próximo. Como tinha perdido sua própria espada, precisava de outra para ser cobrado adequadamente. Ele gritou para o Executor:
-Ei! Me empresta sua arma.
-Meu lorde?
Questionou a atendente, os olhos arregalados de medo. O Executor parecia ter a mesma reação, o olhando meio desconfiado, meio confuso. Apesar do risinho, o humor de Levi já tinha morrido e sem paciência, ele ordenou:
-Me dê a arma.
Alguma coisa em sua voz intimidou o Executor, talvez a visão de sua proeza, ou o próprio fato de Levi ser um Exterminador, um soldado de alta patente, que o fez entregar a espada.
-Meu lorde, o proprietário o convida.
Avisou o secretário que tinha entrado para avisar o patrão, antes que a atendente pudesse interferir. Não que fosse fazer diferença. Levi sorri para a moça e entra junto com o secretário. Um homem com a cara ranzinza os esperava sentado em uma escrivaninha robusta, fumando um charuto e olhando arrogantemente. Levi perguntou-se o que passava na cabeça do proprietário, ele não tinha medo de morrer sufocado, fazendo aquele fumacê todo em uma sala que só tinha uma janelinha.
O escritório parecia estranhamente deslocado do resto do prédio. Talvez fosse melhor cuidado, possivelmente para convencer os clientes que o aluguel de uma kitnet no prédio valia a pena.
-Você sabe quanto custa uma janela de vidro em One Hall?
Questionou o homem, colocando banca, seu tom condescendente. Parecia um tipo de gente difícil de lidar. Levi ignorou o proprietário e simplesmente sentou-se em uma das poltronas em frente a escrivania. Desembainhou a espada. E olhou para ela, parecendo um pouco hipnotizado com seu brilho. O proprietário assustou-se internamente, suas sobrancelhas franzidas com confusão.
-Você sabe quais são as medidas de uma espada oficial?
Inquiriu Levi, ainda olhando a espada, que era fina, com um formato que lembrava uma agulha, e longa. Não era uma espada de corte, mas de perfuração, feita para matar zumbis, por isso era longa. Os guardas e soldados de One Hall eram treinados para usá-la com precisão. O próprio Levi a empunhou milhares de vezes.
O proprietário olhou para Levi confuso. Brandindo a espada e sorriu novamente, outro sorriso que não alcançava os olhos. Os olhos de Levi pareciam tão afiados quanto a espada em sua mão. Tocando a lâmina, Levi respondeu sua própria pergunta:
-Sem o cabo, estamos falando de um metro e vinte de comprimento.
-E?
Questionou o proprietário, engolido em seco.
-Por lei, os corredores de edifícios que moram ou trabalham mais de dez pessoas precisam de pelo menos dois metro e meio de largura. Quantas pessoas moram aqui?
Inquiriu Levi, sem muita paciência para continuar com aquela firula, embainhando novamente a espada. O homem sabia que estava errado, só não contava que seria descoberto. O proprietário, claramente sem aquele afinco inicial, respondeu:
-Não são tantas assim.
-Só no saguão há cerca de trinta. Trinta moradores. Se fossem infectados mal consigo conceber o tamanho do prejuízo da cidade. Seus corredores estão irregulares, por isso tive que quebrar uma janela, porque a minha espada bateu na maldita da parede. Eu nem consegui recuperar ela ainda. Você realmente quer me cobrar?
Levi ignorou a resposta do proprietário. Ele trabalhava como um cavalo, pior do que um talvez, para que não ocorresse um desastre como o da Vila Riggi. Eram horas sem dormir e sem comer, muitas vezes indo para casa coberto de sangue, para caras imprudentes e dado a espertinhos como o dono da caserna simplesmente decidir não obedecer uma regra de segurança. Lembrando disso, Levi se encheu de raiva e levantou-se de supetão. O que deu nele foi falta de sono. Batendo as mãos na mesa do escritório, Levi continua:
-Não vou pagar janela nenhuma. Não vou pagar um caco se quer. Você acha uma janela cara? Pois eu quero esse prédio reformado, com todos os corredores do tamanho certo. Se outra maldita horda surgir aqui, pode saber que você vai fazer parte dela, conseguindo escapar dela ou não!
Depois da ameaça, Levi caminha até a porta. Ele sabia que não era tão fácil assim reformar um prédio, mas pior era lidar com as hordas. Se outro Exterminador ou Executor sofresse o mesmo acidente que ele, era pouco provável que sobrevivesse. Antes de sair pela porta, Levi lembra que as janelas do térreo eram de vidro. Sem grade. Mais mal humorado ainda, ele virou-se para o proprietário e em um tom completamente hostil, ordenou:
-Ah! E coloque grades nas merdas das janelas!

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