Capítulo Três - Só se você quiser
Levi não lembrou nem de tirar os sapatos ao chegar em casa.
Para o desespero de seu mordomo William. Que se desesperou, mas não ficou surpreso. Olhou para o patrão apagado em sua cama, e ficou um pouco aliviado por que pelo menos as botas imundas dele estavam de fora. William tirou as botas de Levi e suspirou. Ele foi mordomo da mãe de Levi, e sua falecida esposa preceptora do segundo príncipe. O viu crescer e não entendia como aquela criança tímida cresceu para se tornar um Exterminador obcecada por matar zumbis. Fechando a porta do quarto, William faz seu papel rotineiro de relatar ao Imortal como seu filho estava. Éden Blackblood não se importava que seus filhos saíssem de casa, mas não era desapegado a ponto de não se importar como eles estavam e o que estavam fazendo. Era um pai vigilante. O próprio Levi sabia que seu mordomo e seu pai trocavam cartas sobre como ele vivia, e ele próprio relataria sua vida ao seu pai, se tivesse tempo. Afinal, seu velho tinha quatrocentos anos, era difícil não ter um problema que ele não conseguisse resolver. Em suma, Levi era o famoso nada a dever, nada a temer.
William escreveu seu relato do dia, enquanto Levi era assombrado novamente pelos sonhos de sua quase morte. A dor em seu pescoço dilacerado, seu sangue vertendo e esfriando por entre seus dedos e sua respiração falhada pareciam tão reais todas as noites como se estivesse acontecendo novamente. Sua visão falhava quando uma figura branca e laranja aproximou-se dele. Sabia que era uma mulher. O cabelo era liso e brilhante, incandescente, laranja como o pôr do sol. Ela curvou-se sobre ele e segurou seu rosto com as duas mãos, que pareciam queimar a pele dele. Levi lembrava particularmente do cheiro, era algum tipo de combinação de especiarias e emanava do cabelo dela. Não conseguiu distinguir as características do seu rosto. Estava escuro e aquela era uma madrugada sombria. Os olhos de Levi falharam com ele.
Os grilos ainda cantavam e as cortinas de seu quarto exibiam um tom ligeiramente azulado, típico do amanhecer.
Levi não levantou da cama imediatamente. Sentia-se algo próximo de amassado. Nunca soube se a mulher do seu sonho realmente era real. De fato, quase morreu aos quinze anos, quando inventou que era forte o suficiente para caçar um vampiro que aterrorizava a região onde morava, mas seus poderes na época estavam longe, muito longe do auge. Sua peripécia causou-lhe uma cicatriz da base da mandíbula até a clavícula originadas pelas garras do vampiro, que não ousou mordê-lo, e fugiu. Desmaiou encostado em uma árvore e foi resgatado por seu pai. Quando perguntou sobre a mulher não teve respostas. Poderia ter sido um delírio. Provavelmente era um. Afinal, depois disso suas habilidades regenerativas finalmente começaram a se manifestar. Levi se prometeu que investigaria, mas não teve tempo. Aquele foi um ano difícil. Muito difícil.
Depois de olhar para a estampa do dossel o suficiente, Levi levantou. O dia ainda começava timidamente. O céu brilhava com as sete cores do arco íris, parecendo uma bolha de sabão sobre suas cabeças, um acontecimento normal em One Hall. Como seu humor estava estranho, Levi comeu no jardim. Os pássaros cantavam lindamente e William serviu o café. Era finalmente seu dia de folga do trabalho como Exterminador. E parecia um bom dia para tocar harpa, ou violino ou piano. E ler um livro. Ou dois. Talvez dormir no jardim, embaixo do dossel, é claro, para os pássaros não embranquecer sua cabeça. Enquanto pensava o que faria e mordia seu pão com ovo, William trouxe um convite.
-Acabou de chegar, meu senhor.
O mordomo ofereceu o convite em uma bandeja, junto ao abridor de cartas. Pela cor vermelha escura e o símbolo de foice preto e branco no selo Levi já sabia que era uma carta de seu pai. Levi largou o pão e limpou os dedos antes de pegar e abrir a carta. Seu pai não enviava cartas de manhã cedo. Talvez ele estivesse bravo por causa do proprietário de ontem ou apenas querendo explicações, Levi ainda não tinha mandado nenhum relatório. Ao ler o conteúdo, as sobrancelhas de Levi se levantaram de surpresa.
-Vamos entrar no palácio hoje, William.
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No palácio, Levi encontrou seu irmão Zachary pendurado de cabeça para baixo, em um corrimão.
Sua irmã mais velha, Peony, e a esposa de Zachary, Lucy, olhavam o Blackblood primogênito fazendo cosplay de morcego pingando reprovação com os olhos. Levi nem piscou. Aquela cabecinha de Zachary realmente precisava de uma oxigenação maior. Ele apenas passou direto, como se não tivesse visto, o que resultou na indignação imediata das três pessoas.
-Você não vai perguntar nada, não?
Inquiriu Peony, que tinha se empreendido a convencer Zachary a sair dessa pose junto a Lucy. Levi parou e olhou para sua irmã. O cabelo parecia ouro, cintilando na luz. Peony era gêmea de Zachary e o conheceu antes dele ser acometido com seu estado atual, diferente de Levi, que nasceu e cresceu conhecendo o atual Zachary. Lucy, por outro lado, era beneficiada com a pouca razão que tinha na cabeça do homem com o qual escolheu se casar. Pacientemente, Levi replicou:
-Quando eu começar a me importar com as maluquices que dão na cabeça de um vampiro, é sinal da minha própria loucura.
-Você chamou nos três de loucos, Levizin?
Perguntou Zachary, franzindo as sobrancelhas. Ele realmente tinha uma cabeça confusa, mas ouvir isso de outro era outra história. Levi sequer piscou, apenas acenou com a cabeça. Aqueles três eram malucos, duas casaram com um vampiro (não o mesmo vampiro, evidentemente) e um era de fato um vampiro. Pior, foi o primeiro vampiro. Zachary era tratado paliativamente, e para manter a sanidade, tendo uma vida minimamente normal, não podia triscar em sangue, se não ele perdia todo o senso de humanidade, dependendo da quantidade que ingerisse, por anos ou meses. Essa loucura foi o que espalhou um monte de vampiros em One Hall e Zachary, ao voltar a consciência, tomou para si a responsabilidade de mantê-los sob controle. O tratamento que funcionava com ele, funcionava com todos os outros de sua raça. Contudo, os vampiros eram todos loucos em algum nível.
-Não está preocupado?
Questionou Lucy, muito ofendida. Tudo bem, ela casou com um vampiro por vontade própria, mas sentiu que Levi estava sendo um pouco gratuito. Peony, desgostosa, se arrependeu de ter tentado recrutar o segundo para a causa. O segundo irmão nunca dava trabalho ou se dava o trabalho, principalmente quando o assunto era vampiros. Se fosse um damphir, ele até tentaria.
-Ele que se colocou nessa posição, o que eu tenho a ver com isso? Se cair… Não vai morrer. E já é birulele das ideias mesmo.
Respondeu Levi, dando de ombros e continuando seu caminho. Zachary ficou tão chateado de ter sido chamado de birulele que desceu de sua posição. Colocando a mão nos quadris, ele teve a pachorra de dizer:
-Vocês já olharam para uma pessoa e pensou: que bom é humano?
Lucy e Peony se olharam consternadas. Depois olharam para Zachary. De fato, seria muito bom se aquele vampiro dramático e carente fosse humano.
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Levi chegou ao escritório de seu pai, e ao entrar, viu seus avós sentados no sofá. Melhor, seu avô largado no sofá, enquanto sua avó trançava o cabelo dele. Era certamente uma forma avançada de intimidação. Levi só não sabia se era seu pai que estava sendo intimidado ou se era seu avô. Era um dos dois.
-Ora, ora. Levizin está atrasado.
Comentou a vovó, no auge dos seus quatrocentos e vinte e cinco anos, com um sorriso que seria fofo em qualquer outra pessoa. Os olhos pareciam conter um arco-íris, brilhando com sete cores. Os avós de Levi eram Imortais, portanto sua aparência parou de envelhecer aos trinta anos. Eles pareciam mais irmãos de Éden do que os pais de fato.
-Sabia que Zachary estava pendurado?
Perguntou Levi, cumprimentando os avós e posteriormente seu pai, e sentando-se na cadeira à frente da escrivaninha. Seu pai sorriu para ele e respondeu:
-Imagino que sua língua afiada conseguiu tirá-lo de lá.
-Não sei, sai antes da conclusão. Ah! O proprietário do estabelecimento que trabalhei ontem precisa ter seu alvará de funcionamento cancelado. O prédio está irregular e eu perdi minha espada lá.
Informou Levi, aproveitando para não precisar escrever uma carta ou relatório. Éden nem move as sobrancelhas, apenas carimba o papel embaixo dele e pergunta:
-Ele te irritou, foi?
-Talvez.
Respondeu Levi, dando de ombros. O proprietário estava errado e sabia, e Levi era pouco empático com quem dificultava seu trabalho. Éden também não se importou, iria investigar tudo adequadamente, mas Levi geralmente tinha o crédito de não arrumar confusão à toa. Pelo menos nos últimos dez anos, ele não tinha arrumado nenhuma encrenca injusta. E o Éden sempre era o segundo a saber, o que o fazia se agradar grandemente daquele filho dele. Os outros três eram uma caixinha de surpresa. Só tinha um grande problema com Levi, do qual Éden logo o confrontou:
-Não está comendo direto. Nem dormindo direito.
-Estou sem tempo. A todo momento surgem hordas, não sei o que está acontecendo.
Respondeu Levi, um pouco encabulado. Ele tinha sorte de ter o William, afinal, era negligente consigo mesmo e não tinha como retrucar.
-A barreira está enfraquecendo, porque seu pai foi ganancioso.
Interrompe a avó de Levi, e mãe de Éden, dando uma olhada desaprovadora para Éden. A barreira de Qixing era formada e mantida pela mãe de Éden, a poderosa Elena Blackblood, princesa do império Xing. Levi, suspirou ao retrucar:
-Mãe… Humanos se reproduzem rapidamente, como eu ia saber que a população cresceria tanto nos últimos vinte anos?
-O problema não são os humanos e os filhos dele, é você não ter nenhuma prole nova. Seu sangue é o que mantém a barreira.
Replicou Elena, cruzando os braços. Ela já tinha falado tantas vezes sobre isso com Éden que já estava cansada. Tinha que suportar a separação e a obsessão de Éden por aquela terra maldita, assim como a frustração de ver seus netos nascerem e crescerem ali, mas mesmo assim fazia o que podia para ajudar seu primogênito. Ela não tinha muitas permissões para interferir na Terra dos Mortos, mas era permitida cuidar dos próprios descendentes.
-Estou de luto, mal tem vinte anos que minha esposa morreu.
Argumentou Éden coçando a cabeça. Levi por outro lado só observava. Ele sabia que aquela conversa chegaria até ele, seria sobre ele e sobraria para ele. E antes que os anciões tivesse oportunidade, o próprio Levi concluiu em voz alta:
-Querem que eu case e tenha filhos.
Éden o encarou. A mãe de Levi, Eva, era a sua falecida esposa. Ela morreu quando Levi tinha cinco anos e o Abraham três, por algum tipo de doença inesperada. Ninguém sabia o que foi, apenas que foi súbito e doloroso. Éden não tinha se recuperado ainda. Ele levou duzentos anos até se dar uma chance a um novo relacionamento e se daria mais duzentos se possível. Olhando para o seu segundo príncipe o olhando, Éden sentiu-se pouco disposto a casá-lo em seu lugar e respondeu:
-Só se você quiser.
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