Capítulo Quatro - Os Blackblood procuram uma noiva.
Ginger Garden olhava para sua irmã adubando o jardim com consternação. Suas narinas ardiam, enquanto ela segurava o saco de fertilizante. Aquele cheiro azedo de dejetos, frutas podres e terra era terrível. Choraria se pudesse, mas estava nauseada com o cheiro. Ela até vomitaria, se não tivesse que limpar depois. Ginger se assumia uma jovem donzela fresca. Muito fresca. Não queria saber de coisas feias, podres ou fedorentas. Ninguém que tivesse a mente no lugar gostaria, mas para Ginger era pior! Não sabia lidar com elas, apesar de praticamente ser uma exigência da vida para qualquer adulto independente. Vermes a faziam tremer, buracos pequenos e escuros causavam arrepios e não comeria qualquer comida que a lembrasse minimamente o que se fazia na latrina. No fim, Ginger ainda lidava com tudo isso com as poucas e parcas forças mentais que tinha, algumas vezes chorando.
Se pudesse fugiria, mas não podia, porque devia um jardim à sua irmã. Ela não lembrava quando, mas destruiu o jardim que Beverly plantou pessoalmente, planta por planta. Todo mundo disse que foi a Ginger, então ela assumiu o BO. Com uma careta constante, um choro preso nos olhos, mas a honra intacta.
Beverly terminou de afofar a terra e tirou as luvas de couro. Olhou para sua irmã gêmea mais nova. A cara era a de sempre. Um bico que não tinha mais tamanho, os olhos violetas cheios de lágrimas contidas, segurando o saco com força, o mais longe que seus braços conseguiam do tronco. Beverly suspirou. Conhecia Ginger, suas limitações, e já tinha a liberado de ajudar nessas tarefas mais difíceis, mas sua irmã insistiu. Resmungou algo sobre honra e tal. Chorou que tinha que crescer. Comparecia, sempre com cara de choro, a contragosto, mas comparecia.
-Terminamos.
Avisou Beverly, levantando e secando o suor das mãos no avental.
-Oh! Graças a Deus!
Comemorou Ginger, os olhos brilhando, e já arrastando o saco de fertilizante até a parede. Ela o fechou. Tirou as luvas e colocou no gancho. Tirou rapidamente o avental, o pendurou no lugar devido e lavou as mãos na bica d'água do quintal. Fez tudo tão rapidamente que parecia que tinha tocado nos dejetos com as mãos sem luvas. Olhou para o lado e viu sua irmã mais velha Soul, a olhando, com os braços cruzados e a cabeça encostada na coluna da varanda. O cabelo branco, como o de Ginger, caindo sobre os seus ombros e escorrendo até os quadris parecia prata derretida. Os olhos de Soul, assim como os de Ginger eram violetas. Soul parecia mais gêmea de Ginger do que Beverly, que tinha olhos verde folha e cabelos ruivos.
Ginger sinceramente não sabia o que pensar sobre aquele olhar. Era julgamento? Soul só estava olhando? Sua irmã tendia a não esconder seu questionamentos e gentilmente perguntou:
-Como você vai sobreviver ao serviço militar assim?
Ginger corou. Sua data de alistamento estava prestes a vencer. Diferente de suas irmãs, ela adiou o máximo que conseguiu para sua ida ao exército. Apesar da vida calma que aqueles dentro dos muros e da barreira levavam, a humanidade estava em guerra, lutando para sobreviver com toda força de vontade que tinha. Era obrigatório em One Hall servir ao exército, tanto para homens como para mulheres a partir dos quinze anos. Serviam obrigatoriamente três anos e depois poderiam seguir qualquer carreira que conseguissem. Muitos continuavam a carreira militar, assim como as duas irmãs de Ginger. Soul era uma Sombra, do Esquadrão de Exploração, e Beverly era uma Exterminadora, do Esquadrão Cívico. A família de Ginger tinha uma longa tradição militar. Seu pai foi uma Sombra, e alcançou tantos feitos meritórios que conseguiu o titulo de Conde. O único jeito de Ginger fugir do serviço militar era casando. E ela estava bem longe de alcançar esse feito.
-Talvez o papai consiga uma isenção.
Retrucou Beverly, jogando suas luvas em cima do saco de fertilizante. Realmente, sua irmã não tinha temperamento para o exército ou para luta, dificilmente sobreviveria a qualquer ataque, mas o pai delas era um nobre meritório. Ginger era linda, e muitos homens já tinham se interessado por ela, mas Beverly e toda família estava indisposta a casá-la com qualquer um que aparecesse apenas para evitar que ela fosse ao exército. Afinal, casamento era coisa séria. Servir o exército era melhor do que o homem errado. Se até a princesa de One Hall passou maus bocados por causa de seu ex-marido, imagina Ginger?! Beverly estava pouco disposta a ver isso. Se fosse preciso ela adiaria sua aposentadoria iminente por três anos, trocando de lugar com sua irmã. Afinal, Beverly era de uma patente raríssima, seu serviço seria muito melhor do que qualquer cadente medroso e atrapalhado.
-Pouco provável. Nem os filhos do Príncipe receberam isenção. Ele não daria a isenção para a filha de um amigo.
Respondeu Soul, sem muitas esperanças. Soul também não queria que sua irmã se casasse com qualquer um, mas não acreditava que o título do pai resolveria as questões. Nem seus serviços meritórios. A tradição de todos, homens e mulheres, servirem e lutar no exército era para treinar a população para um eventual ataque e marcar na memória a lembrança do mundo em que eles viviam. Aquela era a Terra dos Mortos, e eles a dominavam.
-Então vou trabalhar um pouco mais.
Suspirou Beverly, colocando a mão na cintura. Ela não tinha medo dos mortos, e não corria o risco de ser ferida por eles. Era uma máquina de finalizar mortos. Era isso que um Exterminador significava. Obviamente, Beverly gostava de coisas bonitas, o que significava que ela não queria ficar vendo criaturas apodrecendo, órgãos pendurados ou o terrível odor que acompanhava as hordas e seus membros. Porém, nada disso se comparava a vida e saúde de sua irmã.
Ginger, por outro lado, não queria que sua irmã continuasse no exército. Apesar de saber quão poderosa Beverly era, ela também sabia que sua irmã gostava de uma vida pacata e tranquila, amava as plantas e de cuidá-las, comer doces e chás em tardes chuvosas enquanto lia livros de temas botânicos. Beverly sequer tinha resolvido o problema com seu próprio noivado para conseguir se aposentar mais cedo, não tinha como Ginger ficar parada e simplesmente aceitar que ela atrasasse sua vida assim.
-Meninas...
-Mamãe.
As três jovens falam ao mesmo tempo, ao vê uma mulher, usando um avental marrom e com o cabelo loiro morango, mais rosa do que loiro, aparecer na porta do quintal. Suas orelhas eram pontudas e longas e seus olhos violetas, como ametistas, pareciam conter um brilho antigo. Ela sempre parecia extremamente confortável com o resto. Eram as orelhas? Talvez o olhar ancião? A "mamãe" parecia sempre que era a bisavó impaciente com todos os adultos que encontrava. Afinal, ela parecia uma fada, um Imortal entre os meros mortais.
-Seu pai as chama.
Respondeu "mamãe", com um sorriso. As três entram dentro de casa, tiram as botinas e colocam pantufas.
Elas atravessam a casa, em direção ao escritório do "papai". A casa era de dois andares, mas seus pais viviam no andar térreo. O Conde Garden perdeu parte da perna direita na guerra, portanto sua mobilidade era difícil. Ele tinha uma ou duas próteses de madeira, mas eram desconfortáveis e inadequadas para o dia-a-dia, então se movimentava com uma cadeira de rodas pela casa e raramente saía para a cidade. Os Garden mudaram de casa após o pai perder a perna. A outra casa era apertada e cheia de más lembranças corrompendo as boas.
Ao chegar ao escritório bateram na porta. Logo a voz de seu pai surgiu convidando-as para entrar. O Sr. Garden estava na poltrona, perto da janela, tomando sol, com a perna esquerda em cima de um banco redondo. Seu cabelo curto parecia uma nuvem, de tão branco, refletia a luz do sol, quase incandescente. Rugas discretas começaram a aparecer no canto dos seus olhos. A cadeira de rodas estava do seu lado.
Com um sorriso rápido e satisfeito, ele as convidou para sentar no sofá. A mamãe foi sentar na escora da poltrona, do lado sem sol. O Conde segurava uma carta nas mãos. O lacre aberto era vermelho escuro e parecia ter a forma de uma foice com um corvo. Era o símbolo Blackblood.
O sr. Garden levanta entre os dedos um maço de papel entre os dedos.
-Recebi isso hoje.
Começou o Sr. Garden, com um meio sorriso nos lábios. Nenhuma das meninas esboçou reação. Seja lá o que fosse seria explicado. Afinal, o papai era amigo íntimo do Príncipe Regente, não era tão anormal que ele recebesse cartas daquela parte.
-É um pedido de casamento. Estão oferecendo a mão de Levi Blackblood em casamento.
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