Capítulo Cinco - Os Garden aceitam um noivo.

 Explica o Sr. Garden, sem muitas firulas e finalmente conseguindo uma reação. Os olhos de Soul e Ginger se arregalaram. Beverly abraça uma das almofadas.

-Outro?

Questiona a Sra. Garden, as sobrancelhas franzidas. Uma de suas filhas já era noiva de um dos príncipes  Blackblood. Um príncipe "sumido", inclusive. Pela Sra. Garden, o noivado de sua filha já teria sido terminado completamente, mas o Sr. Garden e Beverly argumentaram que Abraham Blackblood seguia uma carreira militar de Elite, ele era um Exterminador de fronte, do lugar mais distante e insalubre da humanidade " A fronteira". A comunicação de lá para cá era realmente difícil. Afinal, uma das profissões mais insalubres e perigosas de One Hall era a de carteiro mensageiro.  Contudo, a Sra. Garden desconfiava que o motivo pelo qual Abraham estava no fronte foi o Incidente de Vila Riggi. De qualquer modo, para ela era uma palhaçada que os Blackblood pedissem a mão de outra de suas filhas antes de resolverem o que seria feito do noivado anterior. Porventura, as jovens solteiras estavam em falta na Capital? Ou tinha algo de errado com esse príncipe soturno? A segunda opção era mais provável. 

-Aparentemente Abraham ainda não voltou do fronte. O noivado dele com Bev não poderá ser dissolvido. E há uma súbita necessidade de casarem um Blackblood de segunda ou primeira geração.

Continuou Sr. Garden, sem muitas surpresas com a hostilidade de sua esposa sobre esse assunto. Não tinha como defender os Blackblood sobre o "sumiço" de Abraham, apesar da própria Beverly tentar. Claro, Éden Blackblood já tinha liberado a dissolução compulsória do contrato de noivado a liberdade da própria Beverly. O noivado já teria sido finalizado se ela quisesse, mas o Sr. Garden sabia que o que sua filha mais sentia era culpa. Abraham e Beverly estavam em um terreno complicado desde seu último encontro. 

-Não tem mulheres na capital, não?

Questionou a Sra. Garden, o que estava preso na sua garganta. Apesar de conhecer Éden Blackblood , inclusive seu avô ser primo da mãe dele, a criação de filhos não é uma equação exata. Uma pessoa boa não necessariamente teria um filho bom. Assim como um filho bom não necessariamente teria pais bondosos, a exemplo de seus próprios avós maternos eram filhos bons de pessoas más. O fato do irmão mais velho de Abraham precisar de um casamento por contrato não testemunhava a favor dele. Afinal, era um príncipe, rico e poderoso. Possivelmente bonito, afinal nenhum dos Blackblood, nem aquele vampiro ancestral, eram feios. Não tinha mulheres interessadas nele? Por que as famílias nobres não tentaram casar com ele? O que exatamente significava aquele apelido "o soturno" e quem o deu? Era um homem difícil? Era desagradável?  Nada disso passava confiança a Sra. Garden. 

-Aparentemente, a noiva em questão precisa fazer parte dos Imunes. Não pode ter sangue amaldiçoado. Nossa família é totalmente Imune. Uma das poucas famílias nobres que não tem raízes entre os amaldiçoados. 

Explicou o Sr. Garden, coçando a cabeça. 

Aquele era um continente amaldiçoado, a Terra dos Mortos, como pessoas de outros continentes chamavam. E a maioria das pessoas nativas da Terra dos Mortos eram amaldiçoadas a vagarem depois de morrer. Pior, a atacarem e caçarem pessoas vivas. Uma pequena minoria de nativos era imune à maldição, alguns dos quais sequer eram vistos pelos mortos. Anciões, de todas as partes do mundo, diziam que a maldição do Continente Morto aconteceu por causa de um enorme massacre de Imortais, uma raça humana que vive milênios, e que sempre foi muito perseguida  em todos os continentes por conta de seus dons especiais, para que humanos comuns  vivessem séculos a mais. A situação escalou a tal ponto que os Imortais foram extintos da Terra dos Mortos e até muitos humanos comuns, aqueles que eram contra o genocídio, foram sacrificados em favor dessa "causa". Em algum momento os mortos começaram a reanimar. E os participantes do massacre e seus descendentes conseguiam ouvir em seu interior a maldição ecoando. Todos os que tinham sangue inocente em si foram condenados à morte eterna. Aqueles que não sabiam o que estava acontecendo, aqueles que esconderam Imortais e perseguidos e aqueles que lutaram contra o genocídio foram poupados da morte eterna. Em especial, os opositores à Grande Causa se tornaram invisíveis aos mortos. Sr. Garden era descendente de um deles. Era imune a segunda morte e invisível aos mortos, exceto se desejasse que o visse. A Sra. Garden, era ainda mais especial. Apesar dos mortos conseguirem vê-la, poucas vezes eles representavam um perigo real para ela. Era um Imortal, filha de Imortais, princesa de um continente distante. Portanto, as filhas da família Garden também eram imunes.  

-É uma exigência muito específica. 

Comentou a Sra. Garden, as sobrancelhas cor de rosa franzidas.  Era de fato muito difícil que achassem esse tipo de grupo facilmente na capital. A população de One Hall não era tão grande para considerarem a "pureza" do sangue. Se começassem uma palhaçada dessas em One Hall, a humanidade morreria. Isso sem contar as consequências de juntarem sangues parentes. A Sra. Garden não estava preocupada com seus netos porque seu avô era primo da mãe de Éden, uma parentela ligeiramente distante, isso se fossem parentes realmente. Se eles fossem de qualquer outra espécie, os filhos mais novos de Éden possivelmente seriam da mesma geração da Sra. Garden. Porém, eles eram Imortais. E os Imortais tinham filhos da idade de seus trinetos com frequência. Os filhos mais novos de Éden tinham a mesma idade de sua sobrinha, que tinha a mesma idade que as jovens Garden. 

-Sim, parece que a barreira Qixing depende do sangue Blackblood ser o mais idôneo possível e Éden não conseguiu cumprir muito bem essa exigência. 

Continuou o Sr. Garden. E a Sra. Garden concordou:

-Ele casou com mulheres nativas três vezes. 

-Ele poderia casar de novo.

Comentou Soul, cruzando os braços. Se Éden Blackblood decidisse casar, os filhos deles estariam livres, afinal, ele era quem mais tinha sangue Blackblood na Terra dos Mortos, e ele era a pessoa mais poderosa de One Hall. 

-Segundo ele, está de luto. 

Comentou a Sra. Garden, sem grandes expressões. Soul, muito interessada em seus pais convencerem o Sr. Blackblood a casar novamente, assim ela e sua irmã ficariam livres, questionou:

-Há vinte anos?

-Sua mãe vai ficar mais ou menos isso. 

Informou o Sr. Garden rindo levemente. A filha tinha esquecido como eram os Imortais e quanto tempo viviam. Para Éden, quanto mais ele envelhecia, mais as décadas pareciam curtas. Quando ele tinha cem anos, vinte anos ainda era um tempo razoável, agora que ele tem quinhentos anos, 20 anos e dois anos eram equivalentes. Esse era outro motivo pelo qual ele não casaria tão cedo novamente: vinte anos era uma pirralha, trinta anos um jovem mulher, mas para os humanos trinta anos já é uma mulher adulta formada. A Sra. Garden por outro lado resmungou: 

-Se você não me der trabalho... 

-Eu já te dou trabalho. 

Retrucou o Sr. Garden, apontando para a perna direita, o que restou dela. Depois de dez anos sem parte da perna ele conseguia fazer piadas sobre a situação. Coisa que era inimaginável no início. Caiu de um homem poderoso e extremamente ativo para alguém cheio de limitações e com uma necessidade quase constante de suporte, e sua própria aceitação foi difícil. Queria chorar toda vez que via sua esposa e suas filhas, ainda muito jovens, se adaptando e fazendo atividades que eram dele. Chorou quando viu as bolhas na mão de Soul enquanto ela começou a cortar madeira. Beverly quase perdeu uma unha enquanto consertava o telhado. Ginger aprendeu a cozinhar, ela era tão pequena que tinha que subir em cima de um banco para mexer a comida, isso sem contar os cortes em seus dedos. A Sra. Garden foi lutar pelos direitos de aposentadoria do Sr. Garden. Hoje eles tinham condição de contratar empregados, mas ainda era difícil. A casa teve que ser toda readaptada e sua mulher e filhas começaram a assumir tarefas que se tornaram impossíveis para ele e o Sr. Garden passou a assumir outras tarefas dentro de casa. Ajudava na cozinha, ganhou uma bancada de trabalho onde conseguia fazer consertos e treinava tiro ao alvo, só pra caso precisasse. A prótese de madeira ficava pendurada na cadeira de rodas. O Sr. Garden sabia que seu iminente envelhecimento pioraria a situação. Sua esposa não envelheceria com ele, seria o primeiro a partir na família e em alguns momentos sentia-se feliz com isso. 

-Éden é viúvo de uma mulher jovem. Eu vou ser viúva de um homem velho. Muito velho.

Argumentou Sra. Garden, seu humor piorando. Ela odiava quando ele começava com esses papos mórbidos, mas o Sr. Garden continuou:

-Nunca se sabe.

-Isaac! 

Reclamou a Sra. Garden, rangendo os dentes. Seu marido não era muito otimista quando o assunto era o envelhecimento dele. Justo, ele fazia parte do imunes, mas envelhecia no tempo comum. A Sra. Garden odiava quando ele o lembrava disso. 

-Sim, sim! Vou viver até você começar a desejar que eu morra. Muito velho. Vou ver meus trinetos. Feliz, linda Eleonora?!

Cedeu Isaac Garden, com um suspiro. Eleonora Garden grunhiu em resposta. As três filhas de ambos só ficam olhando em silêncio a cena. Beverly, com braços cruzados chama  a atenção de seus pais:

-Pai e mãe, que tão pararem de flertar? Temos que decidir quem vai casar. 

-Eu não quero casar com um Blackblood!

Bradou Soul, antes que alguém perguntasse. Todos sabiam que Soul tinha um sonho esquisito, para não dizer obsessão, por reencontrar seu primeiro amor. Um vizinho alguns anos mais velho, que podia muito bem ter continuado a vida. Os Garden tentaram conversar com ela sobre manter esperanças sobre ele, mas Soul só desistiria depois de vê-lo. A família Garden parecia ter uma veia romântica fortíssima. Afinal, Beverly  esperava o noivo dela voltar para resolver as coisas há cinco anos. E Soul ainda estava interessada em sua paixonite de pré-adolescência. Era algum tipo de rigidez mental compartilhada por todas elas. Beverly por outro lado, retrucou:

-Não acho que a Ginger seja uma boa escolha para esse assunto. 

-Por quê? Eu tenho que casar, ou vou acabar no exército. 

Questiona Ginger, quase pulando do sofá. Eleonora e Isaac se olham consternados. A mais nova de fato corria o risco de ir para o exército e não voltar. Era segredo entre os três que ela pediu ao pai para procurar um marido para ela. Isaac não se sentiu muito confortável com isso e foi procrastinando até que Éden mandou sua proposta. 

-Ele tem o apelido de soturno. Você quer um homem apelidado de soturno?

Replicou Soul, os olhos violetas arregalados. ela não suportava a ideia da sua irmã se enlaçar em um casamento arranjado. Aquela era a Ginger. Um homem frio a deixaria confusa e estressada. Ginger por outro lado, já tinha comprado a ideia de casar com o sombrio sei lá o que, e pergunta:

-O que tem? 

-Soturno, melancólico, tristonho, taciturno.

Respondeu Soul com a mais irritante cara de "você não vê que eu estou certa?". Ginger olha para sua irmã com uma careta. Ela não achava homens taciturnos assustadores, exceto se fossem feios. Todo mundo sabia, que homens bonitos carregavam bem a aura de soturno. Tudo bem, Ginger leu demais romances com herois melancólicos e ela tinha que admitir que gostava da estética. O que ela não gostava era de criaturas em estado de putrefação a perseguindo para matá-la. O príncipe sombrio, ela tankava, os mortos, nem com muita força de vontade para sobreviver. Ginger desmaiava diretamente assim que os via. E Soul sabia disso. Com um suspiro e cruzando as mãos Ginger retruca sua irmã:

-Os emo também amam.

-É o exato oposto de você!

Continua Soul semicerrando os olhos. Sua irmã, um raio de sol, realmente parecia ter comprado a ideia de casar com uma nuvem de tempestade. Ela não via que isso seria difícil?

-Precisa ser decidido agora?

Interfere Beverly, antes que ficasse surda. Ela suspirou pesadamente, pouco à vontade para tomar partido entre as duas. Ginger insiste: 

-Eu acho que vou noivar sim com esse... Príncipe soturno! É melhor do que ir para o exército! 

-O Exército é três anos, o casamento o resto da vida. E sua vida vai ser muito longa. 

Continua Soul, também irredutível. Beverly suspira entre as duas.  Eleonora e Isaac se olham, em uma comunicação não verbal para ver quem iria interferir.

-O que te garante que não vou morrer antes dos três anos?! Hã?

Retruca Ginger, os olhos violetas arregalados. Soul range os dentes. Deveria existir outro jeito, pensou ela, apesar de no fundo saber que era isso ou aquilo e nenhum dos dois eram bons. 

-Que tal conhecemos esse tal príncipe sombrio pessoalmente? Não confio em assinar um contrato de casamento sem antes vê-lo. 

Interrompe Eleonora, antes que elas começassem outra vez essa queda de braço. Discutir isso não resolveria as coisas, mas conhecer o tal príncipe sombrio poderia colocar uma nova luz sobre as coisas. Soul e Beverly também precisavam ir à capital, afinal, elas eram militares e seus quarteis generais estavam lá. Isaac, acenando com a cabeça, concorda:

-Posso mandar uma carta para o Éden, propondo a ideia. Não gosto de casamentos ás cegas. 


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Dias depois os Garden começaram a se preparar para a viagem à capital. 


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