Capítulo Um - O Exterminador Blackblood
Levi Blackblood Raven, de One Hall, começou a nova fase de sua vida com azar. Mal chegou a capital de One Hall e uma avalanche de tarefas saídas do esgoto, algumas no sentido literal, o afogou em uma rotina extenuante e irritadiça. Em três meses já estava tão estressado que rosnava para a própria imagem nas raras vezes que se via no espelho. Seus vizinhos vampiros, até os mais estúpidos, se escondiam quando o viam e até os humanos, aqueles tolinhos, sabiam que naquele homem não se encontrava nervos ou paciência.
Não que os humanos ousassem provocá-lo: Levi era um Exterminador. Uma alta patente militar em One Hall, dada aos especialista em extermínio de toda a espécie de confusento. Surgiu um grupo de vampiros serial killer?! Chame o Exterminador! Humanos aterrorizam alguma área com crimes violentos? Exterminador neles! Hordas de zumbis estão saindo do esgoto? O Exterminador mora na casa vinte do quarteirão!
Os vampiros também eram cautelosos. Eram menos medrosos do que os humanos, mas não tinham medo de um Exterminador apenas por ser um Exterminador. Se fosse um vampiro regulamentado e dentro da lei não tinha o que temer, mas o homem que morava na casa 20 do quarteirão não era apenas um Exterminador. Aquele era um lendário Blackblood! O Blackblood da vizinhança nunca se apresentou com seu título de nascença, mas todos os vampiros sabiam que aquele era um legítimo príncipe Blackblood apenas pelo cheiro doce e ligeiramente venenoso que emanava dele. E é uma informação óbvia em One Hall: não tem raça de vizinho mais fofoqueiro do que um clã de vampiros! Aquelas criaturas desocupadas espalharam até para os arbustos que Levi era um "Vossa Alteza Real".
A informação não chegou apenas ao arrogante dono da maior caserna do bairro. Os vampiros não gostavam dele, e talvez por malícia, não contaram o tamanho do problema que o Exterminador daquelas áreas poderia representar. E para o azar do homem, como se não bastasse a horda de mortos-vivos que se formou no fundo de seu prédio, o Levi que foi atender a uma emergência em sua propriedade foi o Levi faminto que dormiu três horas na noite anterior. Levi estava tão cansado que o velho teria conseguido escapar se tudo tivesse ocorrido bem.
No início, tudo aconteceu nas normalidades. Levi chegou, conversou com os guardas para conseguir informações, espantou uns civis abusados que queriam porque sim entrar em um prédio infestado de zumbis e entrou no saguão bem iluminado, ficando até um pouco feliz, afinal, se as luzes estavam acesas a evacuação dos moradores ocorreu bem. Enfrentou dois zumbis de uma vez ainda no saguão. Não teve muita qualquer reação emocional paralisante. Não sentiu medo, terror, nojo ou qualquer coisa que o fizesse querer dar a volta e fugi. Sentia repulsa, e sabia que aquilo a sua frente não era mais um pessoa, era uma abominação, algo a ser exterminado. Aqueles eram seus instintos como Exterminador tomando conta. Não sentiu nenhuma frenesi, apenas uma calmaria, como se não corresse nenhum risco. Um era um pré-adolescente. Parecia sua sobrinha quando tinha aquela idade, e apesar de sua sobrinha ser imune a zumbificação, aquilo o deixou de mau humor. Para piorar seu humor, outro zumbi chegou perto o suficiente para tocar seu rosto, sujando-o de sangue. Após limpar o rosto, e com o mau humor de quem viu uma fossa aberta, ele fez o que qualquer pessoa normal faria nessa situação: passou um sermão nos civis barulhentos na calçada. Falou, falou e falou até a língua pesar e o peito ficar leve. Ignorou os olhares de choque e o silêncio sepulcral do qual considerou adequado para a situação, satisfeito, voltou para o saguão.
Havia um elevador com uma escada ao lado e um corredor para as kitnets do térreo. O porta chaves atrás do balcão de madeira estava quase vazio. Os moradores tinham fugido pelas saídas de emergência após o porteiro ouvir a comoção das primeiras vítimas e tocar as sirenes de emergência. Todo prédio que era frequentado por humanos tinha duas sirenes. Uma para incêndio, outra para zumbis. E as pessoas eram educadas a diferenciá-los desde pequenos. Olhando para as opções, Levi ficou na dúvida de para onde ia. O elevador estava aberto, e raras as vezes que caiam zumbis no fosso de um elevador. Geralmente, a queda os quebrava antes. Qualquer cadente daria conta. Até o faxineiro daria conta, se fosse corajoso o suficiente. E de qualquer modo, só seria possível saber se faltava algum zumbi depois da contagem de moradores e de mortos, e Levi já estaria dormindo em sua casa quando os Executores terminassem.
Parou para prestar atenção ao som. Não tinha muito barulho vindo de cima. Levi procurava principalmente barulhos de batidas e tropeções, assim como zumbidos e grunhidos. Ouviu o som de vidro esmagado ao longe, no fundo do corredor. Procurou por sinais de zumbis, mais especificamente por manchas de sangue. Nas escadas não havia sinal de sangue, uma gotinha sequer. Sua natureza como Blackblood o fazia sensível a presença de uma mínima gota de sangue e zumbis espalham sangue por todo lugar, nas paredes, nos pisos, alguns até no teto. Por outro lado, o odor de sangue oxidando era óbvio no ar saindo do corredor. Sangue novo tinha um cheiro parecido com o de clara de ovo. Suave, biológico e ligeiramente nauseante,e quando envelhecia em contato com o ar e em temperatura ambiente, adquire tons ferrosos, até finalmente se tornar um fedor propriamente dito. Os mortos do prédio eram zumbis novos, portanto, não fediam a putrefação, mas aqueles que tinham atacado ou que foram atacados cheiravam a sangue. Considerando como seu dia tinha começado, Levi temia que poderia ter que lidar com algum zumbi que foi atacado na região do abdômen, daqueles que tropeçava nos próprios intestinos, e espalham mais do que sangue ao andarem, para o horror de todos que os viam.
Considerando que o guarda lhe tinha dito que os dois primeiros zumbis foram espontâneos e o terceiro foi o entregador de leite e de quão próximo estava do posto de trabalho do porteiro, decidiu pelo corredor.
Ao entrar no corredor, Levi imediatamente sentiu algo de estranho. Não soube o que era, mas alguma coisa estava errada. Olhou para o teto. Normal, sem nenhuma surpresa desagradável. Olhou para suas costas. Nenhum zumbi estava atrás dele. Continuou a andar o mais silencioso possível. Com o cheiro e a figura do morto vivo no corredor ficando mais próximo, o aperto no coração de Levi aumentou. Não tomava susto com zumbis e espaços apertados não o incomodavam, mas um medo estranho se esgueirava dentro de suas veias. Olhou rapidamente para trás. Nada. Nas suas costas não tinha nada. Nem no teto sobre ele. A figura do zumbi ficou clara. Era um homem jovem. Tinha sangue empoçado sob seus pés e metade do rosto estava destruído, assim como parte da garganta. As roupas pareciam brancas e azuis um dia, mas não escondiam o corpo ligeiramente atlético. Aquele era pior tipo de zumbi: do tipo que corria.
O morto virou para Levi.
Levi desembainhou a espada, seu brilho prateado cortando o ar, então ela afundou na parede, se prendendo lá.

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